Milagre e futuro do patrimônio evangélico no Brasil

*Edilson Pereira*

“Olhem para a frente – esta é a sua tradição” (Lucio Costa, 2018:387)

No início dos anos 1950, quando Lucio Costa já havia se tornado um dos protagonistas do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), ele fez uma avaliação histórica da arquitetura brasileira, publicada sob o título: Muita construção, alguma arquitetura e um milagre. Veiculado no jornal Correio da Manhã, o texto tornou-se uma referência na historiografia da arquitetura civil e religiosa no país.

Segundo Costa, o caso nacional contrastaria com a história da Europa, onde a arquitetura evoluiu de maneira linear e gradativa. Em contrapartida, o passado brasileiro seria marcado por muitas obras sem inovação, alternadas por raras exceções. Para ele, apenas sob condições singulares ocorreram revoluções arquitetônicas no país, como o barroco de Aleijadinho e o modernismo de Niemeyer. Ambos foram vistos como artistas geniais que produziram saltos rumo ao futuro, inaugurando novas eras por meio de um milagre criativo.

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O croquis do Plano Piloto “nasceu do gesto primário de quem assinala um lugar ou dele toma posse: dois eixos cruzando em ângulo reto, ou seja, o próprio sinal da cruz”. Lucio Costa, 2018:284

Em que pesem os limites daquele texto, penso que ele possa iluminar outra história, mais próxima do presente: a do crescimento do conjunto arquitetônico evangélico no país. Observar a paisagem urbana contemporânea, marcada pelo espraiamento de templos e monumentos cristãos, permite notar exemplos de uma arquitetura religiosa que cresce de maneira não linear, ainda que não deixe de coordenar um futuro para si.

Diferentemente do valor reconhecido à imaginária católica e ao barroco, protegidos pelo SPHAN desde seu nascimento, as edificações evangélicas permaneceram quase sempre à margem das categorias operativas do patrimônio. Historicamente, a expansão material dessas igrejas forma um extenso conjunto de “muita construção” sem inovações particulares ou preocupações com cânones estéticos de vanguarda.

Fora casos excepcionais, como o da capela onde funcionou o 1º templo Metodista do Brasil (edificada em 1882 e tombada pelo INEPAC-RJ em 1978), o maior volume da arquitetura evangélica no país seguiu alheia aos patrimônios regionais e nacional. Isso ocorre a despeito de sua expansão, que acompanhou o crescimento evangélico e a visibilidade pública do setor desde os anos 1990, quando se estabelece a “era das catedrais” (Gomes, 2011), com uma onda de criação de megaconstruções e megatemplos da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). A ereção das catedrais neopentecostais gerou uma mudança tanto na monumentalidade das obras quanto no enquadramento do valor atribuído a elas.

Seu valor patrimonial não se daria por uma dimensão histórica, ainda breve, mas pela afirmação de uma ideia de autenticidade que extrapola os cânones nacionais. Enquanto templos católicos e protestantes históricos se vinculavam a tradições europeias (como o neogótico), as grandes catedrais neopentecostais mimetizam elementos da Terra Santa e cenários bíblicos. Assim, as catedrais da IURD se firmaram como novos monumentos na disputa pela hegemonia religiosa no espaço público.

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Bispo da Universal no Templo de Salomão, diante de um muro de pedras calcárias importadas de Israel. Foto: Edilson Pereira, 2020

Ao analisar esse contexto, Mafra (2011) e Giumbelli (2014) mapearam o movimento ambíguo das igrejas evangélicas em relação ao patrimônio cultural. Mafra observou que as memórias dessas igrejas expressavam “relações tensas, disputadas, retoricamente marcadas pela negação” de vínculos com a história nacional (2011:619). Por isso, em vez de se ocupar com o culto material do passado, esses setores estavam mais comprometidos “com o futuro do que com o presente”. Giumbelli (2014:194) reforça essa ideia ao afirmar que “os evangélicos não se mostram interessados em apelar à história ou à tradição para fundamentar sua presença. Sua visão está mais orientada para o futuro”.

Ora, as mudanças da cena política nacional ocorridas na última década sinalizam que esse futuro já começou. Se o patrimônio brasileiro nasceu sob uma retórica da perda de materialidades articuladas à história nacional, o atual processo de biblificação evangélica do espaço urbano se afirma pela retórica da ocupação e da promessa.

Para definir o caráter dessa biblificação (Pereira, 2024), parto da noção de “partilha do sensível” proposta por Rancière (2020), que opera na chave das dinâmicas modernas de descentralização e democratização tanto da produção quanto da apropriação e da interpretação de elementos da estética, com efeitos políticos. Sob tal entendimento, muitas das atuais lideranças evangélicas podem ser vistas como protagonistas na composição de “um modelo de fabricação de histórias [que] está ligado a uma determinada ideia da história como destino comum” (2020:58). Não se trata mais de uma história particular em contraponto à nacional, mas de uma reformulação do presente: quais são os marcos memorialísticos evangélicos, construídos agora, que servirão à memória pública em breve?

Já existe no país um expressivo lastro construtivo evangélico, que engloba a transformação sistemática de logradouros e “praças da Bíblia” em zonas de uma topografia sacralizada, onde a autoridade das Escrituras funde-se às infraestruturas urbanas. Nelas, setores religiosos operam uma conversão simbólica do solo secular (Giumbelli & Lima, 2023; Pereira, 2021; 2024). O antigo sentido moral da “edificação” pessoal — pilar dos testemunhos de conversão — ganhou novos corpos e contornos. A Terra Prometida deixou de ser apenas um horizonte teológico ou promessa divina para se tornar um produto político edificado em pedra e cimento.

Agora, a memória institucional de igrejas como a Universal passou a integrar a justificativa de obras públicas. No último ano, a Prefeitura do Rio de Janeiro inaugurou o primeiro batistério público municipal, na Praça Jardim do Méier. O espaço escolhido corresponde ao local onde o bispo Edir Macedo realizou seu primeiro culto. Além deste equipamento urbano, os recursos da infraestrutura estatal também se voltam para a construção do parque temático “Terra Prometida”, em Santa Cruz. Onde, segundo a divulgação da Prefeitura, serão evocados episódios e cenários bíblicos, como o Jardim do Éden, um percurso associado aos Dez Mandamentos e uma área relacionada à travessia do Mar Vermelho. O caráter lúdico do turismo religioso não deve desviar a atenção do fato central: a transformação de símbolos bíblicos em marcos de infraestrutura urbana. Um urbanismo teológico em franca atividade.

Este “milagre” ocorre, entretanto, por uma via distinta daquela traçada por Lucio Costa. No modernismo, o milagre era a centelha do gênio individual (como Niemeyer) superando limitações para criar a obra de arte monumental. No caso da construção evangélica atual, o milagre é civil. Ele é projetado através do território secular da política, onde agentes religiosos operam no Legislativo e no Executivo para intervir na paisagem urbana. Nesse processo, as próprias regras do jogo do patrimônio têm sido alteradas. Em 2024, o Governo do Estado do Rio de Janeiro sancionou a Lei nº 10.521, declarando patrimônio material, histórico e cultural todo monumento referente à Bíblia no estado. Esse novo cenário se consolida inclusive no “Caminho Niemeyer”, em Niterói, onde o traço do mestre do modernismo agora serve à construção de uma nova catedral da Assembleia de Deus e outra católica. A execução dos projetos é um revival que aponta tanto para o passado quanto o futuro, demonstrando que a salvaguarda do patrimônio evangélico já começou.

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Maquete da catedral da Assembleia de Deus no Caminho Niemeyer. Reprodução: Divulgação/CDAB

Referências

COSTA, Lucio. Registro de uma vivência. São Paulo: Edições Sesc, Editora 34, 2018.

GIUMBELLI, Emerson. Símbolos Religiosos em Controvérsias. São Paulo: Terceiro Nome, 2014.

GIUMBELLI, Emerson; LIMA, Greilson. Cristo, Bíblia e Iemanjá: monumentos e diversidade religiosa no Brasil. Religião e Sociedade, 43(3):201-228, 2023.

GOMES, Edlaine de Campos. A Era das Catedrais: A autenticidade em exibição. Rio de Janeiro: Garamond, 2011.

MAFRA, Clara. A “arma da cultura” e os “universalismos parciais”. Mana, v. 17, n. 3, p. 607-624, 2011.

PEREIRA, Edilson. “Biblificação: imagens evangélicas e formas de recriar a Terra Santa”. In: GIUMBELLI, E.; ALMEIDA, L.; TONIOL, R. (orgs.). Os Sentidos da Religião. Rio de Janeiro: Papéis Selvagens, 2024.

PEREIRA, Edilson. A estética das cidades: Lucio Costa, traçados de vida e do patrimônio nacional. Estudos Históricos, v. 35, n. 76, p. 303-324, 2022.

PEREIRA, Edilson. “Do Holocausto à terra prometida: a criação de um memorial na paisagem carioca”. In: GIUMBELLI, E.; PEIXOTO, F. A. (Orgs.). Arte e Religião: passagens, cruzamentos, embates. Brasília, DF: ABA Publicações, 2021.

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