Nem tudo é devoção: Sobre as necessárias proteções contra os males cotidianos sobrenaturais

*Alejandro Frigerio*

Neste breve texto, proponho chamar a atenção para uma dimensão da vida religiosa que não recebe em nossos estudos a importância que merece. Argumentarei que a dimensão devocional das imagens e práticas religiosas ocupa a quase totalidade de nossas reflexões, enquanto ignoramos praticamente sua função protetora contra os males cotidianos. Estes podem ser de origem natural ou social, mas, sobretudo, de origem sobrenatural ou espiritual. A preocupação com as forças negativas de diversos tipos que podem afetar o bem-estar das pessoas adquire uma dimensão social muito maior do que costumamos reconhecer. Sustento que essa desatenção analítica baseia-se numa divisão rígida demais que fazemos entre “religião” e “magia”, divisão que não corresponde à dos nossos estudados e com nossa disposição de conceder o benefício da dúvida à primeira enquanto desconsideramos irrefletidamente a segunda. A busca de proteção espiritual, ao contrário, constitui uma parte essencial das relações que as pessoas estabelecem com seres sobre-humanos e opera como um motivo muito relevante para estabelecer tais vínculos. Dentro das limitações próprias de um texto desta extensão, oferecerei vários exemplos disso em contextos muito díspares da vida religiosa cotidiana em Buenos Aires.

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Rosário e fita vermelha: talismãs de proteção mais comuns em táxis

Um primeiro e eloquente exemplo desta dimensão protetora observa-se facilmente no espaço público portenho. A maioria dos táxis da cidade tem um rosário pendurado no espelho retrovisor. Em grande proporção, este vem acompanhado por uma ou duas fitas vermelhas que também pendem do espelho. Quando se pergunta pela presença da fita, as respostas costumam indicar sua função protetora contra “as más vibrações” ou contra “a inveja”. A fita vermelha é provavelmente herdeira dos chifrinhos vermelhos de coral que os nossos antepassados napolitanos trouxeram também como proteção — e que ocasionalmente ainda podem ser vistos, embora em menor quantidade que antigamente, pendurados nos mesmos espelhos dos táxis. Também contra a inveja ou o mau-olhado colocava-se uma fita vermelha no pulso dos bebês, um costume que talvez já não seja tão popular como outrora.

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Fita vermelha da Virgem, rosário, medalha e chifrinhos napolitanos em táxi

Por vezes, a fita vermelha se transmuta em símbolo católico: pode vir impressa com a imagem da Virgem de Luján e com uma legenda que reza “protege minha família” ou “protege meu carro”. Este tipo de lembrança da visita à catedral da padroeira da Argentina não se vende nas “santerías” oficiais, mas sim foram comprados, ao contrário, nas barracas de venda ambulante dos arredores, sugerindo uma circulação paralela e não totalmente controlada pela instituição eclesiástica.

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Fita vermelha em táxi invocando a proteção da Virgem de Luján

Algo semelhante acontece no santuário de São Caetano, o padroeiro do trabalho, que reúne multidões na sua igreja em Liniers, na plena cidade de Buenos Aires, todo dia 7 de agosto. Lá podem ser vistas as fitas vermelhas com o nome do santo, invocando alguma proteção. Também se misturam com as de outros santos já não reconhecidos pela Igreja, como as do Gauchito Gil ou de São La Muerte (embora neste último caso sejam pretas). Diferentemente das fitas que, por exemplo no México, se deixam para São Charbel, não constituem uma oferenda ou um pedido, mas sim uma lembrança, e, sobretudo, como se disse, uma proteção. Uma proteção contra o infortúnio, contra os azares da vida, dos quais facilmente pode ser vítima um carro que circula diariamente durante várias horas pela cidade. Porém, com maior frequência ainda, são uma proteção contra o mal (espiritual) que provém de outras pessoas. Este mal pode ser causado involuntariamente, pela mera mas sempre onipresente “inveja”, ou também voluntariamente. Neste último caso, pode ser ocasionado de maneiras mais inocentes como “mandar más vibrações” ou “querer (desejar) o mal”, ou de maneiras mais deliberadas e esforçadas por meio de “bruxarias” ou “trabalhos espirituais” negativos, senão pelas temidas “macumbas”.

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Fitas vermelhas de protecão de São Caetano, nas barracas ao redor da Igreja, no día da festa do santo

Os testemunhos de taxistas revelam que, por mais que eles não se reconheçam religiosos nem devotos, ainda assim têm as estampinhas ou medalhas de santos e virgens porque algum familiar (geralmente a mulher ou a mãe) os presenteou como forma de proteção. A forma mais básica parece ser o rosário (que nunca é usado para rezar) acompanhado da fita vermelha, objetos que passam de carro em carro à medida que mudam de modelo. Os rosários podem estar bentos ou não por algum sacerdote. Sua só presença já constitui uma forma de proteção, mas curiosamente quase sempre parece necessário que esteja acompanhado da fita vermelha.

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Fitas de protecão de São La Muerte, São Jorge e Gauchito Gil nas barracas ao redor da Igreja de São Caetano, no día da festa do santo

Esta conjunção de um elemento católico com outro externo a dita tradição revela ao menos duas coisas. Em primeiro lugar, a distância entre os ensinamentos da Igreja Católica e a “religião vivida” das pessoas — que não pertencem somente aos “setores populares” como costumamos pensar. Em segundo lugar, testemunha a vigência e extensão de cosmovisões encantadas nas quais não só seres sobre-humanos, mas também potências ou energias negativas sobrenaturais de distintos tipos afetam a vida cotidiana das pessoas. Por sobrenaturais refiro-me a energias que não entram na visão naturalista ou científica do mundo, mas que são consideradas muito reais e atuantes dentro destas cosmovisões encantadas. Estas energias podem ser interpretadas de maneira muito diversa por quem crê na sua existência, mas contra elas é necessário desdobrar continuamente formas de proteção que as neutralizem. Para o caso dos taxistas, que já tratei com mais detalhe em outro texto, estas proteções podem ter sido colocadas tanto porque os condutores creem nelas, como por sugestão ou imposição de suas esposas, suas mães ou sogras, ou inclusive por recomendação de passageiros ocasionais — e “ali ficaram”, “por via das dúvidas”, como me afirmaram vários deles. Esta aparente indiferença para com o elemento protetor — mas sua tenaz presença mesmo depois de várias trocas de carro — sugere que pode haver uma forma relativamente débil de crença que adere a uma mais forte dos seres queridos, e outra mais sólida para quem afirma sua função protetora sem duvidar. Para o primeiro caso, também pode haver um elemento de vergonha e receio por confessar uma crença considerada “mágica” ou “supersticiosa”.

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Santos protetores numa padaria em bairro de classe média-alta

O caso dos taxistas não é único: uma similar função protetora têm, em outros múltiplos contextos cotidianos urbanos, os pequenos altares, estampinhas ou imagens de gesso de santos que podem encontrar-se em padarias, lavanderias, farmácias, bares ou todo tipo de negócios. Estão ali não só pela devoção dos donos para com os santos e virgens, mas também (e muitas vezes sobretudo) porque brindam proteção — contra assaltos, contra as possíveis “más vibrações” dos clientes, ou contra bruxarias que queiram prejudicar o negócio.

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Santos protetores em farmácia de bairro de classe média-alta

Como sugeria ao começar o texto, esta dimensão protetora dos objetos religiosos tem sido muito menos estudada e reconhecida pelos acadêmicos que a devocional, devido à nossa separação teoricamente excessiva entre a “religião” e a “magia”. No entanto, o recorrer a seres sobre-humanos para a proteção contra os infortúnios e as forças negativas de todo tipo que podem causá-los constitui um motor indubitável da “religiosidade popular” ou uma dimensão relevante na “religião vivida”. Esta dimensão é menosprezada tanto pelos acadêmicos como pelos sacerdotes secularizados e hipereducados (católicos ou protestantes históricos) que a consideram apenas como “magia”. Para os agentes religiosos que não participam de um universo encantado e cujo mundo espiritual possui uma dimensão principalmente transcendente, a magia é um fenômeno menor, irrelevante, porque a magia “não existe”. Os acadêmicos, por seu lado, não outorgam à magia o benefício da dúvida que sim parecem conceder à religião: existam ou não os deuses das pessoas, nos interessam como construção social e pelos efeitos que constatamos que acarretam sobre sua vida. A “magia”, ao contrário, não mereceria o interesse acadêmico que concedemos à “religião” — salvo em sociedades “primitivas” ou em comunidades rurais, como demonstram as centenas de estudos antropológicos nesses contextos.

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Nas barracas de venda fora da igreja de São Caetano, no dia da sua festa, São Martinho de Porres “varre mufa” (má sorte) ao lado da medalha protetora de São Bento

De maneira similar, tampouco cremos que existam as forças sobrenaturais (ou espirituais) negativas, que portanto não podem ter efeitos reais na vida das pessoas nem, então, adquirir um papel relevante dentro de nossos estudos. Mas para a enorme quantidade de indivíduos que vivem dentro de cosmovisões encantadas (que sempre é maior do que cremos, já que excede em muito os “setores populares”), estas forças negativas, da maneira que as concebam, e ainda que não possam especificar sua natureza muito claramente, têm efeitos muito reais que devem ser contrarrestados mediante as armas espirituais que se possam mobilizar. Esta necessidade de proteção está por trás da crescente popularidade de diversos santos populares em cujos cultos sim pode discutir-se livremente a ingerência destas forças negativas, assim como dos agentes mágico-religiosos (legitimados socialmente ou não) a quem se recorre precisamente porque reconhecem ditas forças e proclamam poder combatê-las. Por este mesmo motivo também são ressignificadas, na medida do necessário, as devoções a santos católicos ampliando seu papel protetor muito além do relativamente pequeno poder de “intercessão” que lhes outorgam os ministros religiosos legitimados pela Igreja.

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Invocações protetoras ao Gauchito Gil em grupos de Facebook

Na Argentina, esta preocupação pela proteção espiritual está muito presente nas devoções do Gauchito Gil e de São La Muerte, dois dos “santos populares” mais cultuados no país. Junto com a solicitação de favores em diferentes áreas da vida cotidiana — notavelmente saúde, dinheiro ou emprego e amor —, as invocações discursivas de proteção e as práticas rituais necessárias para consegui-la são muito visíveis entre os devotos.

A oração “tradicional” a São La Muerte, que provém da sua época de culto regional no nordeste argentino, antes de que se estendesse por todo o país neste século, mostra claramente suas diversas funções protetoras:

Senhor, A Morte, espírito esquelético poderosíssimo e forte por demais / como um Sansão na sua majestade. / Indispensável no momento de perigo / eu te invoco seguro da tua bondade. / Roga a Deus todo poderoso que me conceda tudo o que te peço, / que se arrependa por toda a sua vida aquele que dano ou mau-olhado me fez / e que se volte contra ele imediatamente. / Para aquele que no amor me engana / peço que o faças voltar a mim e se desobedecer tua voz estranha / bom espírito da Morte faze-lhe sentir o poder da tua foice. / No jogo e nos negócios meu advogado te nomeio como o melhor, / e todo aquele que contra mim vier faze-o perdedor. / Ó Senhor A Morte, meu anjo protetor. Amém

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Estampinha original de São La Muerte com sua oração tradicional

Similarmente, o Gauchito Gil, além de ser um “fiel companheiro” ou “o amigo que nunca falha”, também é invocado para proteger “dos traidores” ou de “os que me querem mal”. A oração tradicional de São Jorge, popularizada pela canção de Jorge Ben e reinterpretada por Caetano Veloso, também constitui um poderoso (e poético) mantra de proteção contra males terrenos e sobrenaturais:

“Andarei vestido e armado com as armas de São Jorge / para que meus inimigos, / tendo pés não me alcancem, / tendo mãos não me agarrem, / tendo olhos não me vejam, / e nem com o pensamento possam fazer-me mal.”

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Livro de editora não católica que ensina como se proteger com São Jorge

Os perigos dos males sobrenaturais e as múltiplas proteções que contra eles se oferecem são também um poderoso vetor que explica a expansão e popularidade dos evangélicos e das religiões de matriz africana. Os evangélicos interpretam boa parte (ou quase todos) dos males que possam afetar uma pessoa como obra de demônios, e visualizam todo ser espiritual que não integre seu panteão também como maléfico — dos quais prometem a “libertação” através de seus cultos. Similarmente, as religiões de matriz afro prometem um potente arsenal de trabalhos espirituais para propiciar o favor das divindades ou das entidades espirituais, abrir caminhos ou, se necessário, devolver forças negativas a quem as enviou e fazê-lo pagar caro por sua ousadia. As proteções e rituais necessários para resguardar-se dos males espirituais e anulá-los estão na ordem do dia em ambas as religiões, embora em cada uma com sua teologia específica e seu arsenal mágico-religioso particular.

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Imagem de inspiração evangélica que circula no Facebook

Como já mostrei em outro texto neste mesmo blog, é frequente encontrar pelas ruas de bairros de classe média e classe média alta de Buenos Aires pequenos mas visíveis cartazes publicitários colados em postes de luz, latas de lixo, paredes, etc., que anunciam os serviços de videntes ou tarotistas. Além da sua arte divinatória necessária para o diagnóstico do problema, os serviços anunciados quase sempre contêm frases que denotam a possibilidade de superar dificuldades de origem sobrenatural ou espiritual: “abro caminhos”, “quebro correntes de maldição”, “corto danos”, “destraves”, “anulo invejas e bruxaria”, “proteção espiritual”.

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Oferta de serviços de “vidente” em rua de bairro de classe média-alta

A dimensão protetora da religiosidade, esse “lado B” que contrasta com o discurso do amor e da devoção incondicional, constitui uma faceta ineludível da nossa realidade social. Longe de ser um resíduo de “magia” ou “superstição” em vias de extinção, revela-se como uma força vital e estruturante das práticas e crenças de milhões de pessoas. Sua persistência e vitalidade nos interpelam a superar nossos preconceitos moderno-cêntricos e a desenvolver ferramentas analíticas mais sutis, capazes de dar conta da complexidade das cosmovisões encantadas que, como demonstra a etnografia urbana, estão longe de ter desaparecido.

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