Matéria, fé e movimento

*Vanessa Gomes de Campos*

A exposição 255 Anos de Fé Católica em Porto Alegre (RS) permitiu desentesourar objetos e documentos que vieram a lume pela última vez na década de 1940. Os materiais, custodiados pela Arquidiocese de Porto Alegre ocupam, desde março de 2026, o subsolo do Memorial do Ministério Público do Rio Grande do Sul, onde permanecerão até 30 de junho.

A curadoria, assinada por mim e por Caroline Zuchetti, museóloga, seguiu a perspectiva de pensar a religião através de suas formas materiais (Toniol, 2022). A noção, advinda da Antropologia, foi usada como recorte para o conceito expográfico que moldou a narrativa visual e também textual. O fato é que, embora existisse um recorte temporal (séculos XVIII e XIX), também houve preocupação em questionar a permanência de certas práticas do ato de crer.

Devido à minha formação profissional, fiquei encarregada da pesquisa histórica e dos textos que compuseram a exposição, assim como de todos os materiais que derivaram dela, como releases, divulgações, o catálogo, etc.

No texto de abertura foi preciso apresentar a proposta da narrativa, na qual lancei a importância cultural e simbólica do ato de crer. Trata-se de um detalhe relevante falar em ato de crer antes de adentrar na ideia de religião que comumente se tem, mas do qual se pretende afastar: “Sociológica e historicamente, o conceito de religião, tal como tem sido definido, aponta para uma experiência íntima, relegando a materialidade (ritos instituições, crenças) a um lugar subalterno, subjugado ao espírito Toniol (2022) e Souza (2019; 2022)”. Com isso, se concebeu a exposição, de fato, com a intenção de apresentar a “Igreja Católica na cidade, proporcionando reflexões que entrecruzam a instituição, em sua forma hierárquica de existência entre os séculos XVIII e XIX, e as diversas expressões do ato de crer que fazem a mediação com o sagrado (Aguiar, 2024, p. 2)”. Para contar essa história, foi utilizado o acervo que “integra os bens culturais da Arquidiocese de Porto Alegre” e que, na ocasião, “assume um papel de reflexão, a partir do caráter material da crença e da fé, como forma de entender que a transcendência espiritual não se opõe às formas sensoriais e expressivas que nos formam”. No mesmo texto de abertura foi reproduzida a imagem de roca de São Francisco das Chagas, a mais antiga do acervo e que também atribuiu o tempo que nomeou a exposição (255 anos).

Devido à temporalidade histórica agregada, alguns desafios se lançaram para a utilização da categoria religião material ao se empreender o conceito e o partido expográfico. (No meu parecer, nós, da História, ainda temos muito a discutir em relação ao desenvolvimento do conceito.)

O percurso expositivo

O partido expográfico buscou dialogar com o espaço onde a exposição foi montada, mostrando equilíbrio e linguagem visual adequada ao ambiente (Figura 1). Foram pensados quatro eixos que exibissem uma unidade conceitual e visual, como forma de organização e apropriação pelo visitante. Também foi explorado o design gráfico, utilizando cores diferentes para cada eixo e elementos decorativos que remetessem a formas artísticas do século XVIII (Figura 2).

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Figura 1 – Visão geral do local da exposição.
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Figura 2 – Exemplo da arte dos painéis: a cor rosada é a do terceiro eixo.

No primeiro eixo, intitulado “Edificarás minha Igreja”, com a expressão entre aspas, foi pensada em alusão à passagem bíblica do evangelho de Mateus 16, 18 (“Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja”) como forma de consolidar que o módulo se refere à Igreja hierárquica, burocraticamente constituída. A partir daí, elementos históricos da ocupação do império português na América Meridional são apresentados, com ênfase na instituição da primeira freguesia da cidade. Junto, foram expostas algumas insígnias episcopais, como a cruz peitoral e o anel, a primeira cátedra, um quadro a óleo, no qual está retratado o segundo bispo do RS, e a constituição eclesiástica do Cabido Catedralício, que atualmente não existe mais em Porto Alegre.

Para o segundo eixo, Mediando o Sagrado, através de objetos ritualísticos e de imagens, a ideia era evidenciar, a partir de Toniol (2022) e Aguiar (2024), que: “As palavras, as coisas e as imagens nas religiões promovem a conexão com o divino, pois despertam sensações nos sujeitos. Os objetos são mediações sensoriais mobilizadas individual e coletivamente e possibilitam a experiência do religioso”.

Da Devoção à União intitulou o terceiro eixo, que apresentou a importância das irmandades nos contextos colonial e imperial. Utilizando os apontamentos de Torres-Londoño (2001), que defende o deslocamento das devoções para a periferia colonial como ferramentas para impor o cristianismo, organizar, gerar laços e arquitetar identidades entre os devotos, abordamos as diversas irmandades que existiram em Porto Alegre e que construíram os templos mais antigos. Ênfase especial foi dada à igreja de Nossa Senhora do Rosário, pertencente à irmandade do mesmo nome, que foi tombada pelo SPHAN (atual IPHAN) em 1938 e teve o tombamento cancelado em 1941, que resultou na sua demolição. Um dos remanescentes do antigo templo – que atualmente ocupa um armário na casa paroquial da igreja do Rosário – é a imagem de Santa Bárbara, exemplar artístico inigualável do final do século XVIII, com uma trajetória simbólica ainda mais digna de ser estudada (Figuras 3, 4 e 5).

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Figura 3 – Imagem de Santa Bárbara (século XVIII)
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Figura 4 – Detalhe do manto
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Figura 5 – Detalhe da barra da veste

Para encerrar o percurso da exposição, a pergunta: A fé move ou é movida? Com isso, a intenção foi evidenciar algumas continuidades devocionais que se exibem em atos de crença, muitas vezes relegadas à ideia de devoção popular. Como exemplo, foram lembradas a festa do Divino Espírito Santo, a festa a Nossa Senhora dos Navegantes e os ex-votos da Gruta Nossa Senhora de Lourdes. Diante de multidões que se mobilizam na procissão, no calor de Porto Alegre, para prestar suas homenagens a Navegantes (Figura 6), como não se impressionar com tamanha devoção? Por isso, a mensagem final foi buscar entender que “o fenômeno do sagrado implica uma atitude, a qual se implementa com a externalização do ato de crer. Os sujeitos são moldados culturalmente e cada religião tem uma forma estética particular (Souza, 2024), comunicada através das relações sociais no tempo e espaço”.

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Figura 6 – Procissão de N. Sra. dos Navegantes,
a 2 de fevereiro de 2026, com estimativa de 50 mil fiéis. Fonte: Assessoria de Comunicação
da Arquidiocese de Porto Alegre/RS

Últimas palavras

Para terminar, quero retomar o movimento e a materialidade de Santa Bárbara, antes mencionada. A imagem perdeu seus atributos e seu altar, seu local de culto. Sua biografia cultural (Kopytoff, 2008) é um verdadeiro emaranhado histórico, social e político, que percorreu os séculos de sua existência e atribuiu significados que se revelam em sua forma física.

Na exposição 255 Anos de Fé Católica em Porto Alegre ela voltou a andar pelas ruas que outrora conheceu e agora reivindica ser novamente levada em consideração. Do seu propósito original, do culto, ela hoje ganha um novo status: o de bem cultural.

A experiência da parceria interinstitucional para a realização da exposição colocou em evidência materiais inigualáveis para análises histórico-culturais das sociedades do passado e também para refletir a continuidade de crenças que, mesmo destituídas de altares religiosos, podem ocupar novas vitrines.

Referências

AGUIAR, Carlos Eduardo Souza. Cultura material e religião: por uma abordagem mediática das relíquias. Medições, Londrina, v. 29, n. 3, p. 1-18, set.-dez. 2024.

KOPYTOFF, Igor. A biografia cultural das coisas: a mercantilização como processo. In: APPADURAI, Arjun. A vida social das coisas. Niterói: EDUFF, 2008, p. 89-121.

MENEZES, Renata de Castro. Os objetos religiosos cabem em quais vitrines? In: PORTO, Nuno; LIMA FILHO, Manuel (orgs.). Coleções étnicas e museologia compartilhada. Goiânia: Editora da Imprensa Universitária, p. 102-132, 2019.

SOUZA, Patrícia Rodrigues de. Religião Material: os estudos das religiões a partir da cultura material. 2019. Tese (Doutorado) – Ciência da Religião, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2019.

SOUZA, Patrícia Rodrigues de. Pensar a religião através das coisas: materialidade religiosa e decolonização. Rever, São Paulo, v. 2, n. 2, p. 237-252, 2022.

TONIOL, Rodrigo. Religião material: um sobrevoo. In: TONIOL, Rodrigo; MENEZES, Renata. Religião e materialidades: novos desafios empíricos e horizontes teóricos. Rio de Janeiro: Papéis Selvagens, [s/p], 2022. TORRES-LONDOÑO, Fernando. As devoções populares, novas indagações de uma pesquisa das Ciências da Religião. Cadernos do CEOM, Unochapecó, ano 4, n. 13, p. 11-28, jun. 2001.

As fotos são da autora, exceto onde outra fonte está indicada.

Vanessa Gomes de Campos é Historiadora e Arquivista no Arquivo Histórico da Arquidiocese de Porto Alegre/RS e Doutoranda em História pelo PPGH/UPF

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