A desfiliação política de Deus e do Diabo no Brasil

*Péricles Andrade*

O Deputado Federal Otoni de Paula (MDB-RJ), religioso-político (Campos, 2006) vinculado à Igreja Assembleia de Deus Ministério Missão de Vida (denominação focada em evangelismo, discipulado e resgate social), é conhecido publicamente por sua atuação conservadora na Câmara dos Deputados, onde exerceu o cargo de vice-líder do Governo Bolsonaro. Nos últimos anos, contudo, o parlamentar passou a ganhar visibilidade também por seus posicionamentos críticos em relação à vinculação automática entre o campo evangélico e o bolsonarismo, bem como pelos “afagos” dirigidos ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, como ocorreu por ocasião da sanção do Dia Nacional da Música Gospel (Disponível em: https://veja.abril.com.br/brasil/lula-recebe-bencao-do-pastor-e-deputado-otoni-de-paula-ex-bolsonarista-no-planalto/. Acesso em: 29 dez. 2025). *

Nesse contexto, Otoni de Paula concedeu entrevista ao programa Estúdio I, da GloboNews, em 26 de dezembro de 2025, na qual afirmou estar em uma “cruzada de reposicionamento da igreja”. Segundo o parlamentar, “nós fomos sequestrados de 2018 para cá. Quem não vota no presidente Bolsonaro passou a ser considerado alguém que está fora da igreja”. Em sua avaliação, essa lógica teria produzido uma associação indevida entre fé e posicionamento político, levando à ideia de que “Jesus salva, mas Bolsonaro é quem valida”. Ainda na mesma entrevista, o deputado afirmou discordar da concepção segundo a qual “Deus está na direita e o diabo está na esquerda”, defendendo que a igreja deve ser “abrigo das ovelhas, independentemente de serem de esquerda ou de direita, votarem em Bolsonaro ou em Lula” (Disponível em: https://g1.globo.com/globonews/estudio-i/. Acesso em: 28 dez. 2025). 

Nessa perspectiva, o parlamentar enfatizou a necessidade de distinguir o papel da instituição religiosa da atuação político-partidária. Segundo suas próprias palavras, trata-se de “separar o que é igreja, enquanto instituição que pertence a Jesus, e o que somos nós, seres humanos”. Ele acrescentou que não estaria “lutando para tirar Bolsonaro dos púlpitos e colocar Lula”, mas para “deixar apenas Jesus” como referência central da vida religiosa (Disponível em: https://g1.globo.com/globonews/estudio-i/. Acesso em: 28 dez. 2025). 

Na mesma entrevista, Otoni de Paula destacou sua atuação política junto ao Governo Federal, mencionando sua presença no Palácio do Planalto e a defesa de pautas que considera relevantes para a comunidade evangélica. Entre elas, citou o reconhecimento do Dia Nacional da Música Gospel, o Dia do Pastor e da Pastora e o reconhecimento da Marcha para Jesus como manifestação cultural, interpretando essas iniciativas como sinais de aproximação entre os governos do Presidente Lula e os setores evangélicos. 

Esse conjunto de declarações evidencia como o parlamentar constrói discursivamente sua atuação a partir de uma tentativa de dissociar a identidade religiosa da filiação partidária, ao mesmo tempo em que reafirma valores morais considerados centrais à sua compreensão de fé. A tensão entre neutralidade religiosa e engajamento político atravessa todo o discurso, revelando as ambiguidades e as contradições inerentes à atuação de lideranças religiosas na esfera pública brasileira contemporânea.

“Eu atribuo isso ao progressismo que está identificado com a esquerda. A esquerda ela, assim como a direita, ela é fragmentada. Você não tem em toda a esquerda a aliança a essa pauta progressista. Aliás, essa esquerda sindicalista, de onde veio o presidente Lula, ela é tudo. Ela é menos progressista. Lula está mais para um camarada conservador, do que para um cara progressista, tanto que ele agora vetou o uso de linguagem neutra, tanto na esfera da união, quanto estado e também nos municípios (…). Então, na verdade, por conta dessa proximidade que a esquerda tem com o progressismo, faz com que haja essa postura conservadora da igreja em não hipotecar apoio, muitas vezes ou majoritariamente ao PT, ou à esquerda ou ao próprio Presidente Lula (…). Já que as pautas morais, já que as pautas de costumes, são pautas muito importantes para nós” (Disponível: https://g1.globo.com/globonews/estudio-i/ . Acesso 28 dez. 2025). 

A leitura do discurso de Otoni de Paula evidencia um processo mais amplo de moralização da política, no qual divergências programáticas são convertidas em disputas morais. Ao associar pautas ligadas à sexualidade, ao gênero e aos direitos reprodutivos a uma suposta “ameaça” à ordem social, o parlamentar desloca o debate do campo propriamente político para o ético, transformando certos valores morais em critérios de legitimação pública. Nesse movimento, a religião deixa de operar apenas como referência simbólica e passa a funcionar como instância reguladora da vida social, estabelecendo fronteiras entre o aceitável e o inaceitável, o legítimo e o desviante. Tal dinâmica, amplamente analisada pela literatura especializada (Machado, 2012; Burity, 2020; Mariano; Gerardi, 2019), revela como a moralidade se converte em instrumento de poder, estruturando práticas políticas e redefinindo os contornos da esfera pública.

Esse processo insere-se em um contexto mais amplo, no qual temas relacionados à moralidade, à sexualidade e à família passaram a ocupar posição central na agenda pública brasileira, especialmente a partir das transformações impulsionadas por movimentos feministas e LGBTQIA+. A institucionalização dessas pautas em políticas públicas de saúde, educação e direitos humanos provocou reações organizadas de setores religiosos conservadores, que passaram a mobilizar discursos em defesa da “ordem” e dos “valores tradicionais”. Nesse cenário, a moralidade converte-se em eixo de mobilização política, operando como linguagem privilegiada de oposição às transformações sociais contemporâneas.

Otoni de Paula expressa, assim, um enquadramento discursivo no qual a política é reinterpretada à luz de categorias morais, e no qual o progressismo é apresentado como ameaça à estabilidade social. Ao associar determinadas agendas a um suposto desvio moral, o discurso legitima formas de exclusão simbólica e reforça a centralidade da moralidade como critério de pertencimento e de reconhecimento público. Desse modo, a articulação entre religião, política e moralidade não apenas estrutura a atuação do parlamentar, mas também evidencia como o debate público contemporâneo tem sido atravessado por disputas em torno da definição do que é socialmente aceitável, legítimo e digno de reconhecimento.

Ao associar o chamado “progressismo” a uma “ameaça” moral e ao classificar o presidente Lula como um político “menos progressista”, o deputado Otoni desloca o debate do campo programático para o plano ético-moral, convertendo divergências políticas em juízos de valor. Tal operação discursiva constrói uma oposição simbólica entre valores considerados legítimos — vinculados à família, à sexualidade normativa e à moral cristã — e aqueles associados às pautas de gênero, diversidade e direitos sexuais, interpretados como expressões de desvio moral. Desse modo, o discurso não apenas critica determinadas políticas públicas, mas redefine os critérios de legitimidade na esfera pública, submetendo-os a uma lógica moralizante.

Ao reivindicar uma postura de neutralidade institucional — expressa na recusa em “hipotecar apoio” a partidos — o parlamentar não se afasta da arena política, mas reafirma uma forma específica de intervenção nela. Trata-se de uma neutralidade performativa, que encobre escolhas normativas e produz hierarquizações morais no espaço público. A defesa de uma moral supostamente universal opera, assim, como instrumento de regulação social, delimitando o que pode ser reconhecido como legítimo no debate democrático. Nesse sentido, a articulação entre religião, moral e política emerge como eixo estruturante da atuação pública do deputado, evidenciando a centralidade da moralidade na conformação das disputas contemporâneas.

Esse enquadramento torna-se ainda mais evidente quando o próprio parlamentar se define como defensor da vida, da família, dos valores cristãos, da segurança e da ordem social, afirmando atuar “pela construção de um Brasil melhor” (Disponível em: https://www.camara.leg.br/deputados/204441. Acesso em: 29 dez. 2025). Tal autodefinição revela como a moral religiosa opera como critério de legitimação política, funcionando simultaneamente como fundamento identitário e como parâmetro de julgamento das agendas públicas.

A recorrente referência ao suposto “sequestro” das igrejas evangélicas reforça essa lógica, ao indicar uma disputa pelo controle simbólico do campo religioso. Ao mobilizar essa narrativa, o deputado reconhece implicitamente a crescente inserção das instituições religiosas nas dinâmicas políticas nacionais, especialmente a partir do fortalecimento das alianças entre lideranças religiosas e atores partidários desde a década de 2010. Esse processo, amplamente analisado pela literatura (Mariano, 2011; Machado, 2012), evidencia como a religião se consolida como recurso estratégico na arena política, operando simultaneamente como fonte de legitimidade moral, capital simbólico (Bourdieu, 1998) e instrumento de mobilização coletiva.

Dessa forma, a atuação de Otoni de Paula evidencia a consolidação de um padrão no qual religião e política se entrelaçam de modo estrutural, produzindo uma arena pública fortemente marcada por referências morais. A mobilização de valores religiosos como critério de legitimação política não apenas redefine os contornos do debate público, como também reafirma a centralidade da religião enquanto agente ativo na conformação das disputas políticas contemporâneas. Nesse contexto, a noção de neutralidade religiosa revela-se frágil, uma vez que a atuação política fundamentada em princípios religiosos contribui diretamente para a redefinição das fronteiras entre o campo religioso e o campo político no Brasil.

A atuação de Otoni de Paula insere-se, assim, em um processo mais amplo de reconfiguração das relações entre religião, política e esfera pública. Sua postura evidencia a crescente porosidade entre esses campos, revelando como determinados segmentos religiosos têm se afirmado como atores centrais da disputa política, não apenas por meio da representação institucional, mas também pela capacidade de mobilizar valores, afetos e pertencimentos morais. Trata-se de um engajamento que ultrapassa a esfera da fé privada e se projeta como força organizadora do debate público, articulando identidade, moralidade e poder.

A recorrente referência ao suposto “sequestro” das igrejas evangélicas expressa, nesse sentido, menos uma crítica à instrumentalização da religião do que uma disputa pelo controle legítimo desse processo. Ao reconhecer que lideranças religiosas passaram a ocupar posição estratégica no campo político — seja pelo apoio explícito a candidaturas, seja pela mobilização direta de fiéis — o discurso evidencia a consolidação de um modelo no qual as instituições religiosas operam como vetores de capital simbólico e político (Bourdieu, 1998). Conforme apontam Prandi e Santos (2019), as igrejas passam a funcionar como verdadeiras máquinas eleitorais, capazes de articular redes de sociabilidade, recursos simbólicos e estruturas organizacionais em favor de projetos políticos específicos.

Esse movimento se intensifica a partir das eleições presidenciais de 2010, quando a presença de lideranças religiosas no espaço público se torna mais sistemática e visível. A articulação entre religião e política ganha novo fôlego no contexto da polarização que marca a década seguinte, sobretudo com a consolidação de uma direita religiosa que associa moralidade, conservadorismo e identidade nacional. Nesse processo, o discurso religioso deixa de ocupar uma posição periférica e passa a operar como elemento estruturante da arena política, influenciando agendas, candidaturas e alianças partidárias (Mariano, 2011; Burity, 2020).

Assim, a atuação de Otoni de Paula ilustra como a religião se converte em recurso estratégico na disputa pelo poder. Ao reivindicar uma posição moralmente superior e denunciar supostas ameaças à ordem social — frequentemente associadas às pautas de gênero, diversidade e direitos humanos — o discurso religioso legitima uma determinada visão de mundo e delimita os contornos do aceitável no espaço público. A centralidade atribuída à moralidade pública revela, portanto, um processo no qual as disputas políticas passam a ser mediadas por critérios morais, redefinindo os limites entre o público e o privado, entre fé e política, e recolocando no centro do debate as tensões entre democracia, pluralismo e poder simbólico no Brasil contemporâneo.

*Agradeço imensamente as críticas e sugestões da Profa. Dra. Marina Correa
(Lattes.cnpq.br/5321433947150449).

REFERÊNCIAS 

BOURDIEU, Pierre. A Economia das Trocas Simbólicas. 5. ed., São Paulo: Perspectiva, 1998. 

BURITY, Joanildo. Itinerário histórico-político dos evangélicos no Brasil. In: CARRANZA, Brenda; GUADALUPE, José Luís Pérez. Novo ativismo político no Brasil: os evangélicos do século XXI. Rio de Janeiro: Konrad Adenauer Stiftung, 2020, p. 195-216. 

CARRANZA, Brenda. Evangélicos: o novo ator político. In: CARRANZA, Brenda; GUADALUPE, José Luís Pérez. Novo ativismo político no Brasil: os evangélicos do século XXI. Rio de Janeiro: Konrad Adenauer Stiftung, 2020, p. 171-192. 

MACHADO, Maria das Dores Campos. A vertente evangélica do neoconservadorismo brasileiro. In: CARRANZA, Brenda; GUADALUPE, José Luís Pérez (orgs.). Novo ativismo político no Brasil: os evangélicos do século XXI. Rio de Janeiro: Konrad Adenauer Stiftung, 2020, p. 271-286. 

MACHADO, Maria das Dores Campos. Religião, cultura e política. Religião e Sociedade, Rio de Janeiro, 32(2), 2012, p. 29-56. 

MARIANO Ricardo; GERARDI, Dirceu André. América Latina em 2018 e ativismo político de evangélicos conservadores. Revista USP, São Paulo, n. 120, p. 61-76, janeiro/fevereiro/março 2019. 

PRANDI, Reginaldo; SANTOS, Renan William dos; BONATO, Massímo. Igrejas evangélicas como máquinas eleitorais no Brasil. Revista USP, São Paulo, n. 120, p. 43-60, janeiro/fevereiro/março 2019.

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