(Re)encontros entre Religião e Carnaval – Introdução ao Dossiê

*Renata Menezes e Lucas Bártolo*

Encontros e reencontros

As escolas de samba são agremiações carnavalescas surgidas em comunidades negras e periféricas do Rio de Janeiro no início do século XX, cujos desfiles competitivos articulam samba, dança, percussão, fantasias e alegorias em torno de uma narrativa central, o enredo. Atualmente, cerca de 80 escolas de samba competem no carnaval carioca, organizadas em ligas e associações que, divididas em grupos hierárquicos, desfilam em diferentes espaços da cidade (os dois primeiros, com as maiores escolas, desfilam no Centro da cidade; os demais, que oscilam entre quatro e cinco, desfilam na região suburbana).

No carnaval de 2026, uma série de “encontros” entre religião, escolas de samba, política e pesquisas em andamento produziu uma configuração interessante no Ludens (Laboratório de Antropologia do Lúdico e do Sagrado, Museu Nacional, UFRJ). Ela foi gerada pela repercussão nas mídias, plataformas e redes sociais digitais dos desfiles do Grupo Especial no Sambódromo, na Avenida Marquês de Sapucaí. A repercussão se formou em torno de desfiles que mobilizaram, de diferentes maneiras, repertórios religiosos e produziram debates sobre seus sentidos públicos. Tal reverberação fez com que pessoas de nosso laboratório que pesquisam religião, mas que não lidam diretamente com o universo carnavalesco, encarassem os meandros da folia, como é o caso de Magnólia Almeida e Mariana de Morais. Já Carlos Antonio de Souza, que estuda o Carnaval,  precisou entender alguns princípios do debate religioso, a fim de dar conta da micropolítica que marca seu campo de estudos. Quem acompanha essas relações há mais tempo, como Lucas Bártolo e Renata Menezes, pôde atualizar suas análises, comprovando algumas de suas chaves de interpretação. E, curiosa ou sintomaticamente, a relação do financiamento do Carnaval pelo poder público – federal, estadual, municipal – tangencia os trabalhos, remetendo às tensões e formas de relação entre as religiões e o Estado laico. 

Encontro é uma categoria analítica e uma forma de estar em trabalho de campo cujo rendimento heurístico tem sido explorado por Menezes em sucessivos trabalhos. Ele é diferente da descoberta casual pois, sem descartar a sorte ou o acaso, sempre bem-vindos na experiência etnográfica, implica localizar um ponto estratégico para desenvolver uma análise, o que envolve a agência de quem pesquisa. “Encontrar um encontro” demanda a sensibilidade de percebê-lo e de reconstruí-lo como uma questão analítica, de mobilizar estratégias e metodologias, articulando problemas teóricos a experiências sociais concretas, em uma atitude permanentemente reflexiva (Bourdieu, 1989), bem como a capacidade de tecer e de cuidar de redes de relação. Por outro lado, tomar “encontrar” como um objetivo de pesquisa preserva o espaço para que a busca seja de algo indeterminado, já que se trata, em nosso entendimento, de um movimento em direção ao ainda-por-conhecer.

É o cruzamento dessas perspectivas  de encontro que sustenta este dossiê, cuja articulação ora apresentamos. 

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Desfile da Beija-Flor de Nilópolis, 2026. Foto: Lucas Bártolo.

Enredamentos 

Magnólia Almeida traz um caso que atualiza as controvérsias envolvendo religião e carnaval ao analisar a repercussão da representação dos “neoconservadores em conserva” no desfile da Acadêmicos de Niterói em homenagem ao presidente Lula, Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil. A autora mostra como uma fantasia carnavalesca pode ser convertida em objeto de pânico moral e reapropriada nas redes sociais como signo de afirmação moral e religiosa. A partir de etnografia digital junto ao público feminino evangélico, acompanha como a controvérsia foi rapidamente capturada e reorganizada pela lógica das plataformas, mobilizando disputas em torno da família, das pedagogias de gênero e da exposição pública da identidade evangélica em contexto pré-eleitoral.

Já Carlos Antonio de Souza, ao analisar a repercussão do desfile da Portela, com o enredo O Mistério do Príncipe do Bará, a Oração do Negrinho e a Ressurreição de sua Coroa sob o Céu Aberto do Rio Grande, aborda os limites da mediação carnavalesca na tradução de experiências religiosas complexas, mostrando que a visibilização de tradições religiosas historicamente invisibilizadas no carnaval, como o Batuque, embora importante, pode ser insuficiente quando não considera como essa visibilidade é construída, por quais mediações passa e que tipo de relação estabelece com os sujeitos religiosos representados.

Em seu artigo neste dossiê marcado por encontros e reencontros, Mariana Ramos de Morais aborda como o enredo apresentado pela Paraíso do Tuiutí, intitulado Lonã Ifá Lucumí, amplia a representação pública das religiões afro-brasileiras no Carnaval, ao apresentar Ifá como tradição e sistema de conhecimento ancestral. Simultaneamente, ao centrar a narrativa no Ifá Lucumí (surgido em Cuba e difundido no Brasil sobretudo a partir dos anos 1990), a escola de samba constrói uma história única desse sistema oracular, evidenciando disputas internas do campo afrorreligioso brasileiro e afro-atlântico em torno de tradição, ortodoxia e autoridade religiosa.

Por fim, em nosso artigo O caleidoscópio religioso do Carnaval  retomamos alguns dos argumentos contidos em Menezes e Bártolo (2019), texto em que refletimos sobre como, a partir de uma pesquisa sobre devoção, “encontramos” o Carnaval das escolas de samba. Naquele momento, formulávamos a hipótese de que os desfiles constituíam uma via privilegiada para acessar formas de religião vivida que nem sempre se apresentavam como “o religioso” em sentido estrito. Ao mesmo tempo, observávamos que a presença da religião nos enredos começava a organizar controvérsias públicas, afirmações identitárias e disputas em torno da cultura nacional. Esse argumento, que foi desdobrado e aprofundado na conferência de titular de Menezes (2024) e na tese de doutorado de Bártolo (2026), com base na etnografia dos carnavais realizados entre 2016 e 2022, serve agora de base para sintetizar os resultados dos nossos estudos. E para articular a experiência de pesquisa do Carnaval a conceitos e temas que têm marcado as investigações de Menezes e seus orientandos e orientandas, como devoção, sacrifício, agonismo, performance, materialidades, quase numa demonstração ideal das múltiplas articulações entre o lúdico e sagrado, tendo por base as escolas de samba. 

Em conjunto, esses artigos também mostram que os “(re)encontros” entre religião e carnaval seguem produzindo novas questões de pesquisa. Ao acompanhar como conjuntos religiosos são mobilizados, traduzidos, contestados e recirculados nos desfiles e em suas repercussões públicas, o dossiê confirma que o carnaval permanece como uma arena privilegiada para observar disputas em torno do repertório da cultura nacional, da presença pública das religiões e do próprio sentido das festas.

Referências

BÁRTOLO, Lucas. No altar do samba: a religião no mundo do carnaval. Tese de Doutorado em Antropologia Social. Rio de Janeiro: UFRJ, 2026.

BOURDIEU, Pierre. Introdução a uma sociologia reflexiva. In: O poder simbólico. [S.l.]: Bertrand Brasil, 1989, p. 17–58.

MENEZES, Renata de Castro. A imagem sagrada na era da reprodutibilidade técnica: sobre santinhos. Horizontes Antropológicos, v. 17, p. 43-65, 2011.

MENEZES, Renata de Castro Reflexões sobre a imagem sagrada a partir do “Cristo de Borja”. In: Patrícia Reinheimer; Sabrina Parracho Sant?Anna.. (Org.). Reflexões sobre arte e cultura material. Rio de Janeiro: Folha Seca, 2013, p. 235-263. 

MENEZES, Renata de Castro. Santos, vadias e fetos. Ponto Urbe, v. 1, p. 3486, 2017. 

MENEZES, Renata de Castro. As muitas vidas de um chapéu de Carnaval. Mana , v. 30, p. e2024024, 2024. MENEZES, Renata de Castro & BÁRTOLO, Lucas. “Quando devoção e carnaval se encontram”. PROA: Revista de Antropologia e Arte, vol. 9, nº 1, p. 96-121, 2019.

Renata Menezes é professora do Museu Nacional (UFRJ) e coordenadora do Ludens

Lucas Bártolo é doutor em Antropologia e pesquisador do ISER

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