*Eduardo Dullo*
Publicado em 1927 e prestes a completar 100 anos de sua publicação, o ensaio “O futuro de uma ilusão” (Freud 2019) é um dos textos em que Freud apresenta a sua contribuição sobre o tema da religião. Contribuição pode não ser a melhor palavra, já que ele define a religião como uma ilusão. (Logo saberemos melhor o que isso quer dizer.) O mais apropriado talvez seja dizer que justamente por enfocar a religião como uma ilusão, seu texto oferece uma rica configuração de pensamentos não necessariamente conscientes sobre aquilo que o antropólogo Talal Asad (2003; veja uma apresentação em Dullo 2023) chama de gêmeo siamês da religião na modernidade: o secular. A metáfora de Asad tem a capacidade de nos fazer perceber que a religião na era moderna não surge sozinha e não irá desaparecer sozinha, mas que ela nasce grudada, compartilhando seu corpo com um duplo, que ao mesmo tempo em que a constitui, a nega. O mundo secular.
Falar de mundo secular é falar de muito mais do que uma separação entre Estado e Igreja, de candidatos pastores ou de ideologia de gênero. Esses fenômenos sociais são justamente isso: uma dimensão fenomênica (e política) de algo que podemos observar de maneira mais imediata. O que Asad nos diz sobre o secular não é que isso seja um fenômeno, mas uma ontologia e uma episteme; ou seja, seu nascimento moderno, grudado na religião, oferece uma transformação das maneiras de pensar, de conceber o mundo, daquilo que consideramos existente, verdadeiro, real. Portanto, a religião – enquanto duplo moderno do secular – só poderia ser mesmo uma ilusão.
A ilusão é algo que Freud define como diferente tanto do simples erro quanto do delírio. A ilusão é definida como uma espécie de esperança em algo improvável que tem origem nos nossos mais profundos desejos de segurança frente às ameaças do mundo. Para Freud, a religião é uma ilusão justamente por responder a esse aspecto. Ele pergunta sobre o indivíduo: “Mas de que maneira ele se defende da prepotência da natureza, do destino, que o ameaça como a todos os outros?” (Freud 2019, p. 58). A religião é a resposta ilusória para esse problema – poderíamos dizer: esse medo – para o qual a melhor resposta seria a cultura combinada com o progresso científico.
(Caberia toda uma outra discussão sobre como Freud aproxima a religião da cultura em termos de funções e como discute o papel moral da religião como relevante, também evidenciando uma profunda discussão do período sobre a possibilidade de “uma moral sem Deus” ou uma “moralidade laica”. Isso fica evidente quando ele fala que sem a religião as pessoas cometeriam ações comumente entendidas como erradas e proibidas, crimes como o assassinato.)
Ao ler Freud 100 anos depois, seu texto chama nossa atenção por exibir uma série de pressupostos e expectativas próprios da formação do secular nas sociedades da Europa Ocidental, que permanecem – em parte – presentes no contemporâneo. Dentre esses pressupostos, elenco apenas alguns: uma natureza externa e objetiva; pessoas entendidas como indivíduos autocontidos que vivem em famílias (burguesas) formadas por pai e mãe; o desenvolvimento linear da história que entendemos como progresso; este último promovido pela ciência, capaz de descobrir as leis imanentes deste mundo (tanto da natureza externa quanto da natureza interna, psíquica) como o único existente; ciência que irá nos proporcionar, pelo conhecimento racional, um crescimento e superação das aflições, para não dizer uma emancipação (que me parece um conceito com implicações políticas mais fortes do que Freud sugere… sobretudo se considerarmos os trechos em que ele oferece uma dimensão resignada das posições sociais).
Se o texto de Freud evidencia todos esses pressupostos, é importante percebermos que eles se encaixam mal à nossa secularidade contemporânea. Não somos mais seculares como Freud foi há 100 anos, mas de nossa própria maneira. Essa percepção da mudança histórica da própria secularidade é extremamente importante. Mesmo no mesmo meio social (por exemplo, a Europa central e ocidental), a configuração de conceitos, práticas e sensibilidades que organizam o entendimento do secular é continuamente alterado e vive uma articulação dinâmica. Ler “O futuro de uma ilusão” cem anos depois nos permite ver a ilusão de um futuro do passado, um futuro que não chegou como se esperava.
É parte da ilusão desse futuro do passado que o mundo social iria se desencantar (desmagicizar) e se secularizar levando ao fim das religiões, seja por um decréscimo da participação em cultos e em comunidades de fé, seja pela redução de sua importância na vida social ao perder relações oficiais com instituições políticas (como o Estado), seja pelas pessoas simplesmente deixarem de acreditar em algo que passou a ser referenciado como falso e supérfluo para a vida social “real”, marcada e definida pela economia e pela política. Porém, desde o início desse século XXI o pensamento social (sobretudo pela Antropologia – cf. Dullo 2012) vem mostrando com pesquisas empíricas e dados concretos produzidos em contato com populações das mais variadas localidades do planeta que algumas dessas teorias do desencantamento e da secularização tinham uma grande parcela de projeto sociopolítico e desejo manifesto (um wishful-thinking), sem grande conexão com a vida das pessoas em sociedade. Isso não quer dizer que não ocorra desencantamento ou secularização, mas que esse processo histórico precisa ser despido de seu caráter ilusório se nosso desejo for realmente compreender a vida em sociedade.
Podemos dizer que Freud insere-se, parcialmente, numa forte tradição do Esclarecimento, na qual é necessário ascender à maioridade pela superação do medo e da preguiça de pensar e agir a partir de suas próprias decisões (também morais), baseadas na razão, ou seja, uma possível emancipação do sujeito em seu mundo social. O medo dos fenômenos da natureza não combina bem com uma natureza objetiva, externa, imutável e universal que será descortinada em suas leis pelo progresso científico racional e, por fim, dominada. Passados cem anos da publicação do texto, não é fácil manter a mesma esperança em algo improvável como a capacidade da humanidade de manter a natureza sob controle, não importa quão profundos sejam nossos desejos em relação a isso. Num momento em que as discussões científicas evidenciam que essa natureza objetiva, externa, imutável e universal não funciona como se supunha e que as ambições de progresso próprias a um período histórico moderno e capitalista exploratório são determinantes para a situação em que nos encontramos hoje, podemos nos perguntar sobre o que aconteceu com essa ilusão de Freud. Talvez ele tenha razão em dizer que a religião é uma ilusão, mas apenas se considerarmos que ela compartilha seu corpo com seu gêmeo siamês – o secular – e que ele também se mostrou uma ilusão.
Por isso, é crucial perceber que o secular constitui uma episteme, na qual muitos de nós vivemos e a partir da qual pensamos – pois as ciências do social são ciências seculares (cf. Furani e Robbins 2021). Nessas ciências fenômenos passam a existir de determinadas maneiras e a serem explicados por meios específicos que estão em contínua mudança. E a maneira como definimos e explicamos a “religião” em nossas pesquisas está inserida em alguma das diferentes modalidades de secularidade, com consequências relevantes não apenas para nossas análises como também para nossa reprodução do mundo realmente existente e de nossa própria secularidade (cf. Dullo 2021). O que acontecerá não apenas com nossas análises do mundo social como também com as teorias sobre esse mundo social quando olharmos para o secular como ontologia e como episteme do mundo moderno?
A partir de março de 2026, iremos discutir algumas dessas ideias (e várias outras) nas quartas-feiras à tarde em um curso híbrido no PPGAS-UFRGS – com matrículas abertas para discentes de PPG de outras universidades para acompanhamento remoto síncrono. Veja o programa no link a seguir: https://www.ufrgs.br/ppgas/br/anp31-antropologia-da-modernidade
Referências citadas:
ASAD, Talal. 1993. Genealogies of Religion: Discipline and Reasons of Power in Christianity and Islam. The Johns Hopkins University Press
ASAD, Talal. 2003. Formations of the secular modern: Christianity, Islam, Modernity. Stanford, California: Stanford University Press
DULLO, Eduardo. 2012. “Artigo bibliográfico: após a (antropologia/sociologia da) religião, o secularismo?”. Mana, 18(2), 379–392.
DULLO, Eduardo. 2021. “On two modalities of our secularity: Anthropology’s Immanent Frame”. Religion. 51(4): 533-550
DULLO, Eduardo. 2023. “Talal Asad (1932-)”. In: Antropologia da Religião: Autores e Temas. Faustino Teixeira e Renata Menezes (Orgs.). Petrópolis: Vozes (pp. 91-107)
FURANI, Khaled e ROBBINS, Joel. 2021. “Introduction: Anthropology within and without the secular condition”. Religion. 51(4): 501-517.
