Religião e economia: genealogias, fronteiras e limiares

*Bruno Reinhardt e Réia Sílvia Pereira*

O dossiê “Religião e economia genealogias, fronteiras e limiares”, publicado no volume 25 da revista Civitas, parte de um argumento central: religião e economia operam como dimensões mutuamente constitutivas, historicamente entrelaçadas e etnograficamente inseparáveis. Ao recusar explicações totalizantes centradas em abstrações como “neoliberalismo”, o dossiê se baseia na constatação de que práticas econômicas e formas religiosas não se desenvolvem como esferas autônomas que apenas ocasionalmente se cruzam, mas como domínios que se co-produzem no interior de contextos sociais concretos. Essa perspectiva desloca o olhar das grandes narrativas e para os modos pelos quais valores, obrigações, expectativas morais e regimes de sentido são continuamente negociados na vida cotidiana, em situações historicamente situadas e atravessadas por relações de poder, desigualdade e reconhecimento.

Composto por cinco artigos e uma introdução, o dossiê cobre um amplo conjunto de tradições religiosas, grupos sociais, áreas etnográficas e problemas. Como pastores-aprendizes em Gana sentem/entendem seu chamado para o ministério e como o chamado e o trabalho de Deus se insere nas formas pentecostais de governo? Como membros do Vale do Amanhecer articulam, ao longo de sua pedagogia religiosa, as noções e graça e carma em uma economia moral unitária? Como a noção de “dívidas ocultas” articula o íntimo e o público, o biográfico e o político, entre membros da Igreja Universal em Moçambique? Como a noção de “barganha” torna-se um nódulo para múltiplos circuitos relacionais no sertão do São Francisco e como essa força histórico-etnográfica pode ser convertida em categoria analítica? Como as inclinações econômicas de exus e orixás no Brasil e as doações rituais (saada) em contextos divinatórios no Senegal podem nos ajudar a repensar a e economia e a religião para além de divisores convencionais, como privado e público, case e rua?

Com base no enquadramento holístico proposto pelos autores do dossiê, transações econômicas jamais são puramente técnicas ou instrumentais: elas envolvem julgamentos sobre justiça, legitimidade, reciprocidade e dívida. Do mesmo modo, práticas religiosas organizam disposições éticas, formas de autoridade e critérios de avaliação das condutas. David Graeber, especialmente em sua análise histórica da dívida, ressalta que obrigações econômicas sempre estiveram imbricadas em concepções morais sobre pessoa, tempo e futuro. Dívidas podem ser vistas como deveres sagrados, compromissos morais ou mecanismos de dominação, a depender dos regimes de valor em jogo e das relações sociais que lhes dão forma.

Essa abordagem permite compreender a economia não apenas como um sistema de produção e circulação de bens, mas como um campo de disputas morais no qual se definem responsabilidades e hierarquias e  se produzem sujeitos. Graeber demonstra que, desde a chamada “era axial”, a dívida foi um poderoso instrumento de organização social, frequentemente naturalizada e teologizada como obrigação moral incontornável. De modo amplo, os textos que compõem o dossiê dialogam com tal perspectiva para mostrar como, em contextos contemporâneos, discursos religiosos podem tanto legitimar quanto contestar tais obrigações, reinterpretando o sentido da dívida, do sacrifício e da prosperidade. Assim, longe de serem resíduos pré-modernos, as formas religiosas aparecem como operadores centrais na produção de racionalidades econômicas. Ao mesmo tempo, os textos do dossiê se afastam de leituras que tratam a religião apenas como ideologia funcional ao capitalismo ou como simples resposta simbólica às carências materiais.

Em consonância, Webb Keane enfatiza que religião e economia devem ser entendidas como práticas situadas, nas quais os sujeitos se posicionam eticamente uns diante dos outros. Trata-se menos de identificar “influências” unilaterais e mais de acompanhar como certos vocabulários morais circulam, são apropriados e ganham eficácia social. Nesse sentido, o foco desloca-se para as interações, para os momentos em que ações precisam ser justificadas, avaliadas e reconhecidas por outros. A noção de economias morais, tal como elaborada por Keane, é um modo possível de abordar esse entrelaçamento. Para isso é essencial a incorporação de categorias religioso-econômicas que excedem a gramática dos sistemas de expertise seculares responsáveis por definir os limites do econômico. Alguns desses conceitos explorados ao longo do dossiê são: chamado e trabalho de Deus, graça, carma, um amplo repertório de noções de dívida, barganha, promessa, casa e trabalho, saada, etc.

Mais do que tratar religião e economia como esferas institucionais ou domínios espaciais discretos de prática, os textos propõem abordá-las como formas de posicionamento ético em segunda pessoa, nos termos de Keane.  Constituem modos pelos quais os sujeitos agem, explicam-se, justificam-se, influenciam-se e responsabilizam uns aos outros em contextos concretos de interação. Tanto a religião quanto a economia envolvem modos de vida, formas de subjetivação e regimes de reconhecimento, nos quais a inteligibilidade das ações depende de estruturas normativas compartilhadas e de sistemas de recompensa material. É nesse espaço da interação vivida, relacional e situada, que moralidade, religião e economia emergem não como sistemas fechados, mas como repertórios públicos e disputáveis de justificação.

Essa perspectiva dialoga diretamente com abordagens pragmáticas da crítica, como aquelas desenvolvidas por Boltanski e Thévenot, ao enfatizar as “situações de prova” em que os atores precisam justificar suas ações diante de outros. Nessas situações, categorias como dom, dívida, sacrifício, lucro ou corrupção não possuem significados fixos. Um presente difere de uma propina, uma dívida pode ser considerada sagrada ou ilegítima, e tais distinções são carregadas de implicações práticas, pois envolvem autoridade, responsabilidade e reconhecimento. O dossiê mostra que essas classificações são sempre objeto de disputa e dependem dos regimes morais que estruturam a interação.

Ao longo do dossiê, fica claro que a recusa às explicações totalizantes não implica negar a existência de estruturas amplas, mas sim evitar que elas obscureçam a análise das práticas concretas. O “neoliberalismo”, por exemplo, quando tratado como entidade abstrata e homogênea, tende a apagar as mediações locais, os conflitos morais e as formas criativas de apropriação que marcam a vida social. Mas quando desagregado e abordado na escala de seus dispositivos particulares, como noções de trabalho imaterial e afetivo, capital humano, metas, etc., ele pode fornecer índices para uma compreensão mais fina das maneiras pelas quais religião e economia se coproduzem em contextos específicos.

Em síntese, a análise apresentada sustenta que religião e economia não podem ser compreendidas separadamente sem perda significativa de inteligibilidade. Elas se articulam como domínios ético-práticos nos quais se definem obrigações, valores e formas de reconhecimento. Ao enfatizar a dimensão relacional e moral dessas articulações, o dossiê contribui para um campo de estudos que busca compreender como sujeitos ordinários navegam por regimes complexos de valor, mobilizando repertórios religiosos e econômicos para dar sentido às suas ações e às ações dos outros. Trata-se, portanto, de uma proposta analítica que recoloca a moralidade no centro da reflexão sobre economia e religião, sem reduzi-las a meros reflexos de estruturas abstratas ou determinismos unilaterais.  Acreditamos que essa abordagem emergente e etnografica ressoa com um momento histórico de forte indeterminação, em que tanto “a economia” quanto “a religião” têm cada vez mais excedido seus modos convencionais de reconhecimento, tanto na prática, quanto na teoria.

Referências

Boltanski, Luc e Laurent Thévenot. 2006. A justificação: as economias da grandeza. Martins Fontes.

Graeber, David. 2011. Debt: the first 5,000 years. Melville House.

Keane, Webb. 2022. Religião e economia moral. Ilha: Revista de Antropologia 19 (2): 175-212.

Réia Sílvia Pereira é pós-doutoranda em Sociologia Política na Universidade Estadual do Norte Fluminense

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