*Fátima Tavares e Camila Chagas*
Tivemos recentemente, em 21 de janeiro, mais um Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, 26º aniversário do falecimento de Mãe Gilda de Ogum, fundadora do terreiro Ilê Axé Abassá de Ogum, data oficializada na Lei nº 11.635, de 27 de dezembro de 2007, pelo presidente Lula. Em Salvador, as atividades se estenderam ao longo do mês. Modalidades de visibilização pública do racismo religioso, já tradicionais na cidade, como as “Caminhadas”[1] que acontecem em diferentes épocas do ano, também ganham espaço nesse momento. É o caso do “Arrastão da Liberdade”, que desde 2024 é realizado pelo Terreiro Abassá de Ogum e que teve sua 3ª edição neste ano[2].
A maioria das atividades, no entanto, varia a cada ano, com novas expressões comemorativas desse Dia, como as organizadas pelo CONIRB (Conselho Inter-religioso da Bahia), que visibilizam as intenções orgânicas desse coletivo. Buscando a promoção da cultura da paz e o respeito à diversidade religiosa, o CONIRB foi criado, oficialmente, em fevereiro de 2023, em Assembleia realizada na Igreja do Rosário dos Homens Pretos, no Pelourinho. Composto majoritariamente por lideranças do Candomblé e da Umbanda, naquela ocasião estiveram presentes, além de lideranças afrorreligiosas, representantes da Igreja Católica, Igreja Batista Nazareth, Movimento Hare Krishna e Fé Bahá’í. O grupo passou a interagir através do whatsapp e a prestar solidariedade às vítimas de templos religiosos alvos de intolerância religiosa, através do acolhimento, visitas, e atos de apoio nas redes sociais, em eventos e na interlocução com órgãos públicos.
Para lidar com as práticas de intolerância religiosa direcionadas majoritariamente aos povos de terreiro, durante o processo de estruturação do grupo foi criada uma coordenação que organiza as demandas de representação e incidência política do coletivo. A primeira coordenação do CONIRB, composta por seis membros, contou com maioria de afrorreligiosos: dois cristãos (Pe. Lázaro Muniz da Igreja Católica Romana e a Pastora Batista Camila Oliver); um umbandista (Pai Raimundo de Xangô); três afrorreligiosos (Iyá Márcia de Ogum e os Ogãs Elias de Oxalá e Ailton Ferreira de Ogum).
Desde então o coletivo vem ampliando sua diversidade religiosa, com a inclusão de representantes do espiritismo, Brahma Kumaris, Centro Cultural Islâmico da Bahia e de organizações da sociedade civil (KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço), além de adesões individuais (como a da 1ª autora). Os esforços para a ampliação da diversidade religiosa do coletivo visibilizam sua proposta fundadora de valorização da diversidade interna para o diálogo inter-religioso articulado ao reconhecimento do protagonismo das religiões de matriz africana na luta por direitos e no combate ao racismo religioso. No final de 2025 o grupo aprovou seu Regimento Interno, oficializando regras de admissão, permanência e composição da coordenação. Naquela ocasião, em que estivemos presentes, pudemos acompanhar a articulação cuidadosa entre essas duas “faces” do ativismo na composição da nova coordenação. Embora a nova coordenação tenha mantido a mesma proporção da diversidade religiosa que a anterior (dois cristãos e quatro afrorreligiosos), havia o reconhecimento da importância da presença de outras religiões, especialmente as minoritárias, na coordenação.
Neste 21 de Janeiro de 2026 essas duas faces orientaram as atividades promovidas pelo coletivo, que antecipou sua atividade principal para o dia anterior[3]. Na manhã do dia 20 de janeiro foi noticiada a violação do Terreiro de Candomblé Nzo Mutá Lombô ye Kayongo Toma Kwiza, no bairro de Cajazeiras XI, em Salvador, com pichações de “assassinos” e “Jesus” em tinta vermelha no muro e portão principal. Esse crime, que acontecera no sábado, dia 17, teve ampla repercussão na cidade por conta da infame “coincidência” com as atividades que ocorreram naquela semana.
Com a chamada nas redes sociais: “Vamos dialogar em favor da paz e do respeito por todas as religiões”, o Ato Interreligioso promovido pelo CONIRB teve lugar na Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, às 16h (antes da tradicional missa afro que tem lugar às terças-feiras, às 18h), com a Igreja lotada de frequentadores e turistas do verão de Salvador para o evento e a missa que aconteceria em seguida. O Ato – conduzido pelo Pároco da Igreja, Pe. Lázaro, com a participação do Ogã Elias Conceição, ambos coordenadores do CONIRB –, reuniu muitos participantes do coletivo e lideranças religiosas convidadas, além de gestores públicos. Foi marcado por falas e depoimentos em “blocos” religiosos, que intercalavam músicas de exaltação da cultura negra e a leitura de breves mensagens extraídas de livros sagrados e de autores indígenas, em que podíamos acompanhar por meio de um “folheto” distribuído aos participantes do coletivo, dispostos nos bancos de uma área reservada da Igreja. Inicialmente foram reunidos representantes de religiões minoritárias, visibilizando a diversidade religiosa do coletivo (espiritismo, Brahma Kumaris, Hare Krishna, Fé Bahá’í e Islã), com mensagens sobre respeito e promoção da paz. Em seguida, os evangélicos (membros do Conselho Baiano Ecumênico de Igrejas Cristãs e do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs) também abordaram a importância do respeito religioso, além do reconhecimento, destacado por Pe. Lázaro, da responsabilidade dos cristãos na perseguição às religiões de matriz africana. A seguir, houve o bloco das organizações da sociedade civil (Coordenadoria Ecumênica de Serviço – CESE, KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço, Conselho de Desenvolvimento da Comunidade Negra – CDCN, Instituto Reparação), em que se destacou a parceria da sociedade com a luta contra o racismo religioso. Por fim, delineando um certo clímax do evento, tivemos o último bloco das lideranças do Candomblé e Umbanda (membros do CONIRB e convidados), com mensagens assertivas, articulando o fortalecimento da cultura do respeito e da paz com o combate à intolerância e racismo religioso, incluindo menções ao crime de racismo religioso contra o Terreiro de Candomblé noticiado na manhã daquele dia. A última fala, da Secretária Estadual de Promoção da Igualdade Racial, destacou a importância da atuação do CONIRB no enfrentamento ao racismo religioso. No final do evento, os membros do CONIRB, em ato de solidariedade, decidiram realizar um mutirão inter-religioso para pintar a fachada e o portão do Terreiro vilipendiado como forma de acolhimento e respeito aos membros da casa.
No evento de comemoração do 1º aniversário da DECRIN, no dia 21 de janeiro, registramos a presença expressiva de participantes do CONIRB, além de membros da corporação da polícia civil, gestores públicos, ativistas do movimento negro, além de vereadores e deputadas estaduais. As falas destacaram a importância da atuação da Delegacia e a demanda pela interiorização de suas ações nas diferentes regiões do estado da Bahia. Também pudemos observar as menções mais ou menos explicitas à questão da quase exclusividade das vítimas de intolerância religiosa serem das religiões de matriz africana – diferenças em relação ao “peso” do racismo estrutural e institucional e seus desdobramentos no racismo religioso alimentam tensões no âmbito do movimento negro, em que evangélicos também têm presença. Ao final do evento, uma saudação demorada e emocionada da Secretária Estadual de Promoção da Igualdade Racial, que destacou especialmente a beleza e intensidade do Ato Interreligioso promovido pelo CONIRB no dia anterior, bem como a importância da atuação desse coletivo, com sua configuração de diversidade religiosa no enfrentamento ao racismo religioso. No evento foi assinado publicamente um protocolo de atendimento às vítimas de racismo e intolerância religiosa e algumas lideranças/coletivos foram condecorados com um brasão da polícia civil, sendo o CONIRB um dos presenteados.
No dia 25, no Pelourinho, a SEPROMI e os Filhos de Gandhy organizaram o Ato inter-religioso do Festival Cultura da Paz. Membros do CONIRB, convidados do evento, enfatizaram em suas falas a promoção da paz e respeito entre as religiões. Com a chamada “Lavagem da sujeira dos intolerantes: toda fé é sagrada. Racismo religioso é crime”, no dia 28 de janeiro lideranças afrorreligiosas realizaram um Ato em frente ao Terreiro vandalizado, organizado pela Frente Nacional Makota Valdina. A “lavagem” das paredes e portões foi feita com água de cheiro, banho de pipoca e milho branco, além de incensado o local. Após falas das lideranças, os participantes seguiram em marcha nas ruas do bairro. No mesmo dia, à tarde, no Terreiro Olufanjá, no bairro de Tancredo Neves, aconteceu o lançamento da Cartilha “Assistência Religiosa de Matriz Africana”, com a apresentação do trabalho de assistência religiosa realizado por lideranças de terreiro no presídio feminino, assistidas por KOINONIA.
Finalizando este relato sobre as atividades do Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa e o papel do CONIRB nesse processo, gostaríamos de retomar as impressões da Secretária da SEPROMI sobre o Ato Inter-religioso, destacando algumas características que performam esse coletivo e que se visibilizaram naquele 20 de janeiro. Realizar uma cerimônia num dos espaços religiosos mais icônicos de Salvador para a luta contra o racismo religioso, como a Igreja do Rosário dos Pretos, cria uma ambiência ao mesmo tempo acolhedora e combativa. A presença de uma diversidade expressiva de lideranças religiosas que se engajaram não apenas nos “conteúdos” – das palavras dos depoimentos e da “liturgia” das mensagens lidas –, mas também nas “formas” – com a força da emoção nas músicas, nos instrumentos de percussão, e nas performances corporais dos gestos, danças, sorrisos e abraços –, fez emergir uma experiência de autenticidade comunitária, no sentido evocado por Birgit Meyer (2019), que nos leva a disposições diferenciadas que nos mobilizam a fazer coisas juntos. Isso possibilita certamente a construção de novas formas de lidar com as hierarquias do poder, reabilitando o papel das emoções, como sustenta a perspectiva de Catherine Lutz e Lila Abu-Lughod (1990), na promoção do diálogo e no combate ao racismo religioso na vida cotidiana.
Diálogo inter-religioso de verdade só pode ser feito com o protagonismo das religiões minoritárias de matriz africana, já que são elas as maiores vítimas, ao contrário do que vem sendo propagado com os recentes projetos de lei municipais em Salvador e em outras cidades do país, de combate à cristofobia. A experiência do CONIRB performa um protagonismo afrorreligioso inclusivista, engajado com a diversidade religiosa minoritária, não apenas do ponto de vista quantitativo. O “minoritário” referido aqui compreende outra abordagem da diversidade: a que recusa assimetrias de poder em relação à história de apagamentos religiosos, característica dos velhos e novos cristianismos colonizadores no Brasil.
Referências
ABU-LUGHOD, L.; LUTZ, C. Introduction: Emotion, discourse, and the politics of everyday life. Language and the politics of emotion, v. 1, p. 1-23, 1990.
MEYER, B. Como as coisas importam: uma abordagem material da religião – textos de Birgit Meyer. E. Giumbelli; J. Rickli; R. Toniol (orgs.). Porto alegre: UFRGS, 2019.Camila Chagas é advogada e graduanda em Ciências Sociais pela Universidade Federal da Bahia
[1] Em fevereiro temos a Caminhada da Pedra de Xangô, organizada pela associação de terreiros de Cajazeiras (Associação Pássaro das Águas), monumento tombado pela Prefeitura de Salvador como patrimônio cultural da cidade. Em 16 de agosto, a Caminhada Azoany, organizada pela Associação Comunitária Alzira do Conforto, que vai do Centro Histórico de Salvador até o Santuário de São Lázaro e São Roque, no bairro do Engenho Velho da Federação. A Caminhada Tembwa Ngeemba Tempo de Paz também ocorre em agosto, sendo realizada pelo Terreiro São Jorge Filho da Goméia no município de Lauro de Freitas, na Região Metropolitana de Salvador. Em 15 de novembro é a vez da Caminhada promovida pelos terreiros localizados no Bairro Engenho Velho da Federação. Também em novembro é realizada, desde 2014, a Caminhada dos Povos de Terreiro do Subúrbio Ferroviário de Salvador, promovida pela Rede Religiosa de Matriz Africana.
[2] O evento é organizado pelo Abassá de Ogum, terreiro de Candomblé situado no bairro de Itapuã, em Salvador, e liderado pela sacerdotisa Iyá Jaciara Ribeiro de Oxum, sucessora e filha biológica de Mãe Gilda de Ogum. Neste ano foi realizado no domingo, 25 de janeiro, com uma caminhada saindo do Terreiro até o Busto de Mãe Gilda de Ogum, na Lagoa do Abaeté, com trio elétrico e falas sobre Mãe Gilda e o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, acompanhado de canções entoadas pelas Filhas de Gandhy e Zinho Magalhães. Na oportunidade também foi inaugurada a Loja de artigos religiosos Toboginã, no Parque Metropolitano do Abaeté.
[3] Possibilitando, conforme veremos a seguir, a participação do CONIRB na celebração do 1º ano de funcionamento da Delegacia Especializada de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa – DECRIN, promovida pela Secretaria de Promoção à Igualdade Racial da Bahia – SEPROMI.
Camila Chagas é advogada e graduanda em Ciências Sociais pela Universidade Federal da Bahia
