*Fátima Tavares*
Procurada por um jornalista da “Agência Pública” para uma entrevista sobre a expansão evangélica em quilombos, fiquei especialmente impactada pela imagem que Dyepeson Martins me apresentou na troca de mensagens que mantivemos por zap: “Líderes evangélicos enterrando uma Bíblia a 30 metros de profundidade em um solo quilombola. Esse foi o ato simbólico que marcou o início das obras de um instituto neopentecostal em Cipó, no sertão baiano […]”. A imagem dá início ao texto da matéria intitulada “Filantropia e negacionismo: a aliança entre Brasil Paralelo e ONG bolsonarista na Bahia”, que trata do caso do Instituto Novas Histórias, ONG financiada por empresário bolsonarista, localizada em território quilombola daquele município baiano. Segundo a reportagem, esse Instituto oferece reforço escolar e atividades culturais à população local, aliado a práticas de conversão ao protestantismo, com orações e batismo (com disponibilização de “batistério” nas dependências do Instituto). Recentemente, por meio do Projeto “Conexão Sertão”, o Instituto se associou à produtora audiovisual Brasil Paralelo, disponibilizando o acesso aos seus materiais revisionistas como recurso paradidático.
Na conversa com Dyepeson mencionei que a iniciativa em Cipó não constitui uma novidade, fazendo parte de um movimento mais amplo, com diferentes estratégias de evangelização protestante e pentecostal em várias partes do país. Então, minhas observações aqui não buscam mensurar as ações de conversão, porque a evangelização em quilombos é um processo em curso que não depende exclusivamente de missões evangélicas, embora elas possam estar expansão.
O processo de evangelização em quilombos no Brasil apresenta características e desdobramentos diversificados. Em artigo com Carlos Caroso que apresenta um balanço bibliográfico sobre o tema, mencionamos uma iniciativa de missão num dos quilombos de Cachoeira (Bahia): uma denominação batista quilombola, com evangélicos estadunidenses que construíram a igreja na comunidade, sendo o resultado da missão diferente daquilo que os missionários imaginavam. Houve inicialmente um processo de conversão na comunidade, mas que também desencadeou um fortalecimento das tradições afrorreligiosas justamente como “reação” à essa investida no território. Por outro lado, processos observados em várias comunidades de Cachoeira se referem à evangelização “por dentro”, de pessoas quilombolas que fundam igrejas independentes ou congregações subordinadas à igreja matriz localizada em outras áreas do município, como as da Assembleia de Deus, Deus é Amor, Igreja Batista Missionária e Igreja Filadelfia Elohim, lideradas por pastores que não costumam residir nas comunidades. Assim, temos paisagens mais complexas do que imaginar que se trata exclusivamente de movimentos exógenos às comunidades, isto é, articulados por segmentos visando a evangelização e/ou “travestidos” de serviços educacionais, dentre outros. São processos que entrelaçam dimensões endógenas e exógenas nas paisagens do crescimento evangélico em comunidades quilombolas.
O que eu chamo de iniciativas “missionárias” são projetos deliberados de conversão, organizados em torno de denominações evangélica (ou grupo de denominações) ou ainda de missionários, atuando em um território quilombola específico e/ou em regiões mais amplas (num estado ou em vários). É difícil afirmar sem dados sistemáticos sobre esse processo, mas essa evangelização por missão (embora midiática) talvez não seja a mais impactante na transformação religiosa nos quilombos do país se comparado à outra forma de evangelização, mais orgânica, que se dá por dentro das comunidades, com a conversão de pessoas e famílias que fundam templos independentes ou extensões de denominações evangélicas.
Em levantamento realizado entre 2020 e 2021 em sítios na internet e nas redes sociais por Gisele de Deus Souza, então minha bolsista Pibic, identificamos dois tipos de organizações evangélicas que atuam em quilombos, que nomeamos de “missionárias” e de “mobilização”. Encontramos seis organizações missionárias, que noticiam as atividades realizadas nos quilombos: Igreja Metodista, com atividades no Rio de Janeiro e São Paulo desde 2010/2011; Assembleia de Deus do Maranhão, que atua desde 2016 neste estado; ACEV Brasil – Ação Evangélica Brasil, com foco na Paraíba desde 2014; Missão Juvepe, com atuação na Paraíba e Bahia, uma organização inicialmente voltada para a juventude, que depois se desdobra, ainda nos anos de 1980, no evangelismo em quilombos; Missão Quilombo, que atua no município de Codó (MA) desde 2011, a partir do trabalho da missionária Ivoneide Guilhom, também quilombola; Missão Livres, criada em 2006 pelo Pastor Juliano Son, com atividades no município de Paulistana, Piauí.
Além do evangelismo missionário, identificamos três organizações mobilizadoras, com sítios na internet que divulgam ações de terceiros. A primeira é a Aliança Evangélica Pró-Quilombolas do Brasil, que atua desde 2013, uma rede evangélica que reúne 37 igrejas e organizações cristãs. A segunda é a ANAJURE – Associação Nacional de Juristas Evangélicos, que também divulga ações evangelizadoras em quilombos. Por fim, a Paralelo 10, um projeto da Editora Ultimato que tem como meta fortalecer lideranças para realização de missões cristãs em quilombos.
Como se pode observar, considerando as informações disponibilizadas nos sites, blogs e páginas dessas organizações, também do ponto de vista do modelo de missão evangelizadora temos aí certa diversidade, além dos registros de atuação que indicam uma década ou mais da presença dessas organizações em comunidades quilombolas.
Por fim, igualmente diversos são os desdobramentos do crescimento evangélico nos quilombos, que se entrelaçam de formas variadas aos processos de etnicidade da cultura quilombola. As pesquisas apontam experiências de conversão evangélica conflitivas com as tradições locais, que podem se desdobrar em processos de demonização de símbolos da tradição afrorreligiosa, tanto nos contextos missionários como nas situações de conversão endógena. Mas também temos processos de ressignificação das tradições quilombolas por parte de quilombolas evangélicos, colocando desafios para uma abordagem não essencializada da cultura quilombola, que recusa armadilhas avaliativas focadas exclusivamente na ideia da “perda” cultural. Assim, comunidades que se evangelizaram há tempos e se autoidentificam como evangélicas (ou protestantes) – caso de Mel da Pedreira, no Amapá, ou de comunidades no norte fluminense -, vêm reelaborando suas referências de autenticidade identitária, mas não sem conflitos e denúncias de apagamento das tradições afrocatólicas.
Penso, então, que o caminho para nosso entendimento desse processo envolve cada vez mais pesquisas sobre a especificidade local em seus desdobramentos étnicos, mas sem desconsiderar as assimetrias aí implicadas. O que os evangélicos, quilombolas convertidos, estão a fazer com as tradições religiosas locais? Há diferenças na forma como as tradições afrocatólicas habitam o território quilombola, porque se constituíram num tempo de longa duração com o ambiente em suas materialidades, com viventes outros que humanos (espíritos, irradiações, entidades, orixás etc.). São modos de vida espraiados no lugar, muito densos de memória, que os quilombolas chamam de ancestralidade. Trata-se de tradições distintas da experiência evangélica, localizada nos sujeitos e em seus corpos, o que leva a outro entendimento do território.
Finalizando esse texto, gostaria de retomar o impacto da imagem da bíblia enterrada fundo no solo quilombola do município de Cipó, que visibiliza de forma condensada o racismo religioso envolvido nesse processo de evangelização, que passa dos corpos para o domínio de um território já povoado de formas de vida a serem extirpadas, e que os evangélicos renomeiam como “forças demoníacas”. Essa me parece ser uma novidade que pode redesenhar as “linhas do chão” do conflito.
