O túmulo vazio

*Rodrigo Toniol* Há pouco mais de dois anos iniciei um projeto de pesquisa sobre a demolição de três igrejas para a construção de uma avenida no centro do Rio de Janeiro, durante o período do Estado Novo. Não demorou para que eu me desse conta que aqueles três casos não eram situações isoladas, mas parte de um vastíssimo portifólio, digamos assim, de centenas de igrejas católicas demolidas no Brasil ao longo do século XX. Desde então, passei a me encontrar e mergulhar com maior ou menor intensidade na história de algumas dessas igrejas que já não existem mais. Compartilho abaixo o caso de uma delas.

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Epitáfio da Igreja de São Tiago (ES)

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Obra de Eduardo Verderame

A presença dos jesuítas no Brasil é um elemento-chave para compreender a dispersão e o estilo dos templos católicos instalados no país nos dois primeiros séculos da colônia. Encarregados pela metrópole portuguesa de levar adiante o empreendimento da catequização de suas colônias, os jesuítas espalharam, de Macau, na China, a São Miguel das Missões, no Rio Grande do Sul, um estilo religioso e modelos arquitetônicos que marcariam todo o império português.

No Brasil, Lúcio Costa, então técnico do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), escreveu, em 1941, um texto sobre a arquitetura jesuítica no país. Para o arquiteto, o “estilo dos jesuítas”, por mais diverso que fosse, caracterizaria aquilo que temos de “mais antigo”. Ou seja, na interpretação de Lúcio Costa, os jesuítas foram os que trouxeram a cruz, mas também os que “inventaram” a arquitetura brasileira.

A contraface dessa presença jesuítica maciça e de todos os edifícios que ergueram é que, quando, em 1759, o Marquês de Pombal os expulsou do país, o destino dessas construções se tornou incerto. O que pertencia aos jesuítas passou para as mãos da Coroa portuguesa que, por sua vez, abandonou e repassou alguns, bem como começou a utilizar outras para fins administrativos laicos. É por essa razão que ao nos dedicarmos a analisar igrejas católicas demolidas no Brasil, o antigo patrimônio da Companhia de Jesus se constituiu como um verdadeiro “tipo”. 

Os exemplos são inúmeros. O Colégio dos Jesuítas de Salvador, por exemplo, foi transformado no Hospital Real Militar da Bahia. Já a igreja anexa ao Colégio foi entregue à arquidiocese e convertida em Sé episcopal. Vistas em conjunto, chamam a atenção as antigas instalações jesuíticas convertidas em sedes de governo. Esse foi o caso do Pátio do Colégio, em São Paulo, cujas instalações, após a expulsão dos jesuítas decretada pelo Marquês de Pombal, foram usadas como Palácio do Governo, Casa Legislativa e Secretaria de Educação.

A história da Igreja de São Tiago, em Vitória, no Espírito Santo, talvez represente o exemplo mais condensado, reunido em um único sítio, de um processo repetido em outras regiões do país. Seu arco narrativo abrange a expulsão dos jesuítas, o abandono e a dilapidação dos edifícios, a conversão do templo para finalidades administrativas seculares e, por fim, o tombamento do espaço, que apela para o reavivamento do passado jesuítico.

Essa igreja exerceu papel central na atuação dos jesuítas no Brasil. Foi fundada em 1551 pelo padre Afonso Brás e seu irmão, Simão Gonçalves. Dois anos depois, o próprio Afonso Brás mudou-se para a região que hoje corresponde à cidade de São Paulo e, ao lado de outros jesuítas, implantou ali o primeiro núcleo urbano, erguendo o Pátio do Colégio. Não demorou nem 10 anos para que este primeiro edifício fosse arrasado por um incêndio de grandes proporções. Por mais de uma década o espaço permaneceu apenas como uma ruína e a nova construção só foi iniciada em 1570.

O último quartel do século XVI marcou um período de esplendor para a Igreja de São Tiago. Nesse intervalo, José de Anchieta assumiu a direção do colégio jesuítico capixaba e da própria igreja, redigiu autos, entronizou relíquias de São Maurício e das Onze Mil Virgens e, em 1597, teve seu túmulo instalado junto ao altar-mor.  

José de Anchieta é a principal figura associada a esta igreja. A função que exerceu no templo e o fato de ter sido ali sepultado contribuem, até hoje, para a construção da memória do lugar. Seu túmulo, no entanto, foi aberto em duas ocasiões: a primeira, em 1609, quando parte da ossada foi transferida para o Colégio dos Jesuítas em Salvador; a segunda, em 1734, quando os ossos restantes também foram levados. Pouco mais de duas décadas depois, todos os jesuítas (vivos e mortos) seriam expulsos não apenas da Igreja de São Tiago, mas de todo o território português, por ordem do Marquês de Pombal. 

Quase quatro décadas após a expulsão dos jesuítas, em 1796, um novo incêndio, ocorrido na véspera do dia de São Miguel e testemunhado por uma cidade que se preparava para as festividades, voltou a consumir a igreja. Imagens, afrescos, mobiliário e peças litúrgicas foram destruídos, e apenas alguns fragmentos resistiram às chamas. O que sobrevive evidencia o já descrito processo de fragmentação das igrejas demolidas, no qual objetos se dispersam por circuitos diversos. Neste caso, três remanescentes são conhecidos: as imagens de Santo Inácio de Loyola e de São Francisco Xavier, ambas do século XVII, expostas desde 1940 na igreja de São Gonçalo, no Espírito Santo, e parte de um retábulo lateral, hoje instalada no altar da capela do cemitério de Santo Antônio, em Vitória, para onde teria sido levada ainda na primeira metade do século XX.
Enquanto esses três fragmentos foram encaminhados a outros templos religiosos, o edifício remanescente, com tudo o que restou do complexo jesuítico, foi convertido em sede administrativa do governo, passando a abrigar o Palácio do Governo, o Hospital Militar e o batalhão da polícia. Esse marco inaugura a transformação radical do antigo templo religioso em prédio público. Ao longo do século XIX e até a primeira década do XX, o edifício passou por reformas sucessivas, perdendo gradualmente os traços que remetiam à igreja original, até que, em 1911, a torre menor foi demolida e todo o interior remodelado.

Nesse mesmo ano, o túmulo de José de Anchieta voltou à pauta. O governo estadual comprometeu-se com a Diocese do Espírito Santo a entregar o que ainda restasse do sepulcro do jesuíta, arcando com as despesas de remoção e de construção de um novo túmulo a ser definido pela Igreja. As escavações foram realizadas, mas nada foi encontrado — nenhum vestígio dos restos mortais do antigo habitante do templo. Ainda assim, o assunto não se encerraria ali.

Nos primeiros anos da década de 1920, dois acontecimentos decisivos selaram a nova vida do edifício. Primeiro, a torre mais alta, último sinal visível da função sacra, foi demolida. Em seguida, por iniciativa do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e por ocasião do centenário da Independência, ergueu-se uma lápide simbólica: uma coluna encimada pelo busto de Anchieta, colocada no ponto onde, no século XVI, estivera depositado seu corpo, embora já não restasse qualquer vestígio material.

Em 1939, o prédio sofreu seu terceiro incêndio, desta vez no andar que abrigava a imprensa oficial do estado. Diversas secretarias e todo o interior foram consumidos pelas chamas; sobreviveu apenas o túmulo simbólico do padre José de Anchieta. Na reconstrução, decidiu-se não só preservar o túmulo, mas ampliar sua presença no pédio: ergueu-se uma cripta vazia destinada ao religioso. Por fim, em 1945, um decreto oficializou a mudança do nome do edifício para Palácio José de Anchieta.  E em 2009 uma capela foi construída junto ao túmulo. 

A memória jesuítica foi ressignificada como fundamento histórico do atual Palácio do Governo do Espírito Santo. Com a demolição da igreja e a dispersão de seus elementos materiais, consolidou-se um processo de fragmentação característico de igrejas demolidas. A evocação de José de Anchieta, mesmo por meio de uma cripta vazia e de uma capela construída em tempos recentes, foi mobilizada como elemento central na reinscrição do sagrado, agora transfigurado em valor histórico e patrimonial.

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