*Carlos Antonio Nascimento de Souza*
Em junho de 2025, a escola de samba Portela, do Rio de Janeiro, anunciou que o cenário do seu desfile do carnaval seguinte seria o Rio Grande do Sul. O enredo, segundo a agremiação, fazia dela pioneira ao apresentar uma história inédita para o Sambódromo da Marquês de Sapucaí, que trazia um Brasil desconhecido da sociedade: a vida de um príncipe africano nas terras dos pampas. Intitulado “O Mistério do Príncipe do Bará, a Oração do Negrinho e a Ressurreição de sua Coroa sob o Céu Aberto do Rio Grande”, o enredo portelense buscava reafirmar a existência e a resistência da negritude gaúcha por meio de um mito narrado por Negrinho do Pastoreio que, a pedido do orixá Bará, encontra um personagem silenciado da memória brasileira pelo racismo que atinge o povo negro, Custódio Joaquim de Almeida (Portela, 2026).
A trajetória de Custódio, príncipe nascido no Benin, é vista como a história de um homem africano que, ao chegar no Rio Grande, se tornou o centro de poder da sociedade, transitando dos nobres aos pobres e dos políticos aos mendigos apenas por meio de sua espiritualidade: macumbas, benzeduras, encantos e feitiçarias que articularam as cinco nações de descendências negras presentes em Porto Alegre (Oyó, Ijexá, Jeje, Cabinda e Nagô) e proporcionaram a organização do Batuque, a religião do negro gaúcho (Portela, 2026). Na fábula portelense, cíclica e infinita, ao contar a história de Custódio, Negrinho do Pastoreio mantém o seu legado vivo e inspirando diversos negrinhos e negrinhas pela eternidade.
O enredo foi recebido com entusiasmo tanto entre portelenses, quanto por indivíduos do sul brasileiro ligados de alguma forma ao tema, gerando reações amplamente positivas imediatamente após a sua divulgação. Enquanto no Instagram da Portela os comentários, que em sua maioria empregavam a frase “tem preto no sul”, destacavam a emoção com o anúncio do enredo, a relevância do tema, já explorada em outro texto deste blog, o site do Governo gaúcho destacou a inovação da proposta da escola, comparando-a com outros enredos que abordaram o Estado no carnaval carioca. Tal como a Portela, o governo estadual também ressaltou o resultado do Censo 2022 que apontou o estado com a maior proporção de praticantes de religiões de matriz africana no Brasil.

Embora na publicação o governo confirmasse apenas um apoio institucional e não financeiro a Portela, em que o poder público estadual atuaria como um articulador para a captação de recursos via Lei Rouanet, o debate sobre o uso de verbas públicas no desfile de carnaval tomou as redes sociais, levando Eduardo Leite, governador do Estado, a publicar um vídeo rechaçando quaisquer possibilidades de aportes financeiros na agremiação carioca. Para Fernanda Oliveira, historiadora gaúcha que foi enredista da escola junto de João Vitor Silveira e Marcelo David Macedo e do carnavalesco André Rodrigues, houve um “racismo implícito” nas reações contrárias a um possível patrocínio do Rio Grande do Sul à Portela.
Se em junho, durante a viagem da comissão de carnaval portelense pelos municípios de Porto Alegre, Pelotas e Rio Grande para a pesquisa do enredo em terreiros e instituições afro-gaúchas, o clima entre os homenageados era de celebração pela valorização e visibilidade dos símbolos da cultura negra e batuqueira no palco do maior espetáculo da Terra, nos meses seguintes isso mudou. Já na disputa de samba-enredo, etapa central no processo de construção de um carnaval por escolher a trilha sonora do desfile, portelenses e gaúchos passaram a viver em conflito nas redes sociais da escola de Oswaldo Cruz e Madureira.
Em razão do cenário e em agradecimento à recepção do enredo pelos gaúchos, a Portela anunciou que realizaria uma disputa de samba no sul, em que o samba vencedor se juntaria à disputa carioca na sua penúltima etapa. Em minha dissertação (Souza, 2026), mostrei que a disputa de samba da Portela é conflituosa e sempre gera polêmica no mundo do carnaval por dividir todo o corpo social da agremiação. Para além das predileções entre compositores concorrentes, normais em uma competição, a disputa expressa tensões entre todas as instâncias da escola de samba e que são dotadas de conflitos e ambivalências sociais. Assim, enquanto os gaúchos torciam para o samba vencedor da etapa Sul, cariocas, em sua maioria, declaravam apoio aos seus finalistas.
Entretanto, as demonstrações de apoio de ambas as torcidas não giravam em torno de questões que frequentemente ocupam os debates das disputas de samba, como o rendimento de um samba-enredo, mas sim de questões identitárias. Nos momentos em que portelenses apontavam que o samba gaúcho trazia em seu refrão as cores da agremiação em ordem errada – branco e azul ao invés de azul e branco –, gaúchos assinalavam que os outros três sambas finalistas, do Rio de Janeiro, não tratavam corretamente de elementos do Batuque e traziam termos e nomenclaturas de outras vertentes afro religiosas, como o candomblé. É dessa forma que no anúncio do samba-enredo vencedor, do Rio de Janeiro, as redes sociais da Portela foram inundadas de comentários que problematizavam versos do samba, como o refrão principal que trazia a expressão “carregada no dendê” – vista, nestas opiniões, como ausente do ecossistema do Rio Grande do Sul e pertencente ao universo afro religioso da Bahia. Houve, a partir daí, quem questionasse todo o processo de carnaval da Portela: da viagem da comitiva da escola ao Sul até a realização de uma disputa de samba na região sem a vitória da obra musical concorrente. Nessas críticas, as pessoas apontavam que uma homenagem que desrespeitava os elementos religiosos do enredo transformava a felicidade e o orgulho do reconhecimento e da visibilidade proporcionada com o anúncio do tema em frustração (figura abaixo).

Com o período de pré-carnaval exaltando toda a proposta temática da Portela nas mídias sociais, televisivas e jornalísticas, o desconforto dos gaúchos com a agremiação somente reapareceu após o desfile na Sapucaí. Se o mundo do carnaval (Menezes, 2020) estava preocupado com a sequência de problemas técnicos que a Portela teve em seu cortejo, os chamados batuqueiros tomaram as redes sociais em indignação com o desenrolar da história da religião no desfile. Já compondo os fluxos das redes sociais da bolha do carnaval, seus posts no Facebook, no Instagram e no X comentavam em tempo real as incongruências narrativas da fábula portelense em relação ao Batuque.

Nessas diversas postagens[1], em geral, as pessoas, que reconheciam o papel dessa homenagem, apontavam “não haver nada de batuque no desfile”. Num post no Facebook um homem ressaltou a falta de embasamento religioso e histórico na representação das cores da nação Ijexá em uma das fantasias. Entre os 148 comentários recebidos da publicação, estavam críticas que enxergavam um desenvolvimento raso do tema pela Portela e uma falta de aprofundamento nas pesquisas e estudos sobre a religião.
Na mesma rede, um pai de santo da nação Cabinda disse ser “doloroso ver elementos sagrados do Batuque – que exigem preceito, toque específico e uma cosmogonia própria – serem reduzidos a adereços de fácil digestão visual.” Em um vídeo de mais de dez minutos publicado no Facebook e no Tiktok, outro pai de santo discursou sobre a decepção com elementos do desfile portelense. Para além de relatar o incômodo como uma fantasia que trouxe um galo espiritual como adereço de mão e que o teria deixado “anojado” pelo balançar festivo de um símbolo ligado à sua espiritualidade por parte dos desfilantes, refletiu também sobre os erros da TV Globo durante a transmissão do cortejo. Entre os problemas, o babalorixá aponta a falta de explicação dos elementos do desfile pelos apresentadores e a postura jocosa deles diante da passagem da origem da sua religião na Sapucaí.
Esse caso portelense nos mostra que a retirada da invisibilidade histórica com a passagem na Sapucaí não é suficiente. Ele evidencia que é preciso ir além dos legitimadores utilizados para a construção do enredo, como a presença de uma pesquisadora local na equipe de enredistas e de visitas para a pesquisa temática restritas ao início do ciclo carnavalesco. Nomeado como um “trabalho de campo” pela Portela em seu livro Abre-Alas, o documento oficial do seu carnaval, o percurso em terreiros e instituições afro-gaúchas e o desenvolvimento do carnaval aponta, assim, para questões que há décadas perpassam o fazer antropológico: a escrita e representação do outro. Aqui, a autoridade etnográfica, que legitimou a descrição de culturas e sociedades pela presença do antropólogo, é substituída pela autoridade carnavalesca, que esteve lá, viu e reconstruiu o Batuque no cortejo da escola de samba. Nesse sentido, enquanto a presença do autor (Caldeira, 1988) surge no texto descrevendo as experiências sensoriais da comissão de carnaval portelense diante da cultura batuqueira, as vozes dos religiosos são silenciadas, fazendo com que em suas publicações nas redes sociais eles assinalem que o desfile tenha sido “vazio para o coração”, ou ainda, que “não o represente”.

Tendo os enredos religiosos se consolidado no carnaval carioca, as reações dos batuqueiros trazem não apenas um descompasso entre expectativa e realização, mas reflexões sobre as formas pelas quais as escolas de samba devem conduzir a construção dos seus desfiles nessa seara temática. Dessa forma, os comentários apontam os limites da mediação carnavalesca em traduzir experiências religiosas complexas e a necessidade de maior proximidade e constância ao longo do processo de feitura do desfile com o objeto do enredo.
Referências
CALDEIRA, Teresa Pires do Rio. A presença do autor e a pós-modernidade em Antropologia. Novos estudos, São Paulo, n.21, p. 134 – 157, 1988.
G.R.E.S. PORTELA. O Mistério do Príncipe do Bará, a Oração do Negrinho e a Ressurreição de sua Coroa sob o Céu Aberto do Rio Grande. In: LIGA INDEPENDENTE DAS ESCOLAS DE SAMBA DO RIO DE JANEIRO (LIESA). Abre-Alas: domingo, carnaval 2026. Rio de Janeiro: LIESA, 2026, p. 126-251
MENEZES, Renata. Caos, crise e a etnografia das escolas de samba do Rio de Janeiro. Hawò, Goiânia, v. 1, p. 1–38, 2020.
SOUZA, Carlos Antonio Nascimento de. Um ritual em azul e branco: a disputa de samba-enredo da Portela para o carnaval 2025. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social) – Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2026.
Carlos Antonio Nascimento de Souza é Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (MN/UFRJ)
[1] Todas as publicações e comentários analisados foram encontrados através do emprego das palavras-chave “portela desfile batuque” nos mecanismos de buscas das redes sociais.
