Raízes ibéricas das peregrinações no Brasil

*Carlos Alberto Steil*

As peregrinações no Brasil confundem-se com a história e a trajetória do catolicismo no país. Desde o início da colonização pelos portugueses, a conquista desta parte do Novo Mundo esteve associada à imaginação e à prática de peregrinação. Poderíamos, inclusive, afirmar que a concepção de sujeito, forjada no período colonial, esteve indissociável da ideia de peregrino. Num contexto de fraca presença institucional da Igreja Católica e de grande distância da coroa portuguesa, as peregrinações foram um dos pilares da formação do catolicismo no Brasil colonial. Neste período, muitos peregrinos e penitentes deixam o convívio social nas vilas e cidades, estabelecidas no litoral, para viver, de forma despojada, como ermitães, em lugares desertos e selvagens. Muitos desses locais estão na origem de santuários que se mantêm ativos até hoje, atraindo peregrinos.

Estes centros de devoção estabeleceram-se associados ao culto a imagens que foram levadas pelos peregrinos ou encontradas, de forma extraordinária, no local, dando origem a muitas narrativas míticas que conferem uma aura de sacralidade a estes santuários. São, na sua grande maioria, imagens da Paixão, materializadas nas figuras do Bom Jesus e de Nossa Senhora das Dores. Estas imagens serão a base do catolicismo brasileiro e os santuários que as abrigam os principais demarcadores do cristianismo na paisagem colonial. A materialidade da fé, expressa nas imagens, é complementada pelas narrativas milagrosas que são disseminadas para muito além dos limites dos santuários, tornando-as objeto de devoção e de atração de peregrinos num raio de abrangência que transcende o local. 

No contexto do colonial, portanto, a devoção à Paixão intensifica-se e se materializa em rituais performatizados em procissões e peregrinações pelos quais o sofrimento humano reveste-se de força e sentido divinos. Como afirma Christian, “as imagens que o povo carregava nas procissões eram moldadas para serem tão vivas quanto possível. O povo vestia-se e flagelava-se para ser visto como as imagens, e as imagens suavam sangue e choravam como se fossem o povo” (CHRISTIAN, 1981, p. 198). Por outro lado, elas também permitem desfazer as fronteiras entre o mundo dos vivos e o dos mortos, estabelecendo a comunhão dos santos, pela qual, como afirma Peter Brown, “penetrar o mundo da morte já não constitui uma ruptura absoluta com o mundo dos vivos” (1981, p. 2).

Ao lado dos santuários, a disseminação das peregrinações contou com o auxílio inestimável de dois livros que se tornaram referências para a prática cristã devocional da época. O primeiro, o Santuário Mariano, publicado em 1722, de autoria do Frei Agostinho de Santa Maria, tinha como preocupação principal relatar e divulgar as aparições milagrosas das imagens de Nossa Senhora em terras portuguesas do Novo Mundo. Por meio destes relatos, visava expandir os centros de devoção para além do local e atrair peregrinos (STEIL, 1996, p. 210-211). O segundo, o Compêndio narrativo do peregrino da América, de Nuno Marques Pereira, foi o primeiro livro de prosa escrito por um brasileiro e publicado em Lisboa, em 1728. Nele está compilado um vasto material de relatos da vida e trajetória de peregrinos e fundadores de santuários que são apresentados como exemplares para a vida moral e cristã. Como escreveu Afrânio Coutinho, na apresentação da edição desse livro, publicada pela Academia Brasileira de Letras, em 1988, a peregrinação é aí apresentada como “uma ideia católica e barroca por excelência, que denota o dilema do homem desta época que, ao mesmo tempo em que se vê atraído para Deus, não consegue negar seu apego ao mundo” (COUTINHO, 1988, p. 11). 

Um olhar analítico sobre as peregrinações no período, no entretanto, vai identificar uma tensão latente entre beatos e monges leigos que conduziam as práticas e rituais nestes santuários e a hierarquia que buscava implementar o projeto moral e disciplinar da contrarreforma para toda a cristandade católica. Contudo, a imposição dos princípios morais e das regras litúrgicas, promulgadas pelo Concílio de Trento, no contexto das peregrinações e santuários da época era quase nula (STEIL, 1996). Primeiro, porque entre os fiéis católicos e a instituição eclesiástica havia o Estado, ao qual cabia a responsabilidade sobre a difusão e reprodução da religião católica no Novo Mundo (PAIVA, 2006). Segundo, porque a Igreja Católica, enquanto instituição burocrática, dispunha de pouco poder e presença na sociedade brasileira. Terceiro, porque esta forma de catolicismo devocional era compartilhada por propriamente toda a população católica, incluindo a maioria do clero e dos religiosos. 

Referências

CHRISTIAN, W. A. Local religion in sixteenth-century Spain. Princeton, NJ: Princeton Univ. Press, 1989. 

COUTINHO, A. Introdução. In: MARQUES PEREIRA, N. (Ed.). Compêndio narrativo do peregrino da América. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 1988. 

PAIVA, J. P. Os Bispos de Portugal e do Império (1495-1777). Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2006. 

SANTA MARIA, A. DE. Santuário Mariano: a história das imagens milagrosas de Nossa Senhora e milagrosamente manifestadas, aparecidas no Arcebispado da Bahia, mais bispados de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande, Maranhão e Grão Pará. Lisboa: Oficina de Antônio Pedrozo Galram, 1722. 

STEIL, C. A. O sertão das romarias: um estudo antropológico sobre o santuário de Bom Jesus da Lapa – Bahia. Petrópolis: Vozes, 1996. 

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