Peter Thiel e o Apocalipse (Parte 1/3)

*Bruno Reinhardt*

O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão de passar. Mas daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos do céu, mas unicamente meu Pai. (Mateus 24:35-36)

blank
Criado pelo autor com Chat-GPT

Nascido em 1967, em Frankfurt, e criado entre os Estados Unidos e a África do Sul sob o apartheid, Peter Thiel é uma figura singular em meio à elite do Vale do Silício. Com um patrimônio que ultrapassa os 20 bilhões de dólares, ele fundou o PayPal, foi o primeiro grande investidor do Facebook e criou a Palantir, empresa que desenvolve sistemas de vigilância e análise de dados para governos e forças armadas. Mas Thiel não é apenas mais um pirata ou senhor feudal high-tech movido exclusivamente pelo lucro. Ele quer mais. Aspira ser um exemplo, uma vanguarda e, cada vez mais, um profeta do fim dos tempos. Hoje, é amplamente reconhecido como um ícone do empreendedorismo de risco, um crítico corrosivo da democracia liberal e uma espécie de filósofo-teólogo amador.

Thiel formou-se em direito em Stanford, onde fundou o jornal The Stanford Review, um veículo de direita criado em reação ao que ele via como o conformismo progressista da universidade. Ele foi aluno e interlocutor de René Girard em Stanford, de quem absorveu (à sua maneira própria) ideias sobre mimese, rivalidade e sacrifício. Ele passou décadas promovendo a “teoria mimética” de Girard, e descreve seu famoso investimento no Facebook como uma “aposta na mimese”. Criado em uma família luterana, Thiel aproximou-se do catolicismo por influência de Girard, embora seja difícil estabelecer se sua relação com essa tradição e fé seja de fato devocional ou meramente intelectual.[1] Outra influência relevante em sua vida desde a juventude tem sido o libertarianismo, principalmente suas vertentes mais conservadoras e elitistas, como aquela associada a Hans Herman-Hoppe, para quem a democratização e a mediocrização são processos inevitavelmente entrelaçados.[2] Thiel vê no desenvolvimento tecnológico o último bastião que resta nas sociedades de massa para uma liberdade individual autêntica e heróica, uma espécie de luta cósmica entre a ciência e a política. “O destino do nosso mundo pode depender do esforço de uma única pessoa que constrói ou propaga a maquinaria da liberdade que torna o mundo seguro para o capitalismo”.

A ética e o estilo de pensamento de Peter Thiel são sobretudo “contrarianos” (Chafkin 2021), tradução livre do termo contrarian. Um contrariano é alguém que deliberadamente adota posições opostas ao consenso predominante – seja em política, economia, cultura ou filosofia.  A origem do termo vem (naturalmente) do mundo financeiro.  Um contrarian investor é alguém que compra quando todos estão vendendo e vende quando todos estão comprando – partindo da ideia de que o mercado tende a exagerar nas reações coletivas. Contarianos são intensamente avessos ao “pensamento de manada”, e seu lema é: “Se todos pensam igual, alguém está deixando de pensar”. Thiel parece fazer o mesmo com o “mercado das ideias”. Há algumas décadas, ele tem contrariado tendências materialistas, secularistas e progressistas predominantes no Vale do Silício, que, por meio de seu exemplo, vieram a se modificar.

Em 1995, antes da fama e da fortuna, Thiel publicou, com David Sacks, The Diversity Myth: Multiculturalism and the Politics of Intolerance at Stanford. O alvo era o multiculturalismo universitário, descrito como uma nova religião de ressentimento e censura que pretendia reduzir os clássicos a um bando de “homens brancos”. Eles denunciavam  a “ideologia da diversidade” como sintoma de declínio civilizacional muito antes do termo “woke” tornar-se moda.

Thiel foi um dos apoiadores mais proeminentes de Donald Trump no Vale do Silício durante a campanha presidencial de 2016, posição naquele momento controversa. Ele discursou na Convenção Nacional Republicana e doou generosamente para a campanha de Trump e comitês políticos aliados. O apoio de Thiel tornou-se mais ambivalente depois que Trump assumiu o cargo e, mais tarde, expressou desapontamento com a falta de visão tecnológica do governo, mesmo continuando a apoiar certas causas populistas e nacionalistas alinhadas com a sua agenda. Ele apenas endossou timidamente a sua segunda eleição, desta vez, sem apoio financeiro, diferindo de seu amigo Elon Musk e a elite das chamadas Bich Techs, que abraçaram com convicção o segundo advento de Trump.

Para entender o Apocalipse segundo Peter Thiel, o objetivo deste ensaio, é importante começar com seu diagnóstico sobre o presente. Hartmut Rosa (2022) tem nos alertado para os perigos da “aceleração intrageracional”,  a pressão para que cada indivíduo acompanhe ritmos tecnológicos, profissionais e sociais em constante intensificação. Esse regime de aceleração temporal tem produzido um  sentimento de insuficiência e obsolescência contínuas e gerado efeitos perversos, como o esgotamento subjetivo, a erosão dos vínculos sociais e a perda de ressonância com o mundo. A tese do sociólogo alemão é quase auto-evidente, basta olhar à nossa volta.

Mas não para o contrariano Thiel. Para ele, o Ocidente vive, desde os anos 1960, um período de estagnação. Isso é mais do que uma crítica ao crescimento do PIB; é um diagnóstico cultural: o futuro que nos foi prometido – os carros voadores (que ele cita constantemente, indicando seu apego afetivo a The Jetsons), a cura do câncer, as viagens interplanetárias, a energia ilimitada – não se concretizou. Em sua agora famosa observação, “Queríamos carros voadores, mas ganhamos 140 caracteres”, Thiel apresenta nossos recentes triunfos digitais como um pálido substituto para as grandes ambições que moveram o Ocidente até a metade do século XX. “Temos que focar mais nos átomos e menos nos bits”, ele tem dito reiteradamente, apesar de investir pesadamente nos últimos.

Na retórica de Thiel, o cientista heróico do passado iluminista é contraposto ao cientista-burocrata do século XXI, cuja inventividade tem sido tolhida tanto pela hiper-especialização e falta de visão do todo, quanto pela suposta hiper-regulação estatal da exploração tecno-científica. Em sua imaginação histórica com pendor pré-figurativo, essa é a mesma estagnação e falta de inventividade que teria levado ao declínio de Roma ou ao recuo da China Ming da exploração marítima. Thiel não nega que há grandes riscos no projeto prometeico da modernidade – a ideia de que o conhecimento científico e tecnológico pode libertar a humanidade de suas limitações naturais, inclusive da mortalidade -, mas sem essa sede de redenção, a civilização Ocidental estaria fadada a perder seu propósito e a acelerar a sua própria substituição. 

Em uma entrevista em duas partes concedida a Peter Robinson, da  Hoover Institution, intitulada Apocalypse Now: Peter Thiel on Ancient Prophecies and Modern Tech, ele argumenta que:

Havia uma ambição incrível, uma energia incrível na ciência moderna. Talvez fosse uma consequência do cristianismo. Se a promessa do cristianismo é a ressurreição física, então a ciência também poderia oferecer isso. Era uma possibilidade, talvez fosse uma rival do cristianismo. Não precisamos do cristianismo se podemos fazer isso através da ciência. E então há uma maneira estranha pela qual esse projeto em muitas dimensões parece ter se esgotado. Embora, é claro, as pessoas ainda se ajoelhem diante da ciência, acreditem na ciência com C maiúsculo, a ambição foi realmente derrotada. Se você olhar para os cientistas individualmente, há muito menos dessas figuras heróicas e ousadas, que rompem com dogmas e pensam por si mesmas. E isso é muito mais comum na modernidade tardia, você é apenas um robô em uma engrenagem cada vez menor, em uma máquina cada vez maior ou algo assim.

O diagnóstico da estagnação está na base do fascínio de Thiel pela escatologia cristã há quase uma década, divulgada em ensaios, entrevistas, palestras em empresas e universidades, incluindo as mais prestigiosas. Em outubro deste ano, ele realizou uma fala em duas partes na Universidade de Oxford sobre o Anticristo. Thiel ainda sonha em vencer a finitude por meios sociotécnicos, e se inscreveu para ser preservado criogenicamente após sua morte, na esperança de um possível renascimento futuro. Ele define seu compromisso com a criogenia, no entanto, como “mais uma declaração ideológica” do que uma aposta certa. Seu verdadeiro interesse está na finitude em um sentido mais amplo, o fim da espécie humana, o que o levou ao livro do Apocalipse. Como pretendo demonstrar, a sua aproximação da teologia é um meio de promover uma visão de mundo que, parafraseando Geertz (2001), chamaria de anti-anti-aceleracionista, mesmo que, no final, ela soe apenas como um aceleracionismo suicida, um jogar-se voluntário no Fim.

(Continua)


[1] Sobre a sua prática cristã – que parece estar se intensificando – e o avanço mais recente do cristianismo no Vale do Silício, vale mencionar esta curiosa entrevista publicada recentemente na Christianity Today com uma evangelista de elite: https://www.christianitytoday.com/2025/08/michelle-stephens-interview-peter-thiel-silicon-valley-revival-evangelism/

[2] Críticos têm associado essa verve anti-igualitária à sua experiência formativa na África do Sul. https://ihu.unisinos.br/sobre-o-ihu/78-noticias/649885-elon-musk-peter-thiel-e-a-mafia-do-paypal-o-clube-dos-tecno-oligarcas-com-uma-inclinacao-supremacista

Referências

Barkun, Michael. A Culture of Conspiracy: Apocalyptic Visions in Contemporary America. Berkeley: University of California Press, 2003.

Chafkin, Max. The Contrarian: Peter Thiel and Silicon Valley’s Pursuit of Power. London: Bloomsbury, 2021.

Geertz, Clifford. “Anti anti-relativismo”. In. Nova luz sobre a antropologia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editores, 2001.

Jesi, Furio. Cultura de Direita. Belo Horizonte: Âyiné, 2022

Kotsko, Adam. The Prince of This World. Stanford: Stanford University Press, 2017.

Löwith, Karl. O Sentido na História: os Pressupostos Teológicos da Filosofia da História. São Paulo: Editora UNESP, 2024.

Mannheim, Karl. Ideologia e Utopia. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1972.

​​Marcuse, Herbert. Contra-revolução e Revolta. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1973.

Massumi, Brian. Ontopower: War, Powers, and the State of Perception. Durham: Duke University Press, 2015.

Massumi, Brian. “Preemption Today.” Theory & Event,  28(2): 160-174, 2025.

Reinhardt, Bruno. “The Katechon and the Messiah: Time, History, and Threat in Brazil’s Aspirational Fascism.” Current Anthropology, 66(3): 332-361, 2025.

Rosa, Hartmut. Alienação e Aceleração: por uma Teoria Crítica da Temporalidade Tardo-Moderna. Petrópolis: Vozes, 2022.

Sacks, David; Thiel, Peter. The Diversity Myth: Multiculturalism and the Politics of Intolerance at Stanford. Oakland: Independent Institute, 1995.

Schmitt Carl. O Nomos da Terra no Direito das Gentes do Jus Publicum Europæum. Rio de Janeiro: Contraponto/Ed. PUC-Rio, 2014.

Toscano, Alberto. Late Fascism: Race, Capitalism and the Politics of Crisis. New York: Verso, 2023.

Compartilhe

Facebook
WhatsApp
LinkedIn
Email

Newsletter

Cadastre-se para receber informativos por email