*Bruno Reinhardt*
Tio do zap barroco? Sobre a Nova Ordem Mundial
Durante minha experiência etnográfica com pentecostais pré-milenaristas em Gana, aprendi algumas coisas sobre o que significa viver sob a sombra do Apocalipse. Destaco três. A primeira é a circularidade da escatologia: a própria ansiedade com o Fim é um sinal do Fim. Isso é parte da “dispensação” pré-milenária em que vivemos, um período da história da salvação com dinâmica temporal e semiótica próprias, no qual o futuro iminente já se desvela no agora. A segunda é que o profetismo é uma atividade profundamente ambígua – e até perigosa – por lidar com o “tempo de Deus”. Prever o Fim de maneira precisa é não apenas pecado e heresia, por pressupor acesso à mente soberana de Deus, mas também um dos modos pelos quais o Diabo opera e se imiscui na Igreja. A terceira é pedagógica: o livro do Apocalipse é “comida pesada”, cuja leitura deve ser restrita, tanto quanto possível, aos cristãos “maduros”. A carne faz bem à saúde, mas, para um bebê, pode ser veneno. Esses três eixos são centrais para habitar eticamente o fim dos tempos de acordo com o milenarismo de baixa (por vezes média) intensidade que caracteriza a maioria dos pentecostais.
As questões do Fim são complexas. Por exemplo, o termo Anticristo é usado somente quatro vezes na Bíblia, todas nos livros de João (Paulo utiliza o termo anomos ou sem-lei, na passagem sobre o katechon), o que contrasta com a sua proliferação na cultura popular religiosa e secular. A passagem não ajuda muito a narrativa de Thiel. Na primeira carta de João, aprende-se que “esta é a última hora; e, assim como vocês ouviram que o Anticristo está vindo, já agora muitos Anticristos têm surgido. Por isso sabemos que esta é a última hora” (1 João 2:18). Seria a entrada de Thiel no mercado do apocalipticismo um sinal desses tempos?
(…) acho que há muito nessa ciência e tecnologia fora de controle que está nos empurrando para algo como o Armagedom. E então, o contra-movimento natural a isso é a ideia de que evitaremos o Armagedom por meio de um Estado mundial único que tenha dentes de verdade, poder real. E o termo bíblico para isso é o Anticristo.[1]
Tudo deságua no “Estado mundial”. É curioso que, apesar da impressionante lista de autores que Thiel convoca em suas contorções eruditas, sua teologia não difere tanto, no fim (ou no Fim), das conspirações dos “tios do Zap” que animam ou tumultuam nossos churrascos: a Nova Ordem Mundial. Quando Thiel menciona um vírus “criado em laboratório em Wuhan ou algo parecido”, ele já deixa entrever essa face mais prosaica do seu apocalipticismo, geralmente mascarada por tantas referências.
A Bíblia não fala explicitamente de uma instituição política global unificada governando toda a humanidade, embora certos textos apocalípticos passaram a ser reinterpretados como tal muito recentemente. Em Daniel 2 e 7, aparecem os chamados “impérios universais” – grandes reinos simbolizados por estátuas e animais monstruosos que dominam “toda a terra” – imagens originalmente ligadas à sucessão de potências imperiais do Antigo Oriente e do Mediterrâneo. Já Apocalipse 13 descreve um poder concentrado e persecutório, a “besta” que exerce autoridade sobre “povos, tribos, línguas e nações”, uma figura que na época remetia ao poder imperial romano. Essas cenas foram tomadas literalmente por linhas periféricas do evangelicalismo dispensacionalista e transformadas em base para a expectativa moderna de um governo global unificado. Em suma, sob uma ótica religiosa, a linhagem de Thiel é muito mais próxima do fundamentalismo evangélico popular do que do catolicismo erudito e “ortodoxo” que ele crê professar.
Mas seu Apocalipse é sobretudo secular, assim como a genealogia da Ordem Mundial (Barkun, 2003). Suas raízes modernas remontam à falsificação anti-semita dos “Protocolos dos Sábios de Sião” e a fantasias sobre maçons e Illuminati, que instauraram a ideia de uma elite oculta manipulando a história. Após a Primeira Guerra, a proposta da Liga das Nações levou isolacionistas norte-americanos, cristãs e seculares, a denunciar o início de um “governo mundial”, inaugurando o uso político da expressão New World Order associada à perda de soberania. Na Guerra Fria, o enredo se divide entre o medo conservador de um totalitarismo global comunista e as críticas de esquerda ao imperialismo econômico do FMI e das corporações transnacionais. O termo se fixa culturalmente em 1990-91, quando George H. W. Bush fala em New World Order no pós-Guerra Fria, interpretado por conspiracionistas como prova de um plano conduzido por ONU, OTAN, think tanks e elites financeiras. Nos anos 1990, a narrativa se mistura ao milenarismo cristão, ao pânico tecnológico e às profecias sobre vigilância e “marca da besta” (os códigos de barra foram importantes gatilhos semióticos), intensificada pela internet e por grupos paramilitares. Após 2001, terrorismo, Big Tech e biopolítica passam a ser vistos como etapas de uma engenharia global de controle, culminando, na era das redes sociais, em movimentos como o QAnon e nas leituras apocalípticas ligadas à OMS, Big Pharma e ao Fórum Econômico Mundial. A Nova Ordem Mundial, em suma, não é apenas uma teoria conspiratória política, mas um roteiro escatológico secular integrado à teologia popular evangelho-dispensacionalista, principais fontes do “mingau” ao qual Thiel adiciona a figura ambígua e misteriosa do katechon.
Por que ainda levá-lo a sério?
O Apocalipse segundo Peter Thiel é certamente um “mingau” permeado por referências eruditas que deságuam num pastiche conspiratório popular. Então, por que levá-lo a sério? Primeiro, naturalmente, porque Thiel importa: é influente, e suas ideias circulam – assim como o seu dinheiro. Segundo, porque em um mundo já familiarizado com Trumps e Bolsonaros, Banons e Carvalhos, deveríamos estar acostumados a levar a sério o poder das “ideias sem palavras” (Jesi 2023), isto é, afetos, impulsos e atmosferas emocionais absolutos, mas semanticamente vagos, que ressoam profundamente com ansiedades muito reais. Elas incitam buscas cacofônicas a posteriori por algum chão ideológico, hoje catalisadas pelas propiciações digitais da nova ecologia de mídia.
O Apocalipse de Thiel é apenas uma variação possível de um fenômeno mais difuso: um enorme desejo de encontrar um propósito em meio à arbitrariedade da história, um eidos e um telos que permitam lê-la de frente para trás ou de trás para frente, geralmente ambos, gerando longas cadeias de sentido. Essa disposição é típica de um momento “após o fim da história”, marcado por uma exuberante proliferação de historicidades alternativas (passados e futuros passados), abrigadas em múltiplos estratos temporais (Reinhardt 2025) – alguns extremamente profundos, como o século I na ilha de Patmos.
Com a crise da ideia de progresso (e de sua noção correlata de “crise” como estágio pontual e necessário para um novo avanço), o apocalipticismo parece ter-se tornado um medium incontornável para a produção do tempo na e da política. Como procurei mostrar em minha discussão do katechon, esse é um ambiente muito mais familiar à direita – especialmente às suas versões extremas, como a tradição fascista da contra-revolução preventiva (Marcuse 1973). Como destaca Toscano, no entanto, um dos traços singulares do nosso “fascismo tardio” é que, desta vez, não há mais um Outro revolucionário real à porta: “a superestrutura parece sobrepujar a base, como se forças e fantasias antes funcionais à reprodução de uma classe dominante e de uma ordem racial tivessem agora alcançado uma espécie de autonomia” (2023: 101). Assim como o “Comunismo” de hoje, a “Ordem Mundial” é um desses novos-velhos fantasmas capazes de deslocar um imaginário transcendente para o campo do iminente, produzindo o presente a partir de um futuro condicional.
Vale para as distopias de hoje o que Mannheim atribuiu ao “elemento utópico” da realidade social: elas determinam “a sequência, a ordem e a valoração das experiências singulares”, moldando assim “a própria maneira pela qual experimentamos o tempo” (1973: 233). O fato é que o presente – e, portanto, aquilo que entendemos e sentimos como “presente” – é uma economia temporal dinâmica que inclui o instante atual (impressão), aquilo que acaba de passar (retenção) e aquilo que está prestes a acontecer (protensão). A protensão insere uma carga prospectiva e fantasmática em todo presente temporal e em toda presença sensorial. É precisamente desse lócus existencial hoje excitado que brota a atmosfericidade de crise permanente do mundo após o “fim da história”.
Thiel, consciente disso, deseja reforçar um apocalipticismo já existente com a estranha proposta de que o medo do medo do Fim – a ansiedade diante de qualquer tentativa de regular tecnologias em descontrole – é mais perigoso do que as próprias tecnologias. É esse o núcleo do que chamo de anti-anti-aceleracionismo: a recusa em permitir qualquer desaceleração, justificada por um temor escatológico meta-reflexivo. Hoje fala-se muito em “retomar o futuro”, situá-lo novamente no registro da promessa e não do pavor. Mas parece-me que, antes disso, é preciso reclamar o Apocalipse: disputar seu sentido, suas imagens e sua temporalidade, em vez de entregá-lo – junto com o futuro – ao monopólio de profetas paradoxais: reacionários aceleracionistas.
Referências
Barkun, Michael. A Culture of Conspiracy: Apocalyptic Visions in Contemporary America. Berkeley: University of California Press, 2003.
Chafkin, Max. The Contrarian: Peter Thiel and Silicon Valley’s Pursuit of Power. London: Bloomsbury, 2021.
Geertz, Clifford. “Anti anti-relativismo”. In. Nova luz sobre a antropologia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editores, 2001.
Jesi, Furio. Cultura de Direita. Belo Horizonte: Âyiné, 2022
Kotsko, Adam. The Prince of This World. Stanford: Stanford University Press, 2017.
Löwith, Karl. O Sentido na História: os Pressupostos Teológicos da Filosofia da História. São Paulo: Editora UNESP, 2024
Mannheim, Karl. Ideologia e Utopia. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1972.
Marcuse, Herbert. Contra-revolução e Revolta. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1973.
Massumi, Brian. Ontopower: War, Powers, and the State of Perception. Durham: Duke University Press, 2015.
Massumi, Brian. “Preemption Today.” Theory & Event, 28(2): 160-174, 2025.
Reinhardt, Bruno. “The Katechon and the Messiah: Time, History, and Threat in Brazil’s Aspirational Fascism.” Current Anthropology, 66(3): 332-361, 2025.
Rosa, Hartmut. Alienação e Aceleração: por uma Teoria Crítica da Temporalidade Tardo-Moderna. Petrópolis: Vozes, 2022.
Sacks, David; Thiel, Peter. The Diversity Myth: Multiculturalism and the Politics of Intolerance at Stanford. Oakland: Independent Institute, 1995.
Schmitt Carl. O Nomos da Terra no Direito das Gentes do Jus Publicum Europæum. Rio de Janeiro: Contraponto/Ed. PUC-Rio, 2014. Toscano, Alberto. Late Fascism: Race, Capitalism and the Politics of Crisis. New York: Verso, 2023.
[1] https://www.hoover.org/research/part-ii-apocalypse-now-peter-thiel-ancient-prophecies-and-modern-tech
