*Flávio Senra e Marcos Paulo Viegas*
Nas últimas décadas, um fenômeno do crescimento das pessoas que se declaram “sem religião” tem chamado a atenção das pesquisas em religião em todo o mundo. Esse grupo, frequentemente chamado de nones (do inglês none, nenhuma), não é novo, mas ganhou visibilidade e relevância nas transformações contemporâneas do campo religioso.
No Brasil, por exemplo, dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística indicam que cerca de 9,3% da população se identifica como sem religião. Esse número inclui ateus, agnósticos e pessoas que simplesmente não se vinculam a nenhuma instituição religiosa. No entanto, essa classificação esconde uma realidade muito mais complexa.
A pergunta central que mobiliza pesquisadores hoje não é apenas quantas pessoas são sem religião. Interessa saber o que significa, na prática, viver sem religião em sociedades profundamente marcadas por tradições religiosas? Em torno dessa questão tem se debruçado também o Grupo de Pesquisa Religião e Cultura, do Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião da PUC Minas. Entre pesquisas de mestrado e doutorado desenvolvidas pelo grupo, um recente projeto, finalizado neste início de ano, procurou por uma atualização do estado da arte no período compreendido entre 2020-2024.
Um grupo diverso, não um vazio religioso
Ao contrário do que se poderia imaginar no senso comum, as investigações têm demonstrado que as pessoas sem religião não formam um grupo homogêneo. As pesquisas mostram uma grande diversidade de trajetórias, crenças e práticas.
A distinção entre “nones” e “dones” foi uma contribuição importante das pesquisas destacadas neste projeto. Há quem nunca tenha tido vínculo religioso (nones), mas também aqueles que deixaram uma tradição, os chamados dones (em inglês). Comumente não utilizamos muito dessa diferenciação em estudos da região e do país. Essa diferença é fundamental porque os dones frequentemente mantêm traços de sua experiência religiosa anterior, o que alguns autores e nós mesmos já identificamos no passado como “resíduo religioso”. Isso pode influenciar práticas, valores e formas de ver o mundo, mesmo após a desfiliação.
Há indivíduos que se definem como ateus, outros como agnósticos, e muitos que preferem a expressão “espiritual, mas não religioso” (spiritual but not religious). A obra Spiritual But Not Religious (2001), de Robert C. Fuller, constitui uma das sistematizações acadêmicas do fenômeno contemporâneo das pessoas que se identificam como “espirituais, mas não religiosas” (SBNR como sigla em inglês), especialmente no contexto dos Estados Unidos. A contribuição de Fuller, em Spiritual But Not Religious (2001), desloca o debate da dicotomia “religião versus secularização” para uma perspectiva mais complexa, na qual a espiritualidade contemporânea é compreendida como parte constitutiva da experiência religiosa moderna.
A propósito, os estudos sobre espiritualidade mostram que a categoria se apresenta como um tipo de terceira via no debate entre religião e modernidade. Rodrigo Toniol, em Espiritualidad encarnada (2023), mostra que a espiritualidade não apenas se autonomiza das instituições religiosas, mas passa a operar como uma categoria transversal, capaz de circular entre diferentes esferas sociais produzindo efeitos concretos e sendo progressivamente legitimada como dimensão da vida humana. Considerando o contexto argentino, por exemplo, César Ceriani Cernadas, em Diversidad religiosa y pluralismo espiritual: notas para repensar las categorías y sus dinámicas de producción (2013), argumenta que o crescimento do “pluralismo espiritual”, no qual formas de crença e prática se tornam mais fluidas, híbridas e desvinculadas de pertencimentos institucionais rígidos, está longe de implicar o desaparecimento do religioso.
De toda forma, retomando a noção de “espiritual, mas não religioso”, trata-se de uma categoria nativa e difusa, que emergiu no uso social. A expressão vem sendo amplamente utilizada em diálogo com debates sobre a desinstitucionalização religiosa. Recordemos da expressão “crer sem pertencer”, cuja formulação clássica “believing without belonging” está associada à obra Religion in Britain since 1945: Believing without Belonging (1994), de Grace Davie. Nessa obra, a autora analisa o caso britânico e demonstra empiricamente que a diminuição da participação institucional nas igrejas não implica necessariamente o desaparecimento das crenças religiosas. Trata-se de um deslocamento do pertencimento para formas mais difusas e individualizadas de crença.
Essas ponderações revelam um ponto fundamental, ou seja, a não religião não é simplesmente ausência de religião. Trata-se, antes, de um campo plural, marcado por experiências, sentidos e práticas próprias.
Estudos qualitativos mostram que muitos desses indivíduos mantêm crenças, práticas espirituais ou formas de relação com o que se considera sagrado, ainda que desvinculadas de instituições. Isso desafia categorias clássicas dos estudos da religião, como “crença” e “pertencimento”, já discutidas por autoras como a mencionada Grace Davie e por Danièle Hervieu-Léger.
O “paradoxo secular” latino-americano
Como já problematizado por Talal Asad, em Formations of the Secular (2003), o secular e o religioso não são esferas totalmente separadas, mas frequentemente entrelaçadas.
Na América Latina, esse fenômeno assume características particulares. Pesquisadores identificam uma espécie de “paradoxo secular”: indivíduos que se declaram seculares, mas continuam mobilizando elementos religiosos em suas vidas. Na região, esse fenômeno assume características particulares. Pesquisas recentes apontam que indivíduos se autodeclaram seculares, mas continuam mobilizando repertórios religiosos em suas práticas e discursos, como analisam Carlos Nazario Mora Duro e Arturo Fitz Herbert no artigo “Atheist Thanks to God: Exploring the Secular Paradox among Latin American ‘Nones’” (2024). Os autores evidenciam a ambiguidade de sujeitos que se declaram seculares, mas mobilizam linguagens religiosas – “ateu graças a Deus”.
Esse quadro pode ser interpretado à luz do que Gustavo Morello, Catalina Romero, Hugo Rabbia e Néstor Da Costa denominam de “modernidade encantada”, conforme desenvolvido no artigo “An Enchanted Modernity: Making Sense of Latin America’s Religious Landscape” (2017). Nessa perspectiva, a América Latina não segue um modelo linear de secularização, mas apresenta uma configuração na qual diferentes formas de religiosidade persistem, se transformam e coexistem no cotidiano social.
Nesse contexto, a não afiliação religiosa não implica uma ruptura com o universo religioso, mas sua reconfiguração em formas mais fluidas, individualizadas e não institucionais, como evidenciam Néstor Da Costa, Gustavo Morello, Hugo H. Rabbia e Catalina Romero no artigo “Exploring the Nonaffiliated in South America” (2021), ao demonstrarem a presença de crentes sem pertencimento institucional e práticas espirituais desvinculadas de igrejas.
O que a produção acadêmica recente revela
Uma revisão recente de artigos publicados entre 2020 e 2024 em bases internacionais como Scopus, Web of Science e Redalyc, entre outras, realizada com apoio do Fundo de Incentivo à Pesquisa (FIP PUC Minas), identificou tendências importantes no estudo das pessoas sem religião.
Foram analisados 96 artigos, posteriormente reduzidos a 50 estudos empíricos. A partir desse conjunto, é possível identificar seis grandes áreas de investigação:
- Identidade e não afiliação (36%): a maior parte dos estudos busca entender quem são essas pessoas: suas trajetórias, formas de autoidentificação e modos de viver a não religião.
- Religião e contemporaneidade (25%): aqui se analisam transformações mais amplas, como secularização, pluralização religiosa e mudanças institucionais.
- Abordagens teórico-metodológicas (13%): esses trabalhos discutem como estudar a não religião — um campo ainda em consolidação.
- Cultura, identidades e juventude (10%): foco em experiências culturais e processos identitários, especialmente entre jovens.
- Território e geopolítica (9%): estudos comparativos entre países e regiões.
- Saúde e bem-estar (7%): análises das relações entre espiritualidade, saúde e experiências limite.
Esse mapeamento mostra que o campo está em expansão e cada vez mais diversificado, tanto em temas quanto em abordagens.
Onde se produz conhecimento sobre o tema?
A maior parte da produção acadêmica ainda se concentra na América do Norte e na Europa, que juntas respondem por quase 75% dos estudos.
A América Latina aparece com cerca de 11%, o que indica crescimento, mas também lacunas importantes. Esse é um dado relevante, porque trata-se de uma região historicamente marcada pelo catolicismo e pelo cristianismo, mas que vem passando por rápidas transformações religiosas.
Ao mesmo tempo, há regiões ainda pouco exploradas pela pesquisa acadêmica, como partes da África e da Ásia, onde a própria categoria “sem religião” pode não captar adequadamente as experiências locais. Mesmo levantamentos globais amplos, como o relatório Religious Diversity Around the World (2026), de Yunping Tong, publicado pelo Pew Research Center, indicam limites importantes na aplicação de categorias padronizadas para contextos culturais diversos, nos quais crença, prática e pertencimento assumem configurações distintas das observadas no Ocidente.
Entre ciências sociais e psicologia sobre a experiência cotidiana
Um aspecto marcante desse campo de estudos é sua natureza interdisciplinar. Pesquisas combinam contribuições da sociologia, antropologia, psicologia e estudos da religião.
Na psicologia, por exemplo, investigam-se: sentido de vida; bem-estar emocional; motivações para abandonar a religião; relações entre crença, personalidade e comportamento.
Já na antropologia, ganham destaque abordagens etnográficas que buscam compreender a experiência vivida da não religião no cotidiano.
Esses estudos mostram que a espiritualidade frequentemente aparece como um espaço intermediário nem totalmente religioso, nem totalmente secular. Ela funciona como uma linguagem comum para expressar experiências consideradas significativas ou sagradas.
Juventude, educação e mudança geracional
Entre jovens, o afastamento da religião institucional é particularmente expressivo. Pesquisas indicam que novas gerações tendem a valorizar: autonomia; autenticidade; experiências pessoais de sentido, revelando uma reconfiguração das formas de crença e pertencimento.
Ao mesmo tempo, estudos mostram que esse processo pode começar ainda na infância, o que sugere mudanças mais profundas nas formas de socialização religiosa.
Tensões, conflitos e preconceitos
Um ponto menos evidente, mas importante, é que pessoas sem religião também enfrentam estigmas e incompreensões.
Além disso, pesquisas indicam que a não religião não está automaticamente associada à tolerância. Há evidências de preconceitos tanto de religiosos em relação a não religiosos quanto no sentido inverso.
Esses dados desafiam a ideia de que o afastamento da religião levaria, por si só, a uma maior abertura ou tolerância.
Para além da ausência: a não religião como experiência vivida
Uma das conclusões mais importantes das pesquisas recentes é a necessidade de compreender a não religião a partir da experiência cotidiana, o que tem sido chamado de lived nonreligion. Inspirada na noção de religião vivida, essa abordagem propõe olhar para: práticas ordinárias; narrativas pessoais; formas concretas de atribuir sentido à vida. Nesse sentido, a não religião deixa de ser vista como ausência e passa a ser entendida como uma forma específica de viver e interpretar o mundo.
O crescimento das pessoas sem religião não representa simplesmente um declínio do religioso. Ele aponta, antes, para uma profunda reconfiguração das formas de crença, pertencimento e experiência do sagrado. Nosso estudo de revisão bibliográfica mostra que a não religião é diversa e heterogênea; que envolve tanto ruptura quanto continuidade com tradições religiosas; que se articula com processos sociais mais amplos, como individualização e pluralização; que desafia categorias clássicas das ciências da religião.
Compreender esse fenômeno exige, portanto, não apenas novos dados, mas também novas ferramentas teóricas e metodológicas, capazes de captar a complexidade das experiências contemporâneas de crença e não crença.
Marcos Paulo Viegas é graduando em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais
Apoio: FIP PUC Minas
