*Péricles Andrade*
Ao final de janeiro de 2026, mais precisamente no dia 29, foram divulgados os resultados do Sistema de Seleção Unificada (Sisu). Naquela semana, não faltaram publicações nas redes sociais de estudantes e familiares celebrando as conquistas em vagas em cursos superiores nas centenas de universidades públicas, assim como nos campi de institutos federais que também ofertam tais cursos.
Entretanto, um episódio envolvendo a negativa da matrícula em um curso superior em duas universidades públicas ganhou destaque. O ex-jogador Túlio Maravilha e Cristiane Maravilha (esposa) anunciaram que sua filha, Tuliane, não estudaria nessas universidades, mesmo após aprovações em Nutrição na Universidade Federal do Rio de Janeiro e Odontologia na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Ver: https://www.youtube.com/shorts/PYBEOr9ifSc. Acesso em 30 de mar. 2026).
Túlio e Cristiane justificaram a escolha com base em “valores familiares”, alegando que a instituição particular “oferece mais segurança, melhor logística e alinhamento com seus princípios, evitando greves e a estrutura precária relatada nas públicas”. Assim, a família entende quanto à necessidade de “preservar a segurança e a integridade da filha, citando riscos de trajeto e o desejo de não expô-la ao ambiente das federais”. Em outras palavras, preferiram a rede privada por “razões ideológicas e de qualidade de vida” (Disponível: https://g1.globo.com/go/goias/noticia/2026/02/11/filha-de-tulio-maravilha-reage-a-repercussao-sobre-escolha-de-nao-ir-para-universidade-publica-vaga-e-para-quem-tem-esse-sonho.ghtml. Acesso em 30 mar. 2026).
A família se autodeclara evangélica, embora publicamente não defina a denominação ou “igreja” que frequenta. A recusa à matrícula, veiculada nas redes digitais, adota a leitura de que há uma evidente “ameaça” nas universidades públicas à visão de mundo cristã. Essa interpretação não é exclusiva dessa família. Nos últimos anos, tenho visto episódios similares entre as pessoas com quem compartilho capitais sociais. Tenho observado que alguns pais e mães têm optado pela matrícula dos(as) filhos(as) em instituições privadas, nas quais, supostamente, haveria capitais culturais mais “adequados”, especialmente a partir da política de cotas adotada no final da década de 2000, que vem tornando os universos acadêmicos mais plurais.
Tais interpretações em relação a essas universidades também são amplamente adotadas por orientações dadas por lideranças religiosas conservadoras. No mesmo período, exatamente no dia 31 de janeiro, na cidade do Recife, Pernambuco, o pastor Silas Malafaia proferiu uma homilia, nessa perspectiva ideológica, durante a edição do The Send, movimento cristão evangélico global, focado em jovens, com destaque para cinco áreas-chave: escolas, universidades, nações, famílias e comunidades locais. Em seu discurso religioso, Malafaia enfatizou a importância do conhecimento, da fé e de viver uma “vida cristã autêntica”, com críticas diretas ao “marxismo cultural” e ao “controle ideológico” nas instituições de ensino superior, ao advertir que opiniões divergentes sobre ideologia de gênero, aborto e sexualidades são ridicularizadas e excluídas, nas quais “sua fé pode ser desafiada” (Ver: https://www.youtube.com/watch?v=RfnXXuBPcFo&t=4s. Acesso em 30 de jan. 2026).
Se você pensar diferente, você é banido. Se você for contra a ideologia de gênero, se você for contra o aborto, se você for contra práticas homossexuais, se você for contra essa cultura, você é ridicularizado, debochado. Você deve estar preparado para esse enfrentamento. Tu descer é para te preparar pra faculdade, pra escola. Porque, se você pensa que esse movimento aqui é movimento para barriga cheia de crente, você tá enganado. Você não está no lugar errado. Aqui é uma ajuda para você se preparar, para você se manifestar. Cristianismo, onde você coloca o seu pé. O que vai acontecer hoje? Jovens criados na igreja vão para a universidade federal, para a universidade estadual, e a cabeça deles é virada (Ver: https://www.youtube.com/watch?v=RfnXXuBPcFo&t=4s. Acesso em 30 de jan. 2026).
A abominação da matrícula da filha nas universidades públicas pelo ex-jogador de futebol e sua esposa, assim como o discurso do líder religioso conclamando para as batalhas espirituais, são munidos de radicalização e de instrumentalização política do discurso religioso. Ambos adotam posicionamentos conforme valores disseminados pela “máquina de guerra reacionária conservadora-cristã” (Carranza, Santos e Jácomo, 2021).
Temos aqui exemplos da práxis animada pela Teologia do Domínio (Dominion Theology). Estamos nos referindo a uma expressão que surgiu em meados dos anos de 1980, a partir do reconstrucionismo cristão, que se refere à “missão dada por Deus” à igreja para reconstruir a nação com base na lei bíblica (Antigo e Novo Testamento), partindo do pressuposto de que algo estava “construído”, foi “destruído” e agora precisa ser “reconstruído”. As nações foram “destruídas” pelo humanismo secular e agora precisam ser reconstruídas pelos valores cristãos (Pereira, 2025).
Esse projeto de recristianização da sociedade contemporânea vai além da afirmação do domínio divino sobre o mundo, reduzido aos ambientes religiosos através de hermenêuticas fundamentalistas. É uma perspectiva teológica do “reino agora”, a disposição para as lutas no mundo concreto, nas áreas de empreendimento humano onde se constrói a cultura, conforme conclamado pelo pastor Malafaia para a “reconstrução cristã” contra o controle das “forças do mal”, aqui representadas pelo suposto “marxismo cultural”, que “impera” nos universos acadêmicos.
Mais precisamente, os discursos aqui abordados podem ser lidos como exemplos ideais-típicos dos princípios difundidos no mundo digital por uma corrente do reconstrucionismo cristão, denominada de “Teologia dos Sete Montes” ou “Teologia do Reino Agora”, que adota uma leitura simbólica de passagens bíblicas, principalmente de Apocalipse 17, em que “as sete cabeças são sete montes”, e de Isaías 2:2, sobre o “monte da casa do Senhor” no cume dos montes. A ideia é que cada “monte” é governado por uma “estrutura espiritual” (potestades ou espíritos territoriais) e que, por meio de oração, “guerra espiritual” e ação política, os cristãos devem romper essas estruturas para dominar as esferas. Temos aqui uma forma de doutrina do domínio, que afirma que “Deus destinou os cristãos a exercerem domínio sobre todas as esferas da vida pública”. Ela dialoga com tradições como o reconstrucionismo cristão e o teonomismo, que defendem uma reconstrução da sociedade com base na lei bíblica e na aplicação de normas cristãs nas leis civis. Esses versículos são interpretados como mandato para que se conquiste o poder nas sete esferas de influência, entendendo que a verdadeira transformação social só ocorre quando essas áreas forem “reconquistadas para o Reino de Deus”: religião, família, governo, educação, mídia, arte/entretenimento e negócios (Novais e Campos, 2021).
A “Teologia dos Sete Montes” e seu projeto de “domínio público de Deus” presente na fala de Malafaia levam-nos a revisitar uma clássica questão weberiana: as religiões nem sempre se “despreocupam” do mundo terreno. Enquanto sistema de regulamentação da vida, comportamentos práticos dos indivíduos e sentidos que dão às condutas, algumas se relacionam com o plano terrestre de modo bem diferente, conforme o tipo de crença e o caminho de salvação que propõem. Em muitos casos, a religião aparece como fator de racionalização da vida prática, inclusive da economia, da política e da ética cotidiana. Weber, porém, insiste que a motivação religiosa original é, em muitos casos, voltada para “este mundo” e para a experiência concreta da vida, inclusive na busca de soluções para problemas materiais, sociais e morais. A diferença entre as religiões está menos em “ignorar” o mundo terreno e mais em avaliar se esse mundo deve ser transformado, aceito, transcendido ou rejeitado para a conquista da salvação (Weber, 1982).
As realidades ideológicas e políticas nas instituições públicas de ensino superior estão, de fato, sob o controle do marxismo cultural? Faltam-nos dados de pesquisas empíricas para responder a esta questão, por demais reducionista! Não resta dúvida de que há uma desconfiança da presença da religião nos universos acadêmicos, até com estigmatizações da publicização de identidades religiosas, principalmente a partir da sua condição ontológica de promoção do conhecimento secular, levando a leituras mais radicais de que há uma generalizada “perseguição” aos cristãos, conforme ouvi de uma técnica em assuntos educacionais, que se autodeclara evangélica, na universidade em que trabalho no período das eleições em 2022. Vale ressaltar que a maioria das pessoas que estão nessas universidades vive imersas num pluralismo cognitivo, compreendendo o mundo a partir das lógicas seculares e religiosas simultaneamente. Poucas, de fato, estariam exclusivamente em uma dessas lógicas. A maioria das pessoas acredita tanto nas lógicas da ciência quanto às lógicas da sua religião e/ou religiosidade (Berger, 2017).
Mas tenho observado, na condição de docente de uma universidade pública, que diversos grupos cristãos têm atuado nessas unidades, com estudantes que são recrutados, por exemplo, pela Aliança Bíblica Universitária ou pela Renovação Carismática Católica. É comum vermos pessoas se reunindo ao ar livre para atividades religiosas e até cultos são realizados por sacerdotes nessas instituições de ensino superior a partir da percepção de que o espaço universitário no Brasil é laico, pluriconfessional e não é antirreligioso. Em algumas ocasiões, tem-se recorrido a denúncias no Ministério Público quanto ao uso religioso dos espaços públicos, o que tem ampliado as narrativas de lideranças político-religiosas de que há perseguições e estigmatizações contra os cristãos nas universidades públicas. Aqui na UFS, por exemplo, estamos discutindo em alguns conselhos de centro sobre a realização recorrente de ritos católicos em seus campi universitários, inclusive com convite endossado por entidade de representação estudantil para “missa e confissão”.
Nesse processo de atuação religiosa nessas universidades, não se matriculando ou propondo sua “reconquista”, estamos na seara das disputas pela moralidade pública por meio da promoção da sacralização da família tradicional por coletivos religiosos aos estudantes, com ênfase nas questões relativas ao corpo, ao comportamento e aos vínculos primários. As dinâmicas contemporâneas nas instituições de ensino superior podem ser compreendidas a partir do estabelecimento de pânicos morais, com posturas de negação ou combate, principalmente com militâncias reativas a iniciativas que “contrariem” a moral cristã e conservadora: direitos sexuais e reprodutivos – incluindo o aborto –, direitos de pessoas LGBTQIAPN+ de todas as idades e medidas que afrouxem punições associadas ao consumo de drogas consideradas ilícitas (Machado, 2024).
Tais posicionamentos compreendem estas instituições de ensino como espaços incubadores de doutrinas anticristãs que catequizam jovens contra valores bíblicos, como casamento tradicional e a rejeição ao pecado pessoal. A Família Maravilha e o pastor Silas Malafaia reproduzem a guerra cultural importada dos Estados Unidos e ampliada a partir da “Teologia dos Sete Montes”, que menciona tais locais como “cemitérios da fé cristã” (Pereira, 2026), como se fossem responsáveis diretos pelo afastamento dos jovens dos princípios religiosos.
Precisamos discutir essas tensões nos espaços acadêmicos a partir de uma perspectiva pluralista, enquanto universos de diferentes etnias, cosmovisões e moralidades, sobretudo quando são adotadas perspectivas de que as universidades estão “destruídas” e precisam ser “reconstruídas” a partir de uma moralidade religiosa. Que as pessoas de diversas culturas convivam nas universidades através do reconhecimento, para além do simples ato de tolerar/suportar, o que inclui os direitos à crença e à não crença.
Que estabeleçamos nesses espaços públicos arranjos e estratégias coletivas que visem à garantia de direitos relativos à diversidade, reconhecendo e provendo os direitos constitucionais para a convivência pluralista em sociedade.
Referências
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BERGER, Peter L. Os múltiplos altares da modernidade: rumo a um paradigma da religião numa época pluralista. Petrópolis: Vozes, 2017.
CARRANZA, Brenda; SANTOS, Renan William dos; JÁCOMO, Luiz Vicente Justino. Dimensões religiosas da radicalização política no Brasil contemporâneo. Plural, São Paulo, Brasil, v. 28, n. 1, p. 5–16, 2021. DOI: 10.11606/issn.2176-8099.pcso.2021.188499. Disponível em: https://revistas.usp.br/plural/article/view/188499. Acesso em: 16 jan. 2026
CUNHA, Magali. As teologias da guerra e a direita cristã no Brasil. In: PASSOS, Décio (org.). Teologia do Domínio e Usos de Deus na política. São Paulo: Ideias & Letras, 2025, p. 135-159.
MACHADO, Maria das Dores Campos. A vertente evangélica do neoconservadorismo brasileiro. In: CARRANZA, Brenda; GUADALUPE, José Luís Pérez (org.). Novo ativismo político no Brasil: os evangélicos do século XXI. Rio de Janeiro: Konrad Adenauer Stiftung, 2020, p. 271-286.
NOVAIS, Tiago de Melo; CAMPOS, Breno Martins. Teologias do domínio: revisitando fontes e autorias. Protestantismo em Revista, São Leopoldo, v. 47, n. 02, p. 29-40, jul./dez. 2021.
PEREIRA, Eliseu. Teologia do Domínio: conceitos e fontes. In: PASSOS, Décio (org.). Teologia do Domínio e Usos de Deus na política. São Paulo: Ideias & Letras, 2025, p. 23-41.
PEREIRA, Valdinei. De Charlie Kirk a Nikolas Ferreira: cultos evangélicos nos campi e a radicalização política dos jovens. Disponível: https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2026/03/de-charlie-kirk-a-nikolas-ferreira-cultos-evangelicos-nos-campi-e-a-radicalizacao-politica-dos-jovens.shtml?pwgt=khdmklbskualpb4rvx7s1no5a5feil1b6s3awcx55568b5s2&utm_source=whatsapp&utm_medium=social&utm_campaign=compwagift . Acesso 30 mar. 2026.
WEBER, Max “Rejeições Religiosas do Mundo e suas Direções”. In: GERTH, H. M. e MILLS, C. Wright (org.). Max Weber. Ensaios de Sociologia. 5 ed. Rio de Janeiro: LTC, 1982. p. 371-410.
