*Rodrigo Toniol*
O livro Frankenstein; ou, o Prometeu Moderno, de Mary Shelley, publicado em 1818, é um acontecimento. O romance foi escrito quando Shelley ainda não tinha 20 anos, motivado por uma competição com John Polidori, Percy Shelley e Lord Byron sobre quem era capaz de escrever a história mais aterrorizante. Foi assim que Mary Shelley criou uma das histórias de ficção mais conhecidas da modernidade, inaugurou o gênero de ficção científica e deu início a inúmeras adaptações ao teatro, televisão, cinema e literatura espalhadas pelo planeta.
Confesso que, sendo admirador do livro original de Shelley, conhecendo algumas das adaptações clássicas feitas para o cinema e reconhecendo o imenso desafio que é fazer algo novo de um enredo tão repisado, não estava confiante na aposta do diretor Guillermo del Toro em lançar Frankenstein em 2025. Afinal, como reinventar ou mesmo como fazer a sua versão de uma história que já teve tantas versões?
Pois Guillermo del Toro faz valer cada minuto dos 150 que nos coloca sentados, acompanhando o nascimento e a vida do seu Frankenstein. Em seu filme, del Toro, que também assina o roteiro, dialoga muito mais com o livro de Shelley do que o filme clássico, lançado em 1931 pelo diretor James Whale. Ainda assim, é inegável que o cineasta mexicano fez uma obra com traços únicos. E para isso, usou e abusou de referências religiosas.
A começar pela forma como Frankenstein ganha vida: crucificado.


Victor Frankenstein, o criador, dá vida ao seu monstro colocando-o na cruz. O monstro que surge é tão fascinante quanto melancólico e tem duas condenações: embora possa até se parecer e ser feito de corpos, não é humano como os outros; nunca morrerá, sendo condenado a renascer cada vez que os humanos cruéis tentam matá-lo. Ora, o Frankenstein de Guillermo del Toro não somente ganha vida numa cruz, como também compartilha com o próprio Cristo os seus sofrimentos. Parece humano, mas não é; está condenado a padecer com a humanidade e a se deparar com a violência e incompreensão de quem o cerca; parece um deus poderoso, mas tampouco o é; está condenado à ressurreição.
Na versão de Guillermo del Toro, Frankenstein, a criatura, aprende a falar aos poucos. Sua primeira palavra pronunciada é Victor, o nome de seu criador. O dilema moral de Victor, por sua vez, é o de ter criado a vida e, assim, rivalizado com Deus, o que é sublinhado na medida em que, durante algum tempo, o monstro sabe apenas dizer uma única palavra: Victor. Como diz o próprio personagem do criador: é enlouquecedor ser Tudo, o Todo e Único para alguém. É enlouquecedor ser Deus.
De alguma maneira, na versão de Del Toro, criador e criatura têm algo de humano e algo de divino. Os dois habitam este terreno perigoso da indefinição.
Frankenstein, a criatura, aprende a ler com a ajuda de um homem cego, que não o vê fisicamente e, justamente por isso, é capaz de perceber sua bondade, sem se limitar ao seu aspecto físico. E o primeiro livro que lê é justamente a Bíblia. Curiosamente, quando conta o que leu, menciona apenas as passagens do Antigo Testamento. Talvez porque seja aquela a parte que não conhece, já que a outra metade é ele mesmo quem a encarna.
Já a relação de Frankenstein, o criador, com elementos religiosos não se dá somente pela tensão mais geral que cria ao tentar ocupar o lugar de Deus. Victor Frankenstein é um devoto de São Miguel Arcanjo. Em um primeiro momento, quando ainda criança, Victor aparece rezando junto a uma grande imagem do anjo, enquanto seus pais brigam no quarto contíguo ao seu. Aquela imagem é uma constante no filme.
Depois da morte de sua mãe é o anjo quem anuncia que ele fará uma grande realização. Seria uma mensagem divina ou uma predição maldita?
Quando Victor vai para uma torre abandonada para fazer sua criatura, um dos únicos objetos daquele espaço a que o espectador já havia sido apresentado antes é a imagem de São Miguel. Quando foi tentar ser Deus, Victor quis levar consigo, para o seu laboratório, sua imagem de devoção. Sempre vista desde baixo, com uma espada em punho, o anjo guerreiro está lá, guardando a fronteira entre dois mundos, o divino e o ordinário.
É como se, na primeira cena, a devoção de Victor ao anjo fosse de súplica e pedido a uma entidade sagrada. Na seguinte, quando a imagem é levada para testemunhar o nascimento do monstro, ela se tornasse, silenciosamente, o Gatekeeper da zona cinzenta e perigosa em que aquele homem se metia. E, na aparição final do anjo, já no último terço do filme, São Miguel tira sua máscara e se transforma em uma espécie de demônio feroz. Ou então, na interpretação em que mais aposto, São Miguel passa a ter de lutar contra Victor, o criador, que entrou em um terreno proibitivo.
Há cenas ainda menos alegóricas como quando Victor Frankenstein senta no lugar do padre em um confessionário para tentar ouvir o que estava curioso para saber e, sendo percebido, é driblado pela confessora. Nesse trecho, Victor não consegue ocupar o lugar sagrado que não lhe é devido.
Ao falar sobre a relação entre religião e seu novo filme, Guillermo del Toro é explícito. Em uma entrevista dada no festival de Veneza, o cineasta mexicano conta como não foi a religião que inspirou o filme, mas o contrário, como foi a história do filme clássico, feito em 1931, que o ajudou a entender a religião.
“Era uma religião para mim. Desde criança, fui criado em um ambiente muito católico, nunca entendi muito bem os santos. Mas então, quando vi Boris Karloff [o ator que interpretou Frankeinstein em 1931] na tela, entendi o que era um santo ou um messias. Eu venho acompanhando a criatura desde minha infância, e sempre esperei que o filme fosse feito nas condições certas, tanto criativamente, para alcançar o escopo necessário, quanto na escala para reconstruir todo o mundo”
Assim como na história que criou, repleta de inversões e indefinições entre o sagrado, a transgressão, o profano e o ordinário, Guillermo del Toro também subverte em sua própria biografia e faz do cinema sua fonte mítica de explicação do mundo religioso, e não o contrário.
