*Julia Oliveira*
Na última semana, gaúchos saíram em denúncia nas redes sociais após ser notada a inserção de um telão digital em cima do assentamento de Bará no Mercado Público de Porto Alegre. Em publicação no instagram, a página Deriva Jornalismo (@derivajornalismo) escreve na legenda: “Enquanto a Portela homenageia o Bará do Mercado na Sapucaí, a gestão do Mercado coloca esses telões de propaganda bem em cima do Bará, descaracterizando tudo. Haja resistência para evitar o apagamento!”
Fotografia 1: Telão de propaganda em cima do assentamento de Bará no Mercado Público de Porto Alegre

Fonte: Deriva Jornalismo (2026)
O Bará do Mercado trata-se de um assentamento do orixá Esú Bará que há gerações está plantado na encruzilhada central do mercado municipal. Bará é o orixá cultuado nas religiões de matriz africana como o orixá dos caminhos, aquele que permite a passagem, as trocas e os movimentos, que rege as encruzilhadas da vida. Todo xirê começa com e por ele, pedindo licença e o saudando para que permita a passagem dos demais orixás para o batuque começar. O mercado, por ser esse local de amplas e intensas trocas e passagens, é considerado como um lugar regido por Bará, o senhor do comércio. O assentamento, na tradição do Batuque, assim como em demais doutrinas de matriz africana, é a materialização do axé, da energia vital, daquele orixá, sendo realizado a partir de um ritual com elementos da terra que variam de acordo com a energia que ali está sendo assentada.
Toda casa de santo, por exemplo, tem no centro de seu salão a cumeeira, que é a materialização do axé plantado na casa, ligando o ayê (a terra), onde a energia está plantada, com o ponto mais alto da casa (o mais perto do orun, o céu), sendo a base de conexão da comunidade espiritual na terra com o sagrado. O assentamento de Bará no mercado, portanto, representa essa conexão entre o mercado, suas trocas, passagens e movimentos, com a divinidade Bará, que ali tem sua energia plantada. Considerado patrimônio histórico-cultural desde 2013 pelo Conselho Municipal do Patrimônio Histórico-Cultural (COMPAHC), o assentamento de Bará tem ganhado maior destaque nos últimos anos, dada as celebrações organizadas pela Associação Independente em Defesa das Religiões Afro-Brasileiras (ASIDRAB), como aponta Emerson Giumbelli (2025). A origem do assentamento, porém, envolve certo mistério. Alguns dizem que foi plantado por escravizados na época da construção do mercado; outros, apontam para o assentamento como obra de Princípe Custódio.
Fotografia 2: Alguidar com oferendas em dinheiro sobre o assentamento de Bará do Mercado durante celebração no dia 13 de julho de 2025, dia que se celebra Bará.

Fonte: Instagram do Mercado Municipal @mercadopúblico_poa (2025)
De acordo com o Censo de 2022 do IBGE, o Rio Grande do Sul é o estado brasileiro com maior proporção de população adepta a religiões de matriz africana. Dentre as várias tradições existentes, como o Tambor de Mina e o Candomblé, a que se destaca no estado é o Batuque. Para quem é de fora, esses dados não são óbvios e podem causar certo espanto, visto que os dados do Censo de 2022 também apontam para o estado como o maior em proporção de população autodeclarada branca. Mas para o povo gaúcho, as raízes do Batuque são bem conhecidas e têm como figura central o Príncipe Custódio.
Foi diante de um encontro promovido pelo Governo do Rio Grande do Sul entre historiadores locais e a Escola de Samba Portela, do Rio de Janeiro, que o nome de Princípe Custódio apareceu. O livro-abre alas, assinado pelo carnavalesco André Rodrigues, descreve o encontro com uma emoção de brilhar os olhos e bater forte o coração, tendo a conviccção de que ali haveria uma grande história a ser contada.
A proposta da agremiação foi a de desenvolver um enredo que contasse de forma cíclica o mito de Custódio Joaquim de Almeida, o Príncipe Custódio, e seu legado como uma figura que simboliza a libertação para as populações afro-gaúchas. O conto, transmitido pela tradição da oralidade, narra o encontro de Príncipe Custódio com Bará, que lhe entrega as chaves que abriram os caminhos para a fundação do Batuque no Rio Grande do Sul. No imaginário popular, Custódio era o homem negro e livre que mantinha o status de Príncipe vindo da África, que com suas macumbas curou, salvou e organizou a população afro-gaúcha em torno do Batuque, assim como fez a elite burguesa gaúcha se dobrar ao seu gongá, sendo um grande orientador político e conselheiro espiritual.
O enredo desenvolvido pela agremiação ousa ainda ao incorporar na narrativa o mito folclórico do Negrinho do Pastoreio. Dentre as várias versões que são popularmente contadas, a lenda gaúcha de origem no século XIX, durante o período da escravidão, narra a servidão de um menino escravizado que é morto após ter perdido um dos cavalos do senhor no pasto. Logo no início do desfile, o carro abre-alas busca reinterpretar o mito folclórico à luz da história de Custódio. A alegoria vem composta de luzes azuis (cor da escola) escuras e soltando fumaça, trazendo um ar de mistério. A “desconhecida e profunda escuridão”, expressada na alegoria reflete, de acordo com o livro abre-alas, a nossa ignorância sobre a história afro-gaúcha. Surgem figuras de referência africana e o Negrinho, sob pedido de Bará, vai se transformando e fazendo a libertação da africanidade, como uma forma de ressignificar o conto do Negrinho diante da influência do Príncipe Custódio e revelar um Rio Grande do Sul negro.
É a continuidade serviçal de uma figura infantil que poderia ser motivo de encantamento e representatividade, simbolizando a inocência e juventude negra. No enredo da Portela, propositalmente acontece o pedido de buscar no desconhecido uma coroa. Este desconhecido é a nossa ignorância sobre a construção afro-gaúcha, enquanto a escuridão e a neblina são o racismo que as esconde. Por ser tão perspicaz em encontrá-las, o Negrinho traz essa coroa que, mal sabe, no final da história será dele mesmo, o Príncipe Herdeiro. (LIESA, 2026).
É um desafio, segundo o carnavalesco, à construção da memória popular não só gaúcha, mas sobretudo à forma imaginada sobre o Rio Grande do Sul. Respeitado, Custódio é reconhecido como a figura responsável por plantar o axé de Bará no Mercado Público de Porto Alegre, assim como teria plantado em demais lugares, como no Palácio do Governo. Ainda hoje, é uma figura que permeia o imaginário social como um símbolo de força, resistência e libertação. O enredo desenvolvido pela Portela, nesse sentido, joga luz sobre essa narrativa ao disseminar a importância dessa, assim como tantas outras histórias apagadas na construção do imaginário social brasileiro, na ressignificação da memória. O manifesto que a escola de samba apresenta, é que o conhecimento e a valorização dessas personagens educa e liberta, tendo o potencial de “livrar novos negrinhos da servidão, um futuro onde eles vão ser coroados” (LIESA, 2026).
Se essa história se iniciou em um desconhecido Rio Grande do Sul, em uma escuridão de ignorância, terminamos nosso desfile abrindo o céu, mostrando que a negritude gaúcha, capitaneada pelo simbolismo de Custódio, será conhecida por todo o país através do poder da narrativa da escola de samba. Bará mostra ao Negrinho que a coroa de Custódio renascerá em sua cabeça e o libertará como o herdeiro do Príncipe do Bará, uma coroa feita de chaves que abrirão diversos outros caminhos, onde o conhecimento de nossas histórias são as asas que precisamos para voar tão alto, ao lado das águias. (LIESA, 2026).
Fotografia 3: Carro abre-alas da Portela: “Vai fazer libertação”

Fonte: Marco Terranova / Riotur (2026)
Fotografia 4: 5º carro da Portela: “Sob o céu do Rio Grande: o Príncipe Herdeiro”

Fonte: Alexandre Macieira / Riotur (2026)
Na contramão da homenagem e do reconhecimento da importância e necessidade de valorizar Bará do Mercado, a inserção do telão em cima do assentamento foi denunciada por alguns devotos como uma descaracterização não só do assentamento como do Mercado Público em si. Dentre os comentários, há aqueles que apontam como um absoluto desrespeito com a fé e com o próprio orixá Bará, identificando como um ato de violência e intolerância religiosa; outros acreditam que quem permitiu a ação já se “auto amaldiçoou”, não tendo chances de uma possível reeleição; também, comentários que desviam o foco da religião, dizendo que “não havia pensado na questão do sagrado”, mas apontam para uma descaracterização pelo conflito da arquitetura antiga do local com o telão tecnológico. Há ainda, quem faça uma crítica mais ampla ao volume de propagandas no espaço público, traçando até mesmo analogias à série Black Mirror, ou aqueles que se questionam se o telão dará retorno financeiro, dizendo que a relevância da marca é maior que qualquer coisa no Mercado.
Fica claro que o assentamento de Bará transcende o limite do seu valor religioso e sagrado, uma vez que compõe a paisagem do Mercado Público há gerações, sendo reconhecido por seu valor histórico, cultural e artístico. Porém, não há dúvidas de que uma ação como a da inserção do telão atravessa diretamente o que é sagrado. Se o assentamento de Bará se constitui como a cumeeira do Mercado Municipal, como sustentei anteriormente, por se tratar da força vital do orixá plantada na encruzilhada central do mercado, o telão acima do assentamento interrompe o fluxo de energia entre o ayê (a terra) e o orun (o céu). Se constitui, assim, como um rompimento material que descaracteriza o sagrado assentado no local.
De todo modo, a observação etnográfica torna o caso interessante para perceber como os valores sagrado, histórico, artístico e financeiro podem entrar em conflito diante de manifestações no espaço público. Ainda, como um mesmo local, objeto, ou monumento, pode ser concebido, interpretado e reinterpretado de diversas formas dependendo dos sentidos que os agentes ali atribuem. Traçar o paralelo entre a gestão do Mercado Público e o carnaval da Portela nos permite dizer que, diante da indignação dos gaúchos com a inserção do telão em cima do assentamento do Bará, a Portela responde: Enquanto houver um pastoreio a chama não apagará / Não há demanda que o povo preto não possa enfrentar
Referências
GIUMBELLI, Emerson. Exus como monumento. Religião em debate, 2025. Disponível em: https://religiaoemdebate.com.br/2025/10/19/exus-como-monumento/. Acesso em: 08 mar. 2026.
LIGA INDEPENDENTE DAS ESCOLAS DE SAMBA DO RIO DE JANEIRO (LIESA). Abre-Alas: domingo, carnaval 2026. Rio de Janeiro: LIESA, 2026. Disponível em: https://liesa.org.br/downloads/carnaval/domingo2026.pdf. Acesso em: 08 mar. 2026.
