O caleidoscópio religioso do Carnaval

*Renata Menezes e Lucas Bártolo*

Escolas de samba como repositório de devoções

Em 2015, realizamos, com o apoio de Débora Simões, Luiz Gustavo Mendel e Morena Freitas e sob a ótica da antropologia da devoção (Menezes, 2004), um primeiro experimento de análise da modalidade narrativa singular que é o enredo das escolas de samba. Estudávamos a devoção aos Santos Cosme e Damião no Rio de Janeiro, caracterizada por uma festa de rua no dia 27 de setembro, nas fronteiras entre o lúdico e o sagrado, e procurávamos ampliar o repertório de informações quanto a práticas de culto, a atributos socialmente reconhecidos e a reinterpretações iconográficas. Sabendo que em 2016 os santos gêmeos seriam pela primeira vez personagens centrais de um enredo, na Renascer de Jacarepaguá, acompanhamos o desenvolvimento desse carnaval.

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Desfile da Renascer de Jacarepaguá, 2016. Foto: Thiago Oliveira/Acervo Ludens.

Inspirados em Lambek (2012), buscamos acompanhar os deslizamentos, justaposições e demarcações entre religioso e secular, sagrado e profano, sem fixar previamente o carnaval em qualquer uma dessas categorias. Nessa perspectiva, retomamos a ideia de  “caleidoscópio”, empregada em pesquisas anteriores do Ludens, e a aplicamos às escolas de samba, remetendo às múltiplas configurações que se tornam visíveis quando observamos as relações a partir de diferentes escalas e ângulos de análise. 

Se as escolas de samba operam como repositório dinâmico de conhecimentos encorpados, muitos desses conhecimentos são religiosos, ainda que nem sempre apareçam como “religião” em sentido estrito. Constatamos que a religiosidade atravessa o cotidiano e a subjetividade das pessoas envolvidas com a festa, sejam trabalhadores e trabalhadoras, componentes ou mesmo a audiência dos desfiles. A religiosidade, emblematizada nas alas das baianas, se desdobra nas formas de sociabilidade das quadras, nos calendários festivos, em ritos públicos e privados, nos modos de fazer do barracão, nas relações entre trabalhadores, artistas, dirigentes, comunidades e entidades espirituais. E nas relações do mundo do carnaval com o poder público. Questões religiosas surgem também nas disputas sobre o que pode ou não ser mostrado, cantado e vestido no Sambódromo.

Percebemos que o vínculo afetivo e identitário com a escola pode se assemelhar aos contornos de uma relação de devoção: uma relação de autoentrega, na qual o componente oferece seu corpo, seu tempo e seus recursos à agremiação. A devoção carnavalesca é atravessada por uma lógica sacrificial que, atrelada ao caráter agonístico do desfile, implica em dar tudo de si por uma entidade maior, ou pela causa comum de um desfile empolgante, o que é vivido muitas vezes como o sentido da existência, assemelhando-se  a concepções de sagrado.

No curso da pesquisa, os desfiles – performances complexas, sinestésicas, alegóricas – revelaram-se uma via de acesso privilegiada à religião vivida. Além de permitir diálogos com preocupações da antropologia da religião atual, como, por exemplo, quanto às relações entre eficácia ritual, técnicas de encantamento e os efeitos de materialidades carnavalescas, como sons, cheiros, texturas, cores e performances corporais; ou à redefinição do contorno entre o simbólico e o ontológico, a partir da agência de coisas carnavalescas, como bandeiras, tambores, animais, plantas e cores emblemáticas de cada escola de samba.

Desdobrando resultados

O experimento resultou inicialmente na dissertação de mestrado de Bártolo  e se desdobrou, ao longo dos anos, em uma pesquisa coletiva que deu origem a publicações, intervenções públicas, acervos para o Museu Nacional, exposições e, sobretudo, a interlocuções e parcerias que seguem nos acompanhando. 

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Barracão da Mangueira, 2017. Foto: Thiago Oliveira/Acervo Ludens

O aprofundamento etnográfico dessa agenda de pesquisa permitiu acompanhar em detalhe como a religião se inscreve na vida social das escolas de samba. Isso inclui as gramáticas de pertencimento e reconhecimento, os modos de circulação entre quadras, barracões, terreiros e avenida, e os imbricamentos entre técnica e ritual que marcam a produção carnavalesca, especialmente no caso das religiosidades de matriz africana. O aprofundamento revelou ainda que a presença evangélica nas agremiações assume configurações complexas. Em alguns casos, ela se manifesta de modo conflitivo, por meio do proselitismo de componentes e dirigentes; em outros, aparece de forma negociada, como nos barracões em que trabalhadores evangélicos se relacionam com a festa, sobretudo como meio de vida e espaço de trabalho.

Também se observou um aumento de enredos ancorados em universos simbólicos religiosos. Nos desfiles, eles surgiram de forma pontual e intermitente (nas escolas do Grupo Especial e do Acesso) até 2016. Desde então, porém, não houve carnaval sem que ao menos um deles abordasse a religião como tema central. Enredos que ganharam outra intensidade e passaram a organizar debates públicos, controvérsias, disputas políticas e afirmações identitárias.

Focalizar a religião nos enredos permitiu-nos acessar entrelaçamentos entre sagrado, festividades populares e processos sociais. Ao transpor para o campo do carnaval a perspectiva de Palmeira (1971), buscamos cartografar a configuração de um debate público sem, contudo, nos deixarmos circunscrever por suas polarizações. Sob essa ótica, as escolas de samba emergem como arenas de embates rituais, nos termos teorizados por Kapferer (2010). A visibilização de matrizes religiosas nos desfiles não é um fenômeno isolado, mas efeito de tensões que operam em múltiplas escalas, articulando demandas internas às associações carnavalescas a conjunturas sociopolíticas externas. Nesse contexto, a mobilização reafirma o que Mafra (2011) denominou de “a arma da cultura”: uma ferramenta de agência e resistência estratégica no cenário atual. A leitura dialoga ainda com trabalhos anteriores, como os de Gomes (2008) e Oosterbaan (2017), que constituíram referências importantes para nossa própria incursão.

A arena do Carnaval e seus enredamentos 

Ao considerar os enredos dessa última década como participantes de uma arena de debates em que ideias, valores, interpretações e pessoas se confrontam (Menezes, 2017), percebemos algumas inflexões. Expressões como africanidade, ancestralidade, religiosidade, brasilidade, sincretismo, resistência, (in)tolerância, racismo e respeito compõem uma espécie de campo semântico, materializado e performado através das múltiplas formas expressivas dos cortejos. São temas articulados, sobretudo, em torno de três pontos: conflitos políticos, combate à intolerância e ao racismo religioso e afirmações identitárias.

Essa tendência temática relaciona-se tanto a dinâmicas internas ao mundo do carnaval (como a diminuição de enredos patrocinados, o surgimento de uma nova geração de carnavalescos e de uma nova geração de dirigentes das escolas), quanto a processos mais amplos da sociedade brasileira, ligados às redefinições da cultura nacional, às mudanças do campo religioso brasileiro e aos avanços nas políticas de igualdade racial e de valorização das tradições de matriz africana. As próprias redefinições do campo artístico, atravessadas por movimentos de artivismo e por críticas decoloniais, marcam tanto a abordagem da religião nos enredos, quanto as formas escolhidas para apresentá-la, configurando uma maneira própria de artivismo carnavalesco, que busca desnaturalizar os paradigmas judaico-cristãos ocidentais. 

Quanto à morfologia do campo religioso brasileiro, entendemos que o aumento dos enredos que mobilizam o léxico religioso relaciona-se à sua reconfiguração, com a diminuição na população do número de católicos, o crescimento de evangélicos e dos sem religião, o surgimento de novas formas de adesão religiosa e o aumento de ataques de intolerância às religiões afro. 

Esse processo se articula, ainda, a outro conjunto de transformações socioculturais, políticas e econômicas. Particularmente, o mundo do carnaval foi atravessado pelos efeitos dessas mudanças durante o mandato do prefeito Marcelo Crivella (2017-2020), liderança do campo evangélico pentecostal, que impôs uma série de restrições aos desfiles e às manifestações afro-brasileiras em geral. A reação dos sambistas passou por acusações de intolerância e de racismo religioso e pela defesa das tradições de matriz africana como um dos pilares das escolas de samba. Uma defesa expressa também na valorização desse universo simbólico nos enredos, tendo como um de seus marcos a vitória da Grande Rio em 2022 com Fala Majeté! As sete chaves de Exu. Ao mesmo tempo, as disputas alcançaram os próprios sentidos do cristianismo, como propôs a Mangueira em 2020 com o enredo A verdade vos fará livre.

Mas seria insuficiente compreender esse processo apenas como reação a Crivella ou ao conservadorismo. O que está em jogo é mais amplo. Em um contexto marcado por movimentos antirracistas, contracoloniais e novas formas de artivismo, as escolas de samba passaram a participar, com força renovada, das disputas contemporâneas sobre raça, memória, religião, patrimônio, violência, democracia e justiça social. Nesse cenário, os enredos tornam-se uma das formas públicas pelas quais essas relações se condensam, ganham visibilidade e se convertem em debate. A materialização de tradições religiosas na avenida, portanto, não pode ser compreendida apenas como recurso temático, mas como elaboração estética e política de outros modos de narrar o Brasil: uma performance identitária que reafirma cosmologias, denuncia violências, reivindica ancestralidades e disputa os modos de legitimar e contestar mundos sociais.

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Desfile da Unidos de Vila Isabel, 2026. Foto: Lucas Bártolo.

O que observamos nos últimos carnavais, e reencontramos em 2026, pode ser compreendido como um processo de “religiosificação” da festa. Não se trata apenas do aumento de referências religiosas nos enredos, nem exclusivamente da valorização das tradições afro-brasileiras, embora esta seja uma dimensão decisiva. O que está em curso é uma intensificação das disputas religiosas em torno do carnaval. Grupos afrorreligiosos reforçam seus vínculos históricos com as escolas de samba e reafirmam sua centralidade simbólica, estética e ritual nos desfiles; segmentos pentecostais colocam a festa no centro de controvérsias morais e políticas; e a hierarquia católica redefine sua presença por meio de aproximações institucionais e da incorporação seletiva de símbolos, rituais e narrativas religiosas. Assim, o carnaval deixa de aparecer apenas como manifestação cultural secularizada e se revela como uma arena em que diferentes tradições religiosas disputam legitimidade, visibilidade e autoridade atreladas ao repertório da cultura nacional.

Referências

BÁRTOLO, Lucas. O enredo de Cosme e Damião no carnaval carioca. Dissertação de Mestrado em Antropologia Social. Rio de Janeiro: UFRJ, 2018.

BÁRTOLO, Lucas. Arte, magia e reciclagem no carnaval carioca: a alegoria de Cosme e Damião por Jorge Caribé. In: MENEZES, R.; TONIOL, R. (Org.). Religião e materialidades. Novos horizontes empíricos e desafios teóricos. Rio de Janeiro: Papéis Selvagens, 2021.

BÁRTOLO, Lucas. As escolas de samba e o encantamento do espaço público. Nexo Políticas Públicas, 13 fev. 2025a.

BÁRTOLO, Lucas. Sobre naufrágios e infortúnios: religiosidade e disputa de sentido no carnaval carioca. In: TAVARES, A. et al. (Org.). TRÂNSITOS: textos escolhidos de cultura e arte populares. Rio de Janeiro: NAU, 2025b.

BÁRTOLO, Lucas. Baianas do santo e do samba. A Lavagem da Sapucaí como performance política. Religião & Sociedade, v. 45, n. 2, e450210, 2025c. 

BÁRTOLO, Lucas. No altar do samba: a religião no mundo do carnaval. Tese de Doutorado em Antropologia Social. Rio de Janeiro: UFRJ, 2026a.

BÁRTOLO, Lucas & BORA, Leonardo. Art, travail et miracle: Le système technique du carnaval des écoles de samba. Techniques & Culture, n. 78: 26-49, 2022.

BÁRTOLO, Lucas & MENEZES, Renata de Castro. Religião e Cultura no Carnaval 2022. Instituto Humanitas Unisinos, 27 mai. 2022.

GOMES, Edlaine Campos. “Onde está o pluralismo: manifestações da religião na metrópole”. Enfoques, v. 7: 1-24, 2008.

KAPFERER, Bruce. “In the event: Toward an anthropology of generic moments”. Social Analysis, vol. 54, nº 3: 1-27, 2010.

LAMBEK, Michael. “Facing Religion, From Anthropology”. Anthropology of this Century, (4), 2012

MAFRA, Clara. A ‘arma da cultura’ e os ‘universalismos parciais’”. Mana, vol. 17, nº 3: 607–624, 2011.

MENEZES, Renata de Castro. A dinâmica do sagrado. Rio de Janeiro: Relume Dumará: NuAp, 2004. 

MENEZES, Renata de Castro. Santos, vadias e fetos. Ponto Urbe, v. 1: 3486, 2017. 

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MENEZES, Renata de Castro. La tematización de lo religioso en las escuelas de samba de Rio de Janeiro (2016-2022): performances festivas y procesos sociales. Encartes, v. 9: 37-64, 2026. 

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MENEZES, Renata de Castro & REIS, Livia. Gestão Crivella e a experiência-modelo do projeto da IURD. Entrevista IHU-OnLine. 19 jul. 2017. Disponível em:  https://encurtador.com.br/otzc

OOSTERBAAN, Martijn. “Transposing Brazilian Carnival: Religion, Cultural Heritage, and Secularism in Rio de Janeiro”. American Anthropologist. vol. 119, nº 4: 697–709, 2017.

PALMEIRA, Moacir Gracindo Soares.  Latifundium et Capitalisme au Brésil: lecture critique d’un débat. Paris: Université René Descartes, 1971 (Tese de Doutorado de 3o. ciclo).

Renata Menezes é professora do Museu Nacional (UFRJ) e coordenadora do Ludens

Lucas Bártolo é doutor em Antropologia e pesquisador do ISER

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