A crescente mistura de religião e futebol

*André Ricardo de Souza e Bryan Henrique Pinto*

A recente eliminação precoce do Brasil para a Noruega nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026 acendeu, como toda decepção esportiva nacional, uma indignação coletiva entre aqueles que ainda tratam a seleção brasileira como patrimônio afetivo. Vieram as análises inflamadas: “Era para o Vini Jr. ter batido o pênalti”; “O Endrick não poderia ter perdido aquele gol”; “O Brasil não pode ter menos de 30% de posse de bola”; “A seleção desaprendeu a jogar como Brasil”. Algumas interpretações miravam o jogo. Outras miravam o ciclo histórico: 24 anos sem ganhar uma Copa do Mundo, o maior jejum que agora vai superar o que houve entre 1970 e 1994.

Havia ainda as críticas, recorrentes e justificadas, à gestão do futebol brasileiro. A Confederação Brasileira de Futebol tornou-se, há tempos, parte do problema que tenta administrar. Nos últimos anos, a entidade acumulou presidentes presos, banidos ou afastados, entre denúncias de corrupção, disputas judiciais e acusações de assédio moral e sexual. A crise técnica da seleção, portanto, não aparece isolada: ela se mistura à crise institucional do futebol brasileiro.

Mas, em meio à indignação do torcedor com sua amada amarelinha (camisa que, vale lembrar, foi instrumentalizada pela extrema direita e que a transformou em seu emblema, embora haja tentativas de recuperá-la como símbolo nacional e não bolsonarista), algo chamou atenção nas redes sociais, sobretudo no X, antigo Twitter. Parte dos internautas começou a associar o fracasso recente do futebol brasileiro ao crescimento do pentecostalismo e à diminuição do catolicismo no país.

Um perfil dedicado à divulgação católica escreveu: “O declínio da seleção brasileira de futebol é espelhado pelo declínio do catolicismo no país. Esse time carece de alegria, substituída pela ética de trabalho protestante sombria que é alheia à sua cultura”. Outro internauta respondeu com uma sequência de quatro imagens sob o título: “O declínio do futebol brasileiro: uma história em quatro imagens”. A primeira mostrava Pelé cumprimentando o papa João Paulo II; a segunda, Ronaldo também ao lado do papa, em 2002, ano do pentacampeonato; a terceira, Kaká ajoelhado, de braços abertos, com a camisa “I belong to Jesus”; a quarta, Neymar ajoelhado enquanto um pastor orava sobre ele.

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Fonte: Vaticano homenageia Pelé com fotos com Papas 
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Fonte: Após visitar João Paulo II em 1998, Ronaldo volta a conhecer um Papa | Blog Bastidores FC | Globoesporte.com

A repercussão cresceu justamente quando os próprios jogadores começaram a publicar mensagens de lamento nas redes sociais. Endrick, jovem promessa da seleção, escreveu que lamentou muito e que conversou com Deus, agradecendo pela oportunidade, embora reconhecesse que poderia ter feito melhor. A resposta do ex-jogador do Corinthians, hoje comentarista esportivo, Neto, sintetizou a irritação de parte da torcida: “Jesus não vê nenhum jogo”.

Bruno Guimarães, que desperdiçou o pênalti no primeiro tempo, também publicou uma mensagem longa no Instagram. Um trecho não passou despercebido: “Triste demais pela forma como terminou, mas com certeza de que Deus sabe de tudo. Te dei glória na vitória e não acabou. Ele segue vivo no meu coração e no de milhares de apaixonados pelo nosso país”. A reação foi imediata. Um internauta comentou: “Neopentecostalismo é isso aí. Tudo é obstáculo a ser superado, tudo é aprendizado… falta culpa, confissão, autoflagelação, promessa, dedicação e, por fim, a vitória”. Outro foi ainda mais direto: “O neopentecostalismo futebolístico tem que acabar”.

A frase mais provocativa talvez tenha sido a de uma internauta que escreveu: “Faz todo o sentido dizer que a igreja evangélica destruiu a seleção brasileira, porque é isso que é a teologia da prosperidade: a ideia de vitória pessoal, nunca coletiva”.

Do ponto de vista sociológico, é evidente que não se pode afirmar uma relação causal entre o aumento de atletas evangélicos e as frustrações recentes da seleção brasileira. O crescimento da presença evangélica entre jogadores de futebol reflete, em grande medida, uma transformação mais ampla da sociedade brasileira. 

Segundo os dados do censo demográfico de 2022, o contingente dos católicos passou de 83,3% em 1991 para 56,7% em 2022, enquanto o dos evangélicos cresceu, entre 1991 e 2022, de 9% para 26,9%. Nesse sentido, vale lembrar que a sociologia da religião no Brasil chegou a ser caracterizada como a sociologia do catolicismo em declínio (Pierucci, 2004). Ou seja: não há nada de surpreendente em haver mais jogadores evangélicos se há no país mais brasileiros evangélicos, imersos numa pluralidade cristã (Souza, 2024). O futebol, evidentemente, não está fora da sociedade. Inclusive, ele sempre produziu diversas formas de sociabilidade (Campos; Toledo, 2013; Toledo, 2012). 

O que os memes e comentários do X revelam, portanto, não é que a religião explica a derrota, mas que tais esferas estão na “pauta do dia”. No Brasil, há um ditado popular, muito propagado no senso comum e sempre combatido pelas ciências sociais: “futebol, política e religião não se discutem”. Os acontecimentos recentes demonstram exatamente o contrário. Futebol, política e religião não apenas são discutidos: eles se misturam, se atravessam e produzem diversos sentidos. 

Nos últimos dias, inclusive, a ruptura no clã Bolsonaro entre Michelle e Flávio Bolsonaro também foi interpretada como um problema político diretamente ligado ao eleitorado evangélico e feminino. Michelle, frequentemente vista como ponte com mulheres conservadoras e evangélicas, tornou-se peça central da disputa simbólica em torno da herança política bolsonarista. A crise familiar, nesse sentido, também mostra como os evangélicos tornaram-se novos atores políticos extremamente importantes para a compreensão da política nacional (Guadalupe; Carranza; 2020). E se consideramos as discussões levantadas no X, os evangélicos se tornaram atores futebolísticos também. 

Referências bibliográficas

GUADALUPE, José Luis; CARRANZA, Brenda (Orgs.). Novo ativismo político no Brasil: os evangélicos no século XXI. Rio de Janeiro: Konrad Adenauer Stiftung, 2020.

TOLEDO, Luiz Henrique. O Brasil na arquibancada: notas sobre a sociabilidade torcedora. Revista USP. n. 99, 2013, p.123-138.

TOLEDO, Luiz Henrique. Políticas da Corporalidade: sociabilidade torcedora entre 1990-2010. In: TOLEDO, Luiz Henrique de.; SANTOS, João Manuel C. Maia; HOLLANDA, Bernardo Borges Buarque de; MELO, Victor Andrade de. (Orgs.). A torcida brasileira.Rio de Janeiro: Sete Letras, 2012. 

PIERUCCI, Antônio Flávio. Bye bye, Brasil: O declínio das religiões tradicionais no Censo 2000. Estudos Avançados.  V. 18, n. 52, , 2004, p. 17–28

SOUZA, André Ricardo de. O cristianismo brasileiro contemporâneo: aspectos econômicos, assistenciais, políticos e ecumênicos. São Carlos: EdUFSCar e FAPESP, 2024.

Bryan Henrique Pinto é mestre e doutorando em sociologia pela UFSCar, membro do NEREP (Núcleo de Estudos de Religião, Economia e Política).

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