Defesa religiosa da castidade ou luta contra o feminicídio: o caso da Beata Benigna no Ceará

*Marcelo Camurça*

No catolicismo popular brasileiro e nordestino a figura da beata designava mulheres consagradas e devotadas à vida religiosa, geralmente em torno de “homens santos”, como no Cariri as beatas das Casas de Caridade do Padre Ibiabina ou a beata Maria de Araújo e a beata Mocinha estreitamente ligadas ao Padre Cícero. Estas inspiraram também a obra ficcional de Rachel de Queiroz de 1957, “A Beata Maria do Egito”.  Em geral, as beatas trajavam um hábito preto, mas não se configuravam como Ordem Religiosa com reconhecimento da Igreja Católica. Ao contrário, enquanto figuras femininas com certo protagonismo em um contexto patriarcal e ligadas a práticas devocionais populares, eram vistas com suspeição e objeto de controle pela hierarquia da Igreja.

Uma outra acepção de beato/beata é aquela que, segundo o Direito Canônico, expressa uma condição anterior à concessão do reconhecimento da santidade para pessoas pela sua exemplaridade de vida piedosa e a quem se atribui milagres. Dou como exemplo a beatificação em 2020, pela Congregação da Causa dos Santos no Vaticano, do jovem millenial italiano Carlo Acutis falecido em 2006 com 15 anos. Ele era influencer digital e criador de sites e blogs católicos e agora em setembro de 2025 foi canonizado por autorização do Papa Francisco em 2024.

Este também é o caso da cearense Benigna Cardoso da Silva. Ela foi assassinada aos 13 anos a golpes de facão por resistir a tentativa de violação por um rapaz que a assediava, no município de Santana do Cariri, Ceará, em 24 de outubro de 1941. O horror do ocorrido foi apropriado pela Igreja Católica local como um “martírio” e o pároco da cidade, num ato revestido de simbolismo, acrescentou ao seu registro de batismo, que na época era atribuição da Igreja, uma mensagem onde alcunhava-a de “heroína da castidade”. Rogava também o conteúdo do escrito para que sua “santa alma” convertesse os habitantes da localidade e protegesse suas “crianças e as famílias”.

Desta forma iniciou-se, logo após seu assassinato, um culto à “santinha”, pelo qual a Igreja procurava estimular valores conservadores em relação às mulheres: virgindade como expressão da pureza, à imagem da Virgem Maria. Este tom moralista conservador foi mantido pela Igreja Católica do Ceará na campanha atual pela beatificação da menina.

Quanto aos devotos populares de Benigna, estes estabeleceram uma ligação com ela na espera de graças concedidas e milagres. Neste sentido, pela intervenção da Igreja local e pela adesão popular, Benigna passou a ser alcunhada de Beata. No caso, suas qualidades de santa que se compadecia dos sofredores deviam-se ao fato dela ter experimentado um sofrimento extremo através de uma morte na forma de um suplício.

Situações semelhantes ocorreram com outras “almas milagrosas” que também passaram por esse padecimento, como a “Maria Degolada” no Rio Grande do Sul estudada por Steil e Toniol, e a jovem Palmira, que morreu aos 17 anos em 1877 num acidente de trem e transformou-se numa “santa de cemitério” em Juiz de Fora/MG, pesquisada por Simone Oliveira.

Outra apropriação mais secularizada do evento do crime envolvendo Benigna começou a surgir paralelamente ao conteúdo religioso moralista empregado pela hierarquia da Igreja quando da campanha recente pela sua beatificação. Esta corrente de opinião interpreta, ao contrário da visão eclesiástica, que a tentativa de violência sexual seguida de assassinato foi, de fato, um feminicídio. Segundo o jornal O Povo, oportunamente, no mesmo dia 24 de outubro em que Benigna foi assassinada foi aprovado pela Assembleia Legislativa do Ceará e sancionado pelo governo o “Dia Estadual de Combate ao Feminicídio”.

Curiosamente, a Lei 11.340 de proteção às mulheres vítimas de violência doméstica e familiar, sancionada pelo presidente Lula em agosto de 2006, leva o nome de uma cearense: Maria da Penha. Ela, uma farmacêutica bioquímica, foi vítima de dupla tentativa de homicídio em 1983, pelo seu então marido. Embora tenha escapado da morte, ficou paraplégica. O caso foi a julgamento duas vezes, em 1991 e 1996. Embora nos dois julgamentos o agressor tenha sido condenado a 15 e 10 anos respectivamente, conseguiu evitar o cumprimento da pena, sob alegação de irregularidades na condução do processo. Esta cearense se notabilizou por levar o seu caso em 1998 para a Comissão de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA), que reconheceu o descaso do Estado brasileiro em relação à tentativa de assassinato que havia sofrido. Com isto, se tornou um símbolo de luta contra a violência às mulheres, dando nome à referida Lei.

Mas nem sempre o religioso e o secular estão apartados no caso do culto a Benigna. Segundo a professora Renata Marinho Paz da Universidade Regional do Cariri, estudiosa do catolicismo popular na região do Cariri, existe toda uma articulação entre poderes públicos, comércio local e a Igreja Católica para fomentar um turismo religioso em torno deste culto. O governo do estado investiu 15 milhões para a construção de uma estátua e um santuário para a beata, assim como em obras na melhoria das estradas ao local.

De acordo com a professora, este culto em grande parte foi induzido e não tão espontâneo como o do Padre Cícero. De qualquer maneira, pode-se notar uma interferência dos devotos na configuração do culto e na representação imagética da Beata. Numa matéria sobre o tema, o jornal O Povo registrou que os devotos e romeiros reprovaram o monumento porque as feições da estátua pareciam adultas e não de uma criança de 13 anos, idade que a menina tinha quando foi assassinada. Na estátua ela era representada diferente da imagem infantil com que os seus seguidores estavam acostumados.

Em razão desta desaprovação generalizada e às vésperas da romaria da Beata Benigna, a prefeitura de Santana do Cariri, lugar onde está situado o monumento, junto com o Governo do Estado, decidiu desmontar a estátua e reconstruí-la com as feições adequadas.

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Fonte: O Povo, 12/09/2025

https://www.opovo.com.br/noticias/ceara/2025/09/12/saiba-porque-estatua-da-beata-benigna-esta-sendo-desmontada.html

Uma abordagem crítica da apropriação religiosa do feminicídio que vitimou não apenas Benigna, mas também Francisca e Maria de Bill, todas mulheres cearenses mortas por homens no interior do estado, foi a que realizou o documentário produzido pela empresa O Povo (OP+). No filme intitulado Ela não queria ser santa, uma locução que acompanha as imagens da devoção diz: “nem Benigna, nem Maria, vítima do assassino Bill, nem Francisca jamais desejaram ser esfaqueadas por homens e, depois do martírio estúpido, serem santificadas aos olhos da fé do povo e levadas para altares da Igreja Católica. Elas queriam apenas viver!”.

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Publicidade do filme

Pelo lado da Igreja Católica, o fato de D. Leonardo Steiner, Arcebispo de Manaus, comprometido com a “opção pelos pobres”, com as causas ambientais e a defesa de indígenas, ribeirinhos e migrantes, ter sido o representante do Papa Francisco na condução da cerimônia de beatificação de Benigna parece indicar uma mudança na ideia conservadora de “mártir da castidade”. Na sua homilia na Missa de Beatificação ele ressaltou que a “menina Benigna” foi um exemplo de não submissão das mulheres, preferindo a morte à violência.

Por fim, para falar da imbricação da questão religiosa com a questão social, no documentário Ela não queria ser santa, uma moradora da região, ao ser perguntada pelos realizadores do filme sobre os milagres da Beata Benigna, respondeu que o marido teve um tumor no braço e, pela intercessão da Beata, se curou. Por isso enviou um ex-voto de cera representando o braço curado para o santuário da Beata. E ainda indagada, por suposição, qual graça poderia pedir à Beata, ela respondeu que seria “parar de trabalhar na casa dos outros” e conseguir a sua aposentadoria.

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