*Adriano Godoy* Grande parte da minha vida é assombrada pela Revolução Constitucionalista de 1932. Apesar de ser paulista, estou longe de nutrir sentimentos pela bandeira estadual ou de celebrar os motivos de nosso feriado julino. Ainda assim, nasci e cresci no Vale do Paraíba, perto das antigas trincheiras erguidas nas fronteiras com Minas Gerais e com o Rio de Janeiro. No ensino básico visitávamos o único museu de Cachoeira Paulista, formado pelo acervo de capacetes, armas, uniformes, cartazes e projéteis recolhidos pela cidade desde os anos 1930. Lá também víamos as fotografias da ponte sobre o rio Paraíba, único caminho para minha casa, implodida por um soldado local para impedir a invasão dos cariocas. O soldado cachoeirense ganhou um monumento na praça central, logo em frente à igreja de São Sebastião, que tem na entrada a estátua do soldado romano. Escrevo porque, onde cresci, o ano de 1932 segue presente e vivo, material e espacialmente. O que me interessa aqui é uma pergunta simples: o que acontece quando a guerra produz mortos que continuam circulando? E o que a religião tem a ver com isso? Em tempos bélicos, este texto é um convite a pensar a relação entre religião, guerra e memória.
Cena 01 – Anos 1990
Feriado de finados, entrada do cemitério de Cachoeira Paulista. Os visitantes se concentram em três túmulos lado a lado, cobertos de pedras. Fazem um pedido em silêncio, viram uma das pedras e seguem. Dizem que ali estão enterrados três soldados anônimos de 1932 que, desde então, atendem os pedidos dos transeuntes. Eu nunca rolei as pedras porque em casa isso era “superstição”. Mas, curiosamente, outro morto de 1932 era assunto constante em casa: o Ferrulhão.
Minha avó Sebastiana, hoje com 100 anos, tem esse nome porque nasceu no dia do santo soldado romano. E ela é testemunha lúcida daquela revolução com cara de guerra civil. Ainda criança, ela fugiu com os pais e irmãos depois que a casa da família, na zona rural de Silveiras, foi invadida por soldados de Getúlio Vargas. As regras eram simples e rígidas: à noite, nada de velas; durante o dia, esconder-se quando o avião passava; no caminho, não se identificar a estranhos enquanto paulistas. Com o fim da guerra, voltaram e encontraram casa e sítio destruídos. No pomar, havia um túmulo improvisado, com uma garrafa fincada e um papel dentro trazendo o nome do falecido. Era um soldado gaúcho, tal qual o presidente.
Meu bisavô ergueu uma cruz e a família passou a rezar o terço todos os dias pela alma dele, um soldado inimigo. A interação, porém, não se dava só por oração. Uma vizinha contou que o soldado a visitava todas as noites para longas conversas. E estaria contrariado porque houve uma confusão: o nome na garrafa não era o dele. Estavam rezando para a alma errada. Ele se chamava Ferrulhão. Um tio da minha avó riu. Disse que, se o soldado estava chateado, fosse falar com ele, em vez de mandar recados. Naquela mesma noite, voltando para casa depois do terço, o cavalo empinou e disparou, derrubando-o na lama. Ele voltou a pé, enlameado, mas com a certeza de ter ouvido uma voz desconhecida no cangote: “meu nome é Ferrulhão”.
Cena 02 – Anos 2010
No fim da graduação em Ciências Sociais na UNICAMP, li Fantasmas Falados, de Oscar Calavia-Sáez, e me atraí pelas etnografias cemiteriais. Num fim de semana, fui ao Cemitério da Saudade, em Campinas, onde o antropólogo realizou sua pesquisa. Eu tinha curiosidade de visitar túmulos famosos da cidade abordados no livro, mas, ainda na entrada, a primeira coisa que vi foi o Monumento aos Voluntários de 1932. O tamanho era proporcional ao descaso: um ar simultâneo de solenidade e desamparo. Suas dezesseis colunas pretendem eternizar a memória dos dezesseis campineiros mortos nos bombardeios; hoje, essa memória também circula em acervos digitais, como da UNICAMP.

Naquele mesmo ano, o primeiro do meu mestrado, lendo sobre a história da devoção à Nossa Senhora Aparecida, tropecei numa informação pouco lembrada: a padroeira nacional tomou o lado dos paulistas em 1932. O chamado “Batalhão da Padroeira do Brasil” teve como quartel general o seminário diocesano e a participação direta de padres e missionários Redentoristas, incluindo a administração de um hospital militar. Como constam nos arquivos católicos, os soldados costumavam beijar a imagem original de Aparecida após retornarem dos combates. O que postergou, mas não coibiu, o envio da santa para a residência do arcebispo na capital visando sua proteção dos bombardeios: uma das raras vezes que Aparecida deixou a sua basílica. No museu do Santuário, ainda hoje, podem-se encontrar capacetes constitucionalistas dos padres.
Cena 03 – Anos 2020
Eu me mudei para a cidade de São Paulo em 2021, ainda nas últimas ondas da pandemia de Covid-19. Na quarentena, um dos meus lugares prediletos eram os cemitérios: abertos, ventilados, sem aglomeração de pessoas vivas. No fim da minha rua está o Cemitério São Paulo e passei a atravessá-lo a pé para cortar caminhos e fugir de buzinas e fumaça. Nesses trajetos bucólicos, percebi que outros Ferrulhões seguem rondando meu passatempo mórbido.

Logo na entrada principal do cemitério é difícil não notar o imponente túmulo do General Júlio Marcondes Salgado. Ele está em cima de um cavalo, portando uma espada que aponta para a LEX, cercado de soldados com os seus inconfundíveis capacetes constitucionalistas. Ao fundo, um prédio que eu diria ser o Edifício Martinelli, ícone da modernidade paulistana. À frente, uma mulher com os seios de fora, a famosa alegoria da liberdade. Parte do túmulo foi saqueado, como tantos outros no cemitério, mas ainda se reconhece o brasão do estado no contorno do mármore. Outra mulher, essa toda coberta, oferta uma coroa de flores.

Ao lado dele, mais modesto, está o túmulo do Major José Marcelino da Fonseca. O busto não deixa dúvida de que era um homem negro, morto na mesma revolução.

Logo atrás desses dois túmulos, uma mão segurando uma tocha chama a atenção. O nome de Clineu Braga de Magalhães está cravado no mármore ao lado dos dizeres “Cumprindo seu dever, tombou por São Paulo: amparae-o Senhor!”. O ano da morte é 1932.

Enfim, ao lado desse túmulo, tem destaque mais uma vez o famigerado capacete constitucionalista, dessa vez sobre um ramo de café e a bandeira paulista. Aponta para ele um homem barbado e fardado, que me lembra um bandeirante. O túmulo é de Lauro Barros Penteado e, para quem ainda não conseguiu entender a iconografia, foi cravada na base do túmulo uma data-legenda: 09 de julho de 1932.

É possível encontrar na internet alguns fóruns e sites de entusiastas da revolução constitucionalista, com uma quantidade considerável de materiais que explicam esses túmulos e ainda colocam muitos outros na conta, buscando manter viva essa memória que consideram importante. Foi só através dessas leituras, para escrever esse texto, que me dei conta que o famoso obelisco de 72 metros de altura do parque Ibirapuera tem como nome oficial: “Mausoléu aos Heróis de 32”. Isso porque no seu interior estão enterrados 717 soldados mortos no combate. Quando descobri isso, pausei esse texto, e só continuei a escrever depois de conseguir ir até lá visitar. A ideia era criar aqui mais uma cena, mas o que vi merece uma futura coluna exclusiva.
Religião, Guerra e Memória
Afinal, o que essas cenas que descrevi têm a ver com religião? Uma resposta rápida seria: têm a ver com cemitérios, terços, promessas e santos militares. Mas eu acho que a questão é ainda mais ampla. As cenas mostram que religião não é só aquilo que acontece dentro da igreja, nem só aquilo que autoridades religiosas reconhecem como legítimo. Religião, aqui, aparece como um modo de produzir presença, de lidar com aquilo que nos excede (a morte, a violência, o medo, a perda) e de sustentar um senso de pertencimento quando o mundo desmorona.
Na primeira cena, o gesto de virar a pedra sugere uma coisa importante: há mortos que não ficam quietos nem descansam. Eles se tornam interlocutores. O cemitério funciona como um lugar de negociação entre as guerras do passado e do presente. O caso do Ferrulhão radicaliza isso. A guerra chega no sítio como destruição, mas constrói uma obrigação diária: um terço por uma alma no pomar. Mesmo que em vida fosse inimigo. O detalhe decisivo é a correção do nome porque o soldado não pede só oração: pede reconhecimento. Pede que sua identidade seja renomeada. Como se a sua paz e dos demais dependessem disso. Há um tema clássico da antropologia que ajuda a enxergar o que está em jogo: a ideia de que os mortos exigem trabalho. Eles exigem cuidados, palavras, ritos, objetos. Quando esse trabalho falha, como quando o nome está errado ou o túmulo abandonado, algo ainda insiste. Assombra. Não no sentido espiritual, mas no sentido social: a morte continua produzindo efeitos e convocando respostas. E as religiões oferecem algumas.
Na segunda cena, o que me recebe no cemitério campineiro é o Monumento aos Voluntários de 1932: imponente e, ao mesmo tempo, desamparado. Essa combinação entre solenidade e descaso que ressalto é uma chave do meu argumento. Monumentos são feitos para durar, mas a sua durabilidade depende de manutenção, de interação, de narrativa, de gente que atualize as suas formas de presença. Quando isso não acontece, o monumento vira uma ruína exposta: se impõe sem convencer e exige reverência sem comover. E aí aparece Nossa Senhora Aparecida tomando partido. Essa é uma imagem emblemática porque ressalta como em tempos de conflito, o religioso costuma ser convocado para justificar, proteger, consolar e moralizar. Beijar a imagem ao retornar do combate e protegê-la de bombardeios, instalar hospital militar com gerência clerical: tudo isso mostra a guerra como um regime que reorganiza até mesmo a religião institucionalizada. Estado e Igreja, cada um dando forma à guerra à sua maneira. A santa que protegeu as tropas paulistas, naquele mesmo ano, seria homenageada por Vargas na capital federal.
Na terceira cena, a capital paulistana surge porque é lá que a religião cívica se revela com nitidez. Os túmulos de 1932 não estão ali apenas para lembrar um personagem de um episódio histórico: trata-se de produzir heróis, mártires, emblemas e uma estética do dever cívico. As iconografias dos túmulos são uma pedagogia moral materializada em pedra e metal. Elas indicam o que deve ser honrado e por que se morreu. Elas organizam o luto da guerra como virtude. Por isso, quando eu me pergunto se esses soldados viraram santos ou mártires, eu não preciso responder do modo estrito do catecismo. Ninguém ali foi canonizado. Mas, via antropologia, dá para dizer que a guerra produz algo parecido com santidade por outros meios: o morto exemplar, cuja morte vira prova de fidelidade e cuja lembrança pede rito e tem uma estética, material e espacial. Marcelo Abreu chama esse enquadramento de “martírio secularizado”: os soldados dedicavam suas vidas ao Estado de São Paulo ao invés do paraíso. Essa santidade secular aparece como proximidade e intervenção: o soldado atende pedidos, reclama do nome, visita gente à noite. E aparece como monumentalização: o soldado vira herói enterrado em obelisco-mausoléu, inscrito na paisagem da cidade. São duas gramáticas diferentes para lidar com a mesma matéria-prima: a morte em massa e a necessidade de dar forma e sentido a ela.
Talvez o mais interessante aqui seja perceber que essas gramáticas coexistem. O terço no pomar convive com o soldado de bronze e o obelisco-mausoléu convive com túmulos saqueados. O que assombra, no fim, é isso: a guerra pede continuidade. Ela pede que a gente volte, repita, nomeie, visite, conserve, crie formas. É isso que fazem os saudosistas dos fóruns obscuros na internet. E quando não se faz, seja por discordância política, por esquecimento ou por ignorância, mesmo assim as coisas continuam ali, exigindo interação. Na praça, no museu, no cemitério. Em tempos bélicos, talvez valha encarar a pergunta: que coisas religiosas são produzidas após as guerras? As assombrações de 1932 seguem apontando para uma tarefa incontornável: cuidar das coisas que a violência deixa e disputar as formas desse cuidado.
