*Ana Paula Mendes de Miranda e Mariana Maiara Soares Silva*
A devolução de bens de origem africana em museus europeus (Vergès, 2020) associa-se ao debate crescente no Brasil sobre patrimônio, memória e reparação, em contextos marcados por perseguições, criminalização e apagamentos (Mãe Meninazinha de Oxum et al., 2021).
A Coleção Perseverança, sob a guarda do Museu do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas (IHGAL), exemplifica a articulação dessas questões atualmente. Trata-se de peças religiosas apreendidas em contexto de violência durante o episódio conhecido como Quebra de Xangô (Rafael, 2012).
Entre a destruição coletiva de terreiros em fevereiro de 1912 e o tombamento da Coleção Perseverança pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em novembro de 2024 (Marcante, 2023), delineia-se um percurso de conflitos que evidencia a histórica tensão entre o Estado brasileiro e tradições religiosas de matrizes africanas.
A repressão dos cultos afro-brasileiros não é um fenômeno atual nem resulta apenas de divergências religiosas; insere-se na formação da sociedade brasileira, marcada por hierarquias raciais e culturais desde a colonização. Na transição do século XIX para o XX, com a passagem do Império à República, mudanças jurídicas desvincularam o Estado brasileiro do catolicismo e instituíram um Código Penal que classificou práticas afro-brasileiras como “feitiçaria” e “curandeirismo”. Esse movimento consolidou práticas institucionais de regulação violenta das populações negras, mantendo mecanismos de controle e sujeição e afastando essas tradições do debate sobre liberdade religiosa até a Constituição de 1988.
No mesmo período, experiências de repressão coletiva, como a Guerra de Canudos (1896-1897), revelam uma intervenção estatal guiada por ideais higienistas e pela eliminação de modos de vida considerados desviantes. Apesar das diferenças entre os eventos há uma lógica de produção de inimigos internos, associando práticas religiosas e populações racializadas ao risco à ordem pública.
Quebra de Xangô: o passado que não passa
Em fevereiro de 1912, em Maceió, terreiros de Xangô foram invadidos, destruídos e saqueados por cerca de 500 homens de uma milícia paramilitar ligada a disputas políticas locais, disfarçados como troça carnavalesca na noite de 1º e madrugada de 2 de fevereiro, durante os preparativos para os festejos de Oxum.
A ação se apoiava em um contexto mais amplo de repressão às religiões afro-brasileiras e resultou na morte da Iyalorixá Tia Marcelina, na prisão de religiosos e na apreensão de objetos sagrados, publicamente exibidos como troféus e convertidos em prova de uma suposta vitória contra a “feitiçaria”. Esse episódio não pode ser entendido como um evento isolado. Ele expressa uma forma de relação entre Estado, elites e populações negras marcada pela violência e pelo controle.
Trata-se de um passado que não passa: seus efeitos não se encerram no momento da destruição, mas se prolongam nas formas de tratamento dos objetos apreendidos, nas classificações atribuídas e na exclusão dos povos de terreiro da definição de seus significados até hoje.
Liderada por um veterano da Guerra de Canudos, a ação violenta incluiu a exibição pública, na sede da Liga dos Republicanos Combatentes, de objetos sagrados como despojos de guerra, reduzindo-os a meros objetos e afirmando a tomada de poder. Esse deslocamento — da destruição dos terreiros à apreensão, circulação e institucionalização desses objetos — permite compreender a formação da Coleção Perseverança e as tensões que a atravessam atualmente.

Coleção Perseverança: a transformação de “bugigangas” em obras de arte
Após serem apreendidos e exibidos publicamente como despojos, em 1912, os itens sagrados foram posteriormente incorporados ao acervo do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, criado em 1869 pela elite intelectual alagoana. No IGHAL, permaneceram sob controle institucional, sem acesso pleno dos povos de terreiro, sendo mantidos por décadas em condições precárias de guarda. Mesmo quando acessíveis, a visitação restrita reforça o distanciamento em relação aos grupos religiosos de origem.
Por décadas, um regime de classificação que os nomeou como “curiosidades” ou “bugigangas” (Almeida, 2020) os reduziu a objetos sem valor cultural, desqualificando o sagrado afro-alagoano e hierarquizando saberes. Essa lógica orientou a catalogação, posteriormente questionada por lideranças religiosas, e se materializou nas condições de guarda, mantendo as peças em caixas, em um porão, afastadas do público e dos grupos de origem.
A partir da década de 1950, o interesse de instituições estrangeiras levou à reavaliação desses objetos como arte e à sua incorporação ao patrimônio cultural. Essa valorização, porém, ocorreu sob um enquadramento museológico que desloca os objetos de seus contextos rituais e privilegia sua leitura como peças estéticas (Conduru, 2019), dissociando-os de suas funções religiosas e dos grupos que lhes atribuem sentido.
O reconhecimento de seu valor cultural e sua divulgação como coleção ocorreram décadas depois. Catálogos sistematizaram os objetos sob a perspectiva da memória e da cultura afro-brasileira, mas suas classificações seguem tensionadas pelos povos de terreiro, sobretudo nas mobilizações pelo tombamento intensificadas desde 2012, centenário do Quebra de Xangô. Hoje, a Coleção Perseverança reúne 211 objetos que registram práticas religiosas, modos de vida e tradições locais, que evidenciam processos históricos da diáspora africana em Alagoas, já marcada pela destruição do Quilombo dos Palmares (1694-1695). Até 2017, a Coleção Perseverança estava exposta na antiga sede do IGHAL. A exposição atual resulta de recentes reconfigurações antes do processo de tombamento, dando maior destaque público ao acervo e o deixando em um ambiente climatizado.
O Xangô se refere aos cultos afro-brasileiros de matriz nagô, praticados sobretudo em Pernambuco e Alagoas, constituindo uma tradição religiosa própria, compartilhando elementos do Candomblé baiano. No contexto afro-alagoano, destaca-se a migração de lideranças religiosas da nação Xambá, em razão da perseguição religiosa, para Pernambuco, onde essa tradição passou a ser reconhecida e consolidada.
O “Capacete de Xangô” identificado na foto consta dos catálogos sobre a coleção com a classificação de “Ogum China” (Fontes, 2021), termo que é frequentemente criticado por lideranças religiosas locais, em especial, Pai Celio de Iemanjá, babalorixá e historiador, que ironiza não reconhecer essa qualidade de Ogum na cosmologia africana.
Segundo Fontes (2021), a classificação “Ogum China” ilustra como os processos de catalogação podem gerar categorias inexistentes nas tradições afro-brasileiras, reflexo do desconhecimento das referências rituais e da cosmologia desses sistemas religiosos. Esse caso revela que tais procedimentos podem distorcer os sentidos dos objetos, além de contribuir para o apagamento de entidades e formas de culto não devidamente documentadas, mostrando como a produção institucional do conhecimento pode redefinir ou silenciar aspectos das tradições religiosas afro-brasileiras. Nesse sentido, a trajetória da Coleção Perseverança evidencia que a transformação desses objetos em patrimônio não elimina as tensões que os atravessam, mas as reconfigura, deslocando a disputa do campo da repressão direta para o das classificações, das formas de exposição e das condições de reconhecimento do sagrado, que permanece sendo tratado como objeto de exotização.

O GT do Tombamento: construção de políticas públicas
É nesse contexto de inacessibilidade, classificações equivocadas e de narrativa institucional que desconsidera sentidos religiosos que se estrutura a mobilização pelo tombamento da Coleção Perseverança. A estratégia dos povos de terreiro articulou mobilização pública e pressão institucional. Lideranças transformaram a memória da violência do Quebra de Xangô em movimento político, por meio do “Xangô Rezado Alto” (Miranda, 2023). Ao vincular a reivindicação ao centenário de 2012 e ocupar o espaço público com cortejos, afoxés e celebrações na orla, deslocaram a questão para a esfera pública, obtendo inclusive um pedido oficial de perdão do governo de Alagoas (Rafael, 2020). Essa visibilidade foi ampliada por uma coalizão que reuniu terreiros, universidades, o Instituto do Negro de Alagoas, a OAB e o Ministério Público Federal, conferindo legitimidade à demanda diante do Estado.
Apesar do amparo legal, a institucionalização dessas demandas no âmbito do IPHAN — resultado da mobilização pública e da pressão construída pelos povos de terreiro — não se deu de forma linear. O tombamento, iniciado em 2012, permaneceu inerte por anos, avançando apenas em 2022 com a criação do Grupo de Trabalho no IPHAN em Alagoas.
O GT operou como espaço de confronto entre formas de conhecimento, evidenciando tensões entre a burocracia estatal e a cosmopercepção dos povos de terreiro. Entre as diretrizes construídas estão a gestão compartilhada, protocolos religiosos para o manuseio das peças e a revisão das narrativas expositivas a partir da perspectiva dos religiosos.
Desde o início, a reivindicação pelo tombamento articulou-se à retirada das peças de um espaço que privilegia a narrativa da elite alagoana para outro que permita sua valorização como objetos sagrados, e não apenas como patrimônio artístico. Apreendidos e posteriormente incorporados ao circuito museológico, esses objetos foram deslocados de seus contextos rituais e submetidos à dessacralização. Ainda assim, permanecem reconhecidos como portadores de axé pelos povos de terreiro, que reivindicam condições de guarda, manejo e interpretação compatíveis com seu caráter religioso.
Experiências como a criação de instâncias de participação na gestão de acervos, como no caso de Nosso Sagrado no Museu da República, indicam possibilidades de reconhecimento desses sentidos, mas também evidenciam sua fragilidade, pois tais arranjos podem ser descontinuados com mudanças institucionais. Trata-se, assim, não apenas de preservar um acervo, mas de disputar os termos de sua interpretação e de sua existência pública.

Patrimônio, memória e disputa
A trajetória da Coleção Perseverança evidencia que o patrimônio não é um dado, mas um processo social e político. Longe de constituir um reconhecimento neutro ou consensual, o tombamento do acervo torna visíveis disputas históricas em torno da memória, da legitimidade e das formas de produção de conhecimento sobre religiões de matriz africana.
Ao longo de mais de um século, os objetos da coleção foram deslocados de seus contextos rituais, classificados de forma equivocada e mantidos sob guarda institucional sem acesso pleno aos povos de terreiro. Esse percurso indica que a violência do Quebra de Xangô não se encerrou em 1912, mas se prolonga no tratamento desses bens. A transformação de objetos sagrados em “bugigangas” e, posteriormente, em obras de arte expressa mudanças de valor que não eliminam as assimetrias dessas classificações.
O processo de patrimonialização não pode ser compreendido apenas como política de preservação. Envolve redefinir quem atribui sentido aos objetos, quais narrativas são legitimadas e quais formas de conhecimento são reconhecidas. As tensões no Grupo de Trabalho do tombamento mostram que a incorporação dos povos de terreiro ocorre com conflitos, no confronto entre a lógica burocrática do Estado e a dimensão ritual e cosmológica que orienta sua relação com objetos sagrados.
O tombamento não encerra as disputas da coleção. A permanência das peças em um espaço institucional marcado por narrativas eurocêntricas, assim como os desafios da gestão compartilhada e do reconhecimento de sua dimensão sagrada, indica que a patrimonialização segue em aberto. A reivindicação dos povos de terreiro não se limita à preservação material, mas envolve a redefinição das condições de guarda, interpretação e acesso.
A Coleção Perseverança, portanto, permite compreender os limites e as possibilidades das políticas de patrimônio no Brasil contemporâneo. Ao mesmo tempo, aponta avanços no reconhecimento de bens associados às religiões de matriz africana e evidencia a persistência de formas de controle, tutela e desigualdade na relação entre Estado e comunidades tradicionais.
Mais que um acervo, a Coleção Perseverança configura-se como um campo de disputa em que memória, religião e política se entrelaçam. Analisar esse processo implica reconhecer que o patrimônio resulta de negociações e conflitos continuamente produzido nas relações sociais.

Referências bibliográficas
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CONDURU, Roberto. Esse “troço” é arte? Religiões afro-brasileiras, cultura material e crítica. In: Modos – Revista de História da Arte. Campinas, v. 3, n. 3, p. 98-114, set. 2019.
FONTES, Larissa. Um orixá desaparecido: etnografia num museu silencioso. Afro-Ásia, Salvador, n. 64, p. 363–399, 2021. DOI: https://doi.org/10.9771/aa.v0i64.42090
MENINAZINHA DE OXUM, Mãe; NILCE DE IANSÃ, Mãe; VERSIANI, M.; CHAGAS, M. A chegada do nosso sagrado no Museu da República: “a fé não costuma faiá”. In: PRIMO, J.; MOUTINHO, M. (org.). Sociomuseologia: para uma leitura crítica do mundo. Lisboa: Edições Universitárias Lusófonas, 2021. p. 73–102. DOI: https://doi.org/10.36572/csm.2021.book_5
MARCANTE, Maicon Fernando. Coleção perseverança: uma etnografia da mediação no processo de patrimonialização. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social) — Universidade Federal de Alagoas, Instituto de Ciências Sociais, Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, Maceió, 2023.
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RAFAEL, Ulisses Neves. Xangô Rezado Baixo: Religião e política na Primeira República. Maceió: Edufal, 2012.
RAFAEL, Ulisses Neves. Um pedido de perdão e o Xangô Rezado Alto: apropriações da memória e estratégias retóricas no Centenário do Quebra de 1912. Revista del CESLA, vol. 26, pp. 291-306, 2020.
VERGÈS, Françoise. Derrubar uma estátua, haverá algo mais legítimo? Revista Punkto, n. 28, 2020. Disponível em: https://www.revistapunkto.com/2020/09/derrubar-uma-estatua-havera-algo-mais.html. Acesso em: 06 jul. 2025.
Mariana Maiara Soares Silva é doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal Fluminense (Bolsista CAPES) e fotógrafa
