“Entre as duas academias”: a corrida pelos títulos e o crescente domínio do léxico acadêmico no cotidiano dos afros religiosos

*Joana Bahia*

Tata Nkisi Katuvanjesi, Walmir Damasceno, líder do Terreiro Inzo Tumbansi,
publicou junto com o antropólogo Vagner Silva o livro Através das águas: os bantu na
formação do Brasil em 2023. Em 2024, ele publicou o livro com o curioso título de
Entre as Duas Academias: A encruza de saberes e o Candomblé Kongo-Angola em São
Paulo. Em outubro de 2023, ganhou o título de honoris causa pela Unifesp.
Na ocasião São Paulo recebeu a visita de Mwene Mwatchisenge Wa Tembo,
conhecido como o rei Lukhasa João, do povo Lunda Tchokwe, um dos vários grupos
étnicos que ocupam o leste de Angola. Lukhasa João participou da cerimônia de outorga
do título de Doutor Honoris Causa à Tata Nkisi Katuvanjesi. A concessão honorífica
não simbolizou apenas o mérito individual do Tata, mas um encontro ancestral de
religação dos laços entre a população afrodiaspórica no Brasil e África.
A comitiva real que acompanhou o Rei Lukhasa João incluía figuras
proeminentes, como Nganga Milonga Salau, ministro da Corte e diretor do gabinete de
apoio ao Rei, o historiador Guilherme Chihumbue Martins, autor do livro História e
Identidade Cokwe, retrato histórico do povo Cokwe. Além disso, o secretário do
Soberano tradicional, Txaka Dionísio, esteve presente para representar a tradição
cultural do povo Lunda Tchokwe.


Esse evento foi amplamente noticiado, sendo comemorado pela comunidade da
“umbanda ead”, curso de pós-graduação latu sensu credenciado pelo Ministério da
Educação, (MEC) e administrado pelo pai Rodrigo Queiroz. Atualmente o Tata
Katuvanjesi dá aulas de cultura bantu nesse curso. Todo o processo contou com
assinaturas de vários antropólogos instados a colaborar com o documento que sugeria à
universidade a sua titulação. Pai Rodrigo sondou um ou outro acadêmico da área de
história/ ciências sociais para ingressar na pós-graduação Ubuntu, que pudesse tratar da
cultura bantu, porém o peso de ser da religião com algum título agrega maior capital
religioso e científico. Ser titulado é fundamental, mais ainda mais se for “do santo”, e se
possível do mesmo segmento religioso. Neste sentido, os dois tatas, um honoris causa e
outro cientista da religião, têm dupla legitimidade e cumprem os requisitos do MEC,
respectivamente Tata Katuvanjesi e o Babá Mário Filho.


Nas aulas do umbandista Alexandre Cumino, muitas vezes em primeiro lugar
temos anunciada sua formação em ciências da religião, antes mesmo de sua formação
como liderança religiosa. No meio umbandista é considerado um acadêmico, ou um
umbandista meio acadêmico. Essas nuances variam muito com as situações. Porém, a
quantidade de suas obras publicadas sobre umbanda pela editora Aruanda são
amplamente veiculadas nas feiras de livros em vários estados. Além disso, dá cursos de
ponto riscado, mais recentemente em parceria com pai Claudio Macedo, dirigente do
terreiro Adupo, em Braga, Portugal. O modo de explicar a pomba gira em suas aulas
obedece a um regime feminista, em que o modo de trato do foro pessoal é atravessado
por muitas expressões da crítica social. A picardia das entidades e os jogos de sedução sexual e outros dão lugar à centralidade do sujeito e da sua autoestima. Esse regime de
coisas mostra as influências de ambas as esferas na produção do sagrado,
ressignificando os sentidos de exus e pombas giras e trazendo novas linguagens, novas
percepções de gênero e novos atores sociais nesse campo. Se o terreiro entrou na
academia, de um certo modo certos temas entraram na vida social das entidades –
digamos que a pomba gira é bastante letrada.


Títulos de doutorado se mesclam com cargos honoríficos no candomblé e na
umbanda. Isso acontece na apresentação pública de seus perfis nas mídias sociais, seja
em eventos públicos em ongs, universidades, terreiros, museus, seja também na
divulgação de cursos de pós-graduação dos quais alguns pais de santo fazem parte ou
mesmo minicursos que promovem em seus terreiros, ou em outras instituições de
ensino. O epíteto “babalaô doutor” não apenas é de uso corrente e amplamente
naturalizado, como tem sido estudado por Jocélio Teles e Luiz Chateaubriand C. dos
Santos em 2013, no artigo em que analisam, no período de 2006-2008, o perfil das
lideranças dos terreiros de Salvador, Bahia. Os autores mostram que as lideranças
religiosas com graus de instrução mais elevados, os “pais de santo doutores”, têm
presença mais intensa no mercado de trabalho. Também destacam a importância do
emprego no setor público entre as ocupações mais presentes em ambos os grupos – na
quinta posição entre os que têm até o nível médio e na segunda entre os que ingressaram
no curso superior – e as diferenças no tipo de ocupação que concentra o maior número
de pessoas em cada categoria: as baianas de acarajé, entre os que têm até o nível médio,
e o(a)s professore(a)s, nos que ingressaram na universidade.


Nina Rodrigues e Arthur Ramos transformaram o terreiro do Gantois, sede das
suas pesquisas. Estácio de Lima, também médico e professor da Faculdade de Medicina
e de Direito, era ogã da Oxum de Mãe Menininha, no período de 1938-1939, em que a
antropóloga norte americana Ruth Landes realizou pesquisas em Salvador.
Capone no seu livro A busca da África pelo candomblé mostra essa mistura entre
o campo das ciências humanas, em especial, da antropologia com o campo afro
religioso. Ojá, eketes e outras vestes são mescladas ao universo acadêmico e são parte
constante da vida social desses grupos dentro e fora da universidade. O título honorífico
“obás de Xangô”, atribuído em 1938, por mãe Aninha (fundadora do ilê Opô Afonjá), a
intelectuais como Jorge Amado, Carybé e Dorival Caymi significou uma negociação
para trazer a sociedade ao terreiro e dirimir de um certo modo o grande preconceito que
existia na época. Os obás de Xangô são pessoas que circulavam entre o terreiro e a
sociedade.


Se o mundo da política e da burocracia estatal fizeram parte do perfil cristão por
muitas décadas, o universo afro religioso tem há algumas décadas se aproximado cada
vez mais da universidade. Essa aproximação não se dá apenas pelo acesso a políticas
educacionais que vêm sendo gestadas desde o governo Lula e que beneficiou
populações de baixa renda, mas tem vários outros aspectos: a percepção de que a
universidade pode ser uma via para a construção de parcerias, o estudo que traz a maior
percepção da intolerância e modos de combatê-la, o acesso a recursos públicos de
projetos sob a liderança de pais e filhos de santo da casa que possuem maior titulação.

Podemos pensar a própria produção da religião a partir das áreas de estudos.
Temos o exemplo da produção da oferenda sob a perspectiva biológica e ecológica
como o caso do Babazinho, biólogo formado pela Uerj e liderança religiosa de
Seropédica, criador de uma Iemanjá ecológica para a festa de Iemanjá de Sepetiba.
Pensar conceitos africanos como Ori (cabeça) sob a perspectiva filosófica, ou ratificar
algo que já se pensa há décadas no fazer religioso, porém como maior legitimidade sob
o logo da ciência?


Temas afro religiosos dão status dentro do terreiro e do campo das ciências
sociais, há uma valorização da pós-graduação, em que obter um título significa maior
esforço, sendo considerado de maior valor do que um honoris causa. O vai e vem entre
ciência e religião afro traz muitas questões em que a circulação de sujeitos, termos e
modos do conhecimento religioso pode também gerar tensões e desconhecimento das
regras de um campo para outro e as sobreposições de hierarquias religiosas ao universo
científico e vice-versa. Fato que gera conflitos, pois a senioridade é um critério forte
tanto no campo afro religioso quanto no acadêmico. Mais tempo de academia e mais
tempo de santo proporcionaria maior domínio de sua expertise.


Porém ser acadêmico na prática religiosa é bastante questionável e alvo de muitas
críticas, pois a explicação da ciência não corrobora a prática religiosa diária. O
conhecimento que vem da universidade pode encantar aqueles que estudam, mas não
totalmente aqueles que praticam, foge do imprevisível, do improvisado e do que não se
pode organizar. No cotidiano do terreiro só o pai de santo é doutor. Entretanto, leituras,
pdfs, livros, apostilas, mídias sociais são parte da troca de conhecimento produzido que
precisa ser lido e reavaliado, circulando nos whatsapp do terreiro, assim como nas
conversas na cozinha do santo ou no roncó. Muitos dos conhecimentos produzidos em
livros foram cozinhados nos terreiros por diversos sujeitos sociais baseados em suas
experiências religiosas. Num certo sentido, o terreiro é o chão da pesquisa.


Muitos intelectuais do Axé afirmam categoricamente que se cansaram de ser
objetos. A ideia é pensar que o sujeito não é mais objeto de estudo, e sim sujeito das
suas pesquisas e da sua autoria. A descolonização traz novas possibilidades – em alguns
casos até criativas – de desconstrução, entretanto traz muita proximidade do campo de
observação com o campo analítico, o que muitas vezes pode comprometer a
reflexividade. O que pode gerar análises míopes, previsíveis e do tipo “só o sujeito pode
falar de si”, ou “o decolonial já vem descolonizado”.


Se tanto Teles quanto Capone mostram o crescimento da formação acadêmica e
intelectual desse grupo, assim como a sua entrada no mundo do trabalho, vemos um
avanço maior nessa inserção a cada ano que passa. Cada vez mais as famílias de santo
se titulam nas pós-graduações, e buscam por novos títulos como o honoris causa.
No dia 11 de outubro de 2025 participei da entrega de um honoris causa,
recebidas tanto por pessoas da sociedade civil, quanto por outras pertencentes ao
terreiro. A cerimônia foi em Oeiras, Portugal. A organização é resultante de uma
parceria entre o instituto Vasconcelos Educacional, localizado em São Paulo, e o terreiro
de candomblé ilê Ifê Yemonja Asé Aganju, localizado em Sintra, Portugal. Não apenas
recebi o honoris causa pelo meu trabalho acadêmico sobre religiões afro e por ser
colunista do blog do Axénews, mas também recebi o título de Ojú Aladê (olhos da realeza). Para o ilê, os olhos da realeza são os olhos de Iemanjá, rainha do mar, dona de
todas as cabeças. Todos os doutores presentes foram considerados os olhos dessa
realeza afro diaspórica. Títulos que se sobrepõem a outros, de obás para ojú aladê.
A ocasião foi importante por ser o segundo ano da parceria entre a universidade
o terreiro, e por mobilizar os mesmos sujeitos que organizam a formação de capelania
no instituto educacional. A capelania é modalidade também honorífica e social, além de
ser modus operandi que permite circular em vários ambientes. Sendo capelão é mais
fácil entrar em hospitais, escolas e em qualquer instituição pública. Além da
preocupação em divulgar a cultura afro na sociedade lusa, havia uma cobrança dirigida
à câmara municipal local de políticas públicas voltadas para a preservação desses
saberes pelo Estado português. Além dos cursos de capelania, são bastante comuns
cursos para batizados e casamentos na umbanda, abertos também aos demais segmentos
afro.


A iniciativa partiu da mãe Branca de Iemanjá, ao observar os honoris causa
sendo entregues a personalidades do campo afro religioso no Brasil: por que não fazer o
mesmo em Portugal, onde as religiões afro e sua diversidade parecem estar bem
consolidadas, sendo uma forma de valorizar a “tradição” que se forja no contexto
transnacional? O pai de santo de Mãe Branca pertence à família de santo da Casa de
Oxumaré, Bahia. Havia na cerimônia candomblecistas, umbandistas, juremeiros e povo
do ifá, que não apenas circulavam em Portugal, mas também na Espanha e na França.
Quando se anunciavam alguns homenageados, eram valorizados tanto os tempos de
santo anunciados, quanto os livros que circulavam pela cerimônia. As duas academias
estavam ali presentes.

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