O que é a antropologia do cristianismo e sua relação com o Brasil e América Latina?

*Marcelo Camurça*

O que é a Antropologia do Cristianismo?

Desde quando passei a estudar o papel da religião no nosso país, constatei a presença de várias noções e temas que atravessaram este campo acadêmico de pesquisa: “secularização”, “reencantamento”, “campo religioso”, “religião e espaço público”, “laicidade”, “religião e gênero”, “religião e materialidades”, etc. Gostaria aqui destacar uma área de pesquisa que não se popularizou tanto, mas que pode contribuir – dentro de sua especificidade – para uma conexão comparativa do Brasil e América Latina com um plano global. Estou me referindo à “Antropologia do Cristianismo”.

A constituição da chamada “Anthropology of Christianity” enquanto um campo de estudos e tema para interlocuções remonta aos anos 1990. Neste período, uma articulação de diversos antropólogos, como Joel Robbins, Jon Bialecki, Naomi Haynes e Fenella Cannel, dentre outros/outras, promoveu este projeto autoconsciente e comparativo em torno da realidade do Cristianismo.

Os pressupostos desta articulação se expressaram no compromisso de pensar comparativa e teoricamente as semelhanças e diferenças nas formas históricas do Cristianismo em várias populações. Esta foi a postulação de Robbins, Bialecki e Haynes no artigo “The Anthropology of Christianity” publicado em 2008 na revista Religion Compass. Não é que não houvesse estudos antropológicos em regiões onde o Cristianismo predominava, mas eles não eram reconhecidos como específicos desta cultura religiosa e sim como “estudos regionais” eclipsando a realidade religiosa onde eles se davam.

Em várias pesquisas nas áreas cristãs do Sul Global, o Cristianismo foi considerado como um canal para discussões sobre modernização. Ele passou a ser abordado como uma expressão do colonialismo e introdução compulsória de modernidade. Embora a doutrina cristã já estivesse associada com a aceleração da modernidade e da globalização, a novidade da Anthropology of Christianity foi apontá-lo como locus destacado onde se estrutura formalmente a experiência dos sujeitos nesta direção. Esta antropologia voltada para o Cristianismo mostra-o como espaço privilegiado que acolhe e traduz na sua linguagem as transformações identitárias e ontológicas das mudanças em curso. 

O enfoque antropológico específico do Cristianismo permitiu constatar, nas culturas que o adotaram, o abandono de formas sociais e culturais coletivas em prol de modelos individualistas de organização social. Isso foi interpretado por Robbins, Bialecki e Haynes como um percurso em direção à modernidade e à globalização. Mas este papel do Cristianismo como agente de modernidade não foi aceito consensualmente e produziu um debate dentro da literatura da Anthropology of Christianity sobre continuidade com as antigas formas tradicionais ou transformação nos ambientes convertidos. Ao contrário dos chamados neo-weberianos, para quem o vínculo entre Cristianismo e modernidade faria parte de um processo histórico real, Fenella Cannell – na Introdução ao livro The Anthropology of Christianity, de 2006 – analisa esta associação mais como uma “ideologia da modernidade”. Ela critica a ideia do Cristianismo como força modernizadora inevitável, mesmo que em algumas localidades sua introdução produziu o que Weber chamou de “racionalização”. Para Cannell, a experiência cristã não pode ser vista ligada exclusivamente a uma trajetória vocacionada a desaguar na modernidade. Ao contrário, o Cristianismo possui muitos outros aspectos afora ser, segundo ela, “uma teleologia da modernidade ou do capitalismo global” 

Mas então qual seriam os contornos de uma identidade do Cristianismo? Fenella Cannell coloca um campo de possibilidades que iria desde este ser um fenômeno homogêneo até se constituir numa noção arbitrária para descrever realidades distintas que tomam este mesmo nome. Enfrentar a difícil tarefa de uma definição, ainda que provisória, do Cristianismo, o colocaria entre possuir uma estrutura particular que se reproduziria onde ele se plasma ou ter características que, de tão genéricas, apenas nomeariam distintas situações que atendem por esta designação. A Antropologia do Cristianismo deveria ser confrontada, então, com a seguinte questão que Cannell coloca: “o que em qualquer situação é o Cristianismo?”. Ou seja, como se podem discernir traços recorrentes dele em contextos sociais distintos onde se aloca?  Bourdieu, citando Ernst Troeltsch, diz que dentro do processo histórico onde esta religião se desenvolveu só se pode falar em permanência do Cristianismo no seu nome, dada a diversidade de suas formas. No entanto, Robbins, Bialecki e Haynes advertem que não devemos ler esses cristianismos localizados em territórios e formatos diferentes como construções inteiramente não relacionadas. Além disso, afirmam que a pertença a uma ampla estrutura transcultural para além de suas localidades dá ao converso cristão um sentimento de unidade. E é nesta trajetória mais ampla de transformação cultural que o Cristianismo engendra que, para eles, se pode desvelar os casos locais conectados por esta instância maior.

Para Bialecki, Haynes e Robbins – no artigo “The Anthropology of Christianity” de 2008 este projeto de etnografia do Cristianismo apenas se iniciou e muitas formas ainda não foram contempladas. Até o momento o pentecostalismo tem sido o principal destinatário da pesquisa antropológica. Hawell sugere que isto impediu a descoberta de outras tradições cristãs existentes. Para ele, a Anthropology of Christianity falha ao não enfocar formas não-carismáticas como o Cristianismo Ortodoxo Oriental. Portanto somente incluindo outras formas de Cristianismo numa perspectiva comparativa poder-se-á se chegar a compreender a complexidade da heterogeneidade cristã.

A Antropologia do Cristianismo e a antropologia da religião no Brasil

O interesse por uma interlocução com a chamada “Anthropology of Christianity” entre as antropólogas e os antropólogos no Brasil que pesquisam as religiões cristãs (catolicismo, protestantismo e pentecostalismo) recua aos meados dos anos 2000. Ele está marcado pelos contatos com um expoente desta corrente, o antropólogo norte-americano da Universidade de Cambridge, Joel Robbins. Em 2010 Robbins esteve no Rio de Janeiro onde proferiu no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UERJ a Aula Inaugural com o tema “Transcendence and Anthropology of Christianity: change, language and individualism”. Na ocasião, estendi o convite ao antropólogo, que esteve conosco na UFJF no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião ministrando uma palestra. Em 2013, Robbins retornou ao Brasil, onde proferiu em Porto Alegre a Conferência de Abertura nas XVII Jornadas sobre Alternativas Religiosas na América Latina. Ele teve também artigos publicados em revistas de referência na antropologia em geral e na antropologia da religião, como Mana em 2008, Religião & Sociedade em 2010 e Debates do NER em 2013.

Apesar de a antropologia que se faz no Brasil do fenômeno evangélico e católico possuir afinidades teóricas e temáticas com a corrente da “Anthropology of Christianity”, ainda se verifica uma considerável defasagem de pesquisas feitas no Brasil e por brasileiro/as nos debates e nas redes da “Anthropology of Christianity”. Em levantamento sobre a produção desta corrente antropológica voltada para uma ampla etnografia do Cristianismo, eu encontrei apenas citados os trabalhos de Clara Mafra sobre pentecostais e conservadorismo, por sinal duas vezes, no livro “The Anthropology of Catholicism” de Napolitano, Norget, Mayblin em 2017 e por Robbins no artigo “Transcendência e Antropologia do Cristianismo: linguagem, mudança e individualismo”, publicado em Religião & Sociedade em 2011. Da mesma forma, Mariz e Machado são citadas no artigo de Bialecki, Haynes e Robbins já referido acima. 

A pouca presença de antropólogo/as brasileiro/as neste circuito de debates e publicações talvez se explique pelo fato de nossa antropologia ser ainda muito “at home”, termo empregado por Marisa Peirano. Também por ainda haver uma insuficiente quantidade de publicações em língua inglesa, principal canal da interlocução da Anthropology of Christianity. Registre-se a exceção de Clara Mafra, participante mais frequente desta rede, devido ao contato com esta realidade acadêmica, através de seus pós-doutorados, em 2003 na University of Aberdeen e em 2010 na University of California/San Diego. Presença interrompida pelo seu precoce falecimento em julho de 2013. 

Nos termos de um esforço consciente e explícito de diálogo com a Anthropology of Christianity situo a reflexão de Cecília Mariz e Roberta Bivar Carneiro Campos. Esta tomou forma no capítulo “O Pentecostalismo muda o Brasil? Um debate das Ciências Sociais brasileiras com a Antropologia do Cristianismo” do livro Rumos da Antropologia no Brasil e no mundo: geopolíticas disciplinares, editado pela ABA e UFPE em 2014.

Neste texto, elas empreendem uma interlocução com a Anthropology of Christianity, no que diz respeito à formulação majoritária desta corrente teórica de que o Cristianismo funciona como locus de rupturas e mudanças culturais. Com esse instrumental pretendem criticar o que chamam de visão hegemônica nos estudos antropológicos de religião no Brasil. Para elas, este domínio teórico-temático na antropologia brasileira insiste na continuidade de uma cultura/matriz no formato católico-sincrético que se reproduz recorrentemente, como algo “tipicamente brasileiro”. No entender das autoras, para esta visão acadêmica dominante, o vertiginoso crescimento pentecostal seria explicado pela sua continuidade e dentro da dinâmica sincrética da matriz religiosa brasileira e não pelo seu potencial de ruptura como preconiza a Anthropology of Christianity e pesquisas minoritárias no Brasil. Para Mariz e Campos, a Anthropology of Christianity pode funcionar como um “contraponto metodológico” por sua perspectiva comparativa com os demais Cristianismos da África e Ásia. Isto ajudaria a questionar e relativizar o que chamam de “construção” pelas “nossas próprias Ciências Sociais” de uma singularidade religiosa sincrética brasileira.  

Não pretendo discutir aqui o entendimento de Mariz e Campos de que a Anthropology of Christianity in totum defende o Cristianismo como fator de transformação. Retornando à discussão com as autoras, constato que, de fato, o Brasil possui uma robusta tradição de pesquisa com relação ao catolicismo e protestantismo que remonta aos anos 1960, mesmo que não tipificado dentro da noção englobante de Cristianismo. Como registrado no balanço da literatura antropológica sobre religião no Brasil que Paula Montero realizou, editado pela ANPOCS em 1999, estes estudos se dividiram em três “grandes linhas, a sociologia weberiana ocupa-se das religiões protestantes, a marxista, das relações entre Igreja Católica, Estado e sociedade, enquanto a antropologia dedica-se a análise de ritos, crenças e práticas da religiosidade […] do catolicismo popular”. 

O meu ponto, então, é que muitas das perspectivas de análise realizadas no Brasil sobre o catolicismo, protestantismos e pentecostalismos no país já tocavam em questões sensíveis do debate que envolveu a Anthropology of Christianity. Deste modo, tanto a antropologia da religião no Brasil quanto a Anthropology of Christianity elaboraram teorias que se consolidaram e outras que se colocaram como opções às primeiras. Nesta perspectiva, as segundas pretendiam se constituir como uma alternativa em relação ao que consideravam inconsistências nas primeiras.

Interessante que Mariz e Campos propuseram para o campo religioso brasileiro um viés contra-majoritário em relação ao que atribuíram ser a teoria hegemônica do sincretismo, baseando-se na Anthropology of Christianity. Por sua vez, dentro desta Antropologia, as posições que viam o Cristianismo em hibridismo com as culturas nativas eram as alternativas. Curioso que a alternativa de uma é a hegemonia da outra. 

Mariz e Campos – para dar “uma outra volta no parafuso”, nos dizeres de Otávio Velho, em relação ao que entendem ser a teoria hegemônica no Brasil – recorreram a outra considerada da mesma forma canônica nos estudos antropológicos do Cristianismo na África e Ásia. Penso, então, que embutido nesta questão de hegemonia e contra hegemonia, se encontram de fato, distintos e até opostos, posicionamentos e opções analíticas sobre o papel da religião, no geral e do Cristianismo em particular. Ou seja, se a ênfase deve estar na ruptura ou na continuidade? Na homogeneidade ou pluralidade?

Devido ao posicionamento das autoras, elas criticamente identificaram as posições de Carlos Rodrigues Brandão – representativa no Brasil da continuidade e sincretismo – com as de Jean e John Comaroff, expoentes do debate dentro da Anthropology of Christianity, para quem as apropriações nativas do cristianismo significam uma continuidade com formas culturais pré-existentes a sua chegada.

Concluo, sugerindo que o mais produtivo para um conhecimento mais denso da realidade do Cristianismo em diversas partes do globo, na América Latina e no Brasil, será o de ver o fenômeno de forma multivariada e em ritmos diferentes, como já se fez em relação aos temas da “secularização” e da “laicidade”.

Também considero imperioso estabelecer correlações e conexões dos debates promovidos em torno da Anthropology of Christianity com os debates desenvolvidos na antropologia da religião no Brasil e América Latina (do catolicismo, protestantismo e pentecostalismo), ainda que não haja – ou existam muito poucas – remissões de um lado em relação ao outro.

Nesta direção, em 2022 organizamos, eu e o colega argentino Gustavo Ludueña do CONICET, um dossiê publicado em Ciencias Sociales y Religión – Ciências Sociais e Religião consagrado ao tema e intitulado “Antropologia(s) del Cristianismo en América Latina: América Latina en el circuito de las antropologias del cristianismo”. Nele destacamos a multiplicidade de mediações operadas dentro do Cristianismo latino-americano entre: tradição/modernidade, continuidade/mudança, culturas locais/Cristianismo universal. 

Compartilhe

Facebook
WhatsApp
LinkedIn
Email

Newsletter

Cadastre-se para receber informativos por email