*André Ricardo de Souza*
Em 28 de outubro, ocorreu no Rio de Janeiro e no Brasil, como um todo, o maior extermínio coletivo urbano, em um só dia, atingindo 121 indivíduos (quatro policiais entre eles), superando a chacina do Complexo Penitenciário do Carandiru, em São Paulo, que teve 111 detentos assassinados em 2 de outubro de 1992. O governador fluminense, Claudio Castro, do Partido Liberal (PL), afirmou ter sido muito bem-sucedida tal operação contra a facção criminosa Comando Vermelho e que as vítimas da incursão das forças de segurança pública nos complexos do Alemão e da Penha, Zona Norte carioca, eram só os quatro oficiais (dois policiais civis e dois militares). A postura do gestor estadual denota: 1) a busca da desqualificação humana das outras 117 pessoas executadas, muitas sumariamente, isto é, a negação da condição delas como seres humanos, algo parecido com o que o atual governo de Israel faz em relação aos palestinos da Faixa de Gaza, por exemplo; 2) o imaginário de guerra do bem contra o mal, presente em parte muito expressiva da sociedade brasileira, notadamente a religiosa cristã.
No meio evangélico, segmento religioso muito robusto no país (26,9%) e, mais ainda, no estado fluminense (32%), tem muita presença a crença e o engajamento na guerra espiritual contra o Diabo e seus demônios auxiliares, que, supostamente, se manifestam com destaque nos cultos afro-brasileiros e na bandidagem narcotraficante. Haja vista a perseguição evangélica aos demonizados adeptos do candomblé e da umbanda (vítimas do racismo religioso), algo feito, paradoxalmente, também por leitores da Bíblia que são engajados no narcotráfico. Em face do que se entende como guerra – termo, aliás, muito predominante nas mídias para abordar a chacina de 28 de outubro – atos extremos acabam sendo validados, afinal é preciso lutar contra o inimigo até as últimas consequências, sendo seus combatentes mortos do “lado do bem” classificados como “as verdadeiras vítimas” ou mesmo heróis. As chamadas forças do mal são também denominadas trevas e precisam ser atacadas com muita força, de modo incessante e implacável. Não há meio termo aí. Conforme essa concepção de mundo, é absolutamente necessário eliminar o outro, executá-lo, também sumariamente (quando este está indefeso). Simples assim. Tal constatação ajuda a compreender como o candidato presidencial com lema religioso “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, Jair Bolsonaro (PL), foi tão exitoso em 2018, obtendo a grande maioria dos votos cristãos, sobremaneira evangélicos (67%), mesmo fazendo ostensiva apologia às armas de fogo. Estas, por suas vez, foram intensamente estimuladas e propagadas durante o seu mandato, havendo hoje uma enorme quantidade de armas, em boa parte, caracterizadas tecnologicamente por forte poder letal.
Etimologicamente, treva significa ausência de luz, portanto, de esclarecimento. É com este sentido que tal palavra aparece na oração atribuída a São Francisco de Assis: “Onde houver treva, que eu leve a luz”. Santo este que dialogou em 1279 no Oriente Médio com o egípcio sultão islâmico Al-Malik Al-Kamil em prol da paz, e é reverenciado por religiosos de diferentes tradições, além de muitos ateus e agnósticos. Não por acaso, tal prece é conhecida também como Oração da Paz, vale lembrar. No mundo cristão ideal, pautado pelo amor-ágape, fraterno e caritativo, supostamente, deveria ser essa a compreensão prevalente da busca de luz (entendimento) em contraposição à treva (estupidez) mediante ações para esclarecer, convencer, redimir e resgatar, conforme os exemplos de Jesus Cristo nos evangelhos, em sua interação com os chamados pecadores. Ocorre que a humana história cristã é profundamente marcada pela guerra religiosa e esta ainda se faz presente, de algum modo. Por tal motivo, nesse meio religioso, a treva (ignorância intolerante, agressiva e violenta) se torna, na prática, sinônimo de demônio, ou seja, o gênio do mal que não tem reparação ou salvação possível e que, por isso mesmo, precisa ser exterminado, afinal “bandido bom é bandido morto”. Esquece-se da postura (ou a mesma é menosprezada) do próprio Cristo no martírio em relação aos bandidos crucificados ao seu lado, conforme a narração bíblica. É interessante observar também a condenação implacável e extremista de fiéis religiosos aos marginais perante algumas interpretações cristãs de que Paulo de Tarso, o São Paulo, foi um perseguidor e até executor de cristãos (grande criminoso ou bandido, portanto) que se redimiu a partir de uma longa jornada de sofrimento, prisões e pregações, tornando-se o apóstolo responsável pela grande propagação do cristianismo.
Observa-se que o fundamental mandamento mosaico “Não matarás” é muito facilmente posto de lado quando se entende a realidade social como uma guerra na qual, consequentemente, é “matar ou morrer”. A ideia de guerra permanente acaba por naturalizar, banalizar e até valorizar a violência extremada, também em parte bastante grande dos fiéis cristãos, não apenas evangélicos, evidentemente. Tendo autorizado a nefasta operação policial como prática deliberada de política da morte ou necropolítica – pois busca estrategicamente alavancar sua candidatura ao Senado, dada a constatação realista de que não consegue se reeleger devido à própria incompetência – o governador do Rio de Janeiro se apega a tal ideia belicosa bastante difundida e, indiretamente, ao passado histórico do cristianismo atrelado à chamada guerra santa e às cruzadas, agora não mais contra a figura do mouro ou muçulmano, mas contra o bandido traficante (e a quem está à sua volta, mormente jovem e negro, interpretado como cúmplice), desprovido de legítimos direitos humanos, afinal não é um “humano direito”. Esta é a realidade de trevas com a qual, acredita-se, não há diálogo possível e não pode haver qualquer mediação, conforme tal danosa visão de mundo maniqueísta. Contrariamente a ela, nós, adeptos do Estado democrático de direito e da religiosidade, de fato, fraterna (historicamente defensora dos universais direitos humanos), protestamos para que haja a luz decorrente do franco debate público e geradora de políticas públicas austeras contra a impunidade e a violência arbitrária, em prol de uma sociedade efetivamente pacificada.
